PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Não creio que falte a qualquer pessoa de boa vontade e minimamente lúcida a consciência do que significa uma gestação e da incompatibilidade dela com a vida de uma criança de 9 anos. Também creio que não cabe na cabeça de pessoa alguma que cultive o respeito pela dignidade da vida humana o aborto como recurso fácil e rápido para a solução dos complexos conflitos produzidos por circunstâncias de violência. Por que será, então, que a tragédia da gravidez de uma menina tenha se misturado com a posição de uma autoridade da Igreja e transformado tudo num grotesco caso de exploração da mídia e de um debate no qual são inseridos conceitos legítimos e preconceitos colossais? Por que será que a população aceita e embarca numa confusão dessa natureza e se esquece de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa? A que propósito serve esse tipo de polêmica?
Vejamos a vida como ela é. A situação da menina que ficou grávida tem dimensões ocultas. Preocupações fundamentais são omitidas para dar destaque a um posicionamento rigoroso da Igreja. O que ocorreu foi um crime bárbaro. A sociedade não foi nem está sendo informada, de forma suficiente, sobre o que resultou na gravidez de uma criança.
O foco se distanciou do centro da história e indo para a periferia. O que precisaria interessar à população eram as circunstâncias e as pessoas que irresponsavelmente contribuíram para o ocorrido. O que precisaria receber maior realce seriam as iniciativas do poder público, da justiça, das forças organizadas da sociedade para uma conscientização da situação geral da criança neste País, de modo que fossem evitados casos desse tipo.
Nessa direção, alguém teria de colocar na pauta das discussões do Parlamento, das organizações com alguma preocupação humana, a situação das famílias marcadas pela violência sexual contra crianças. Não fica direito que toda essa responsabilidade de defesa intransigente da família e da vida torne-se função exclusiva da Igreja, que, no exercício dessa tarefa, se transforma em alvo fácil de quem discorda dela por razão política, moral ou religiosa.
O combate aos crimes contra a vida é dever oriundo do Evangelho. No caso da gravidez daquela criança há intricados elementos para reflexão, mas ninguém pode esperar de representantes da Igreja – que lutam para ser fiéis ao ministério conferido a ela por Cristo – qualquer posicionamento que favoreça intervenções que resultem em eliminação da vida humana. Isso não vai ocorrer. E se não ocorrerá não é porque a Igreja seja cega ou insensível a essas situações, mas porque sua defesa da vida é intransigente e radical.
Haverá sempre da parte dos fiéis à doutrina moral da Igreja uma busca criativa para resolver qualquer evento humano que envolva a possibilidade de ataque ou interrupção da vida. Haverá sempre a esperança de uma solução na qual sejam todos sejam salvos. A Igreja não tem e nem terá condições éticas de relativizar a vida.
Nisso está a sua incômoda atuação em episódios como o da gravidez da criança. Era preciso que os acusadores devolvessem à Igreja o direito de ser reta em relação à sua defesa definitiva a respeito da vida do nascituro. Era preciso que a exposição de um caso tão grave desse mais espaço ao debate social, econômico, psicológico e afetivo. Para que serve multiplicar espaços com o que não interessa e nem tem muito a contribuir?
Para a Igreja, a vida da criança grávida tem valor equivalente à vida das crianças que começavam a se formar no seu ventre. O valor da árvore está no mesmo patamar do valor da semente fecundada. Um princípio duro e de dificílima aplicação em situações de teor emocional e com características de violência sexual. Ninguém é obrigado a aceitar esse conceito, mas ninguém tem o direito de lançar mão de preconceitos para confundir o debate. Por que, ao invés de se debruçar excessivamente sobre a afirmação de um bispo, não aprofundar a análise da tragédia e promover punição exemplar ao crime cometido? Fora dessa armadilha, resta-nos tarefa indiscutível: a menina que estava grávida precisa, agora, é de atenção, carinho e apoio.
Pe. Rafael Vieira, CSsR – 11.03.2009

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