PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Em todos os dias desta semana, a população brasileira que assiste noticiosos na TV fica sabendo dos detalhes de um episódio violento que envolve seguranças de uma fazenda no Pernambuco e militantes do MST, Movimento dos trabalhadores sem-terra. Quatro seguranças foram mortos, na ocasião. Tudo corre a favor do esclarecimento do fato: a mídia dá espaços generosos, a polícia se esmera no fornecimento dos detalhes, representantes dos Direitos Humanos e do Ministério da Justiça tentam dar versões que minimizam a participação dos membros do MST e o dono da fazenda em questão afirmou, diante das câmeras para o país inteiro, que os seguranças estavam desarmados. A conclusão geral não poderá ser outra que não a constatação do crime, a prisão dos assassinos e uma mancha na bandeira vermelho, preto e verde do maior e mais resistente movimento social da atualidade. Até aí, tudo pode parecer um avanço. Lutamos pelo fim da impunidade e só se pode aplaudir o esclarecimento rápido, preciso e seguro de crimes contra a vida. O que não se pode aceitar e nem valorizar é a lógica de dois pesos e duas medidas. Por que será que as centenas de trabalhadores pobres assassinados, muitas vezes com requintes de crueldade, por causa da ocupação da terra em vastas regiões do país nunca receberam tratamento semelhante? Porque é que não se faz um levante que reúna ministério publico, organizações de advogados, forças-tarefas dos governos e mídia para esclarecer, divulgar e punir os assassinos dos pobres que lutam pela terra? Por quê?
Dados da Comissão Pastoral da Terra confirmam que em 2007 foram assassinadas 28 pessoas em conflitos pela agrários. Em 2006, foram registrados 39 assassinatos. O estado do Pará que sempre foi o campeão de mortes, na comparação destes dois anos mostrou uma leve diminuição de casos, mas em contraposição a essa retração, no restante do país houve um aumento de 50% no número das mortes. O levantamento que é sempre feito pelos militantes da CPT alerta que esse quadro vem comprovar que a violência se esparrama pelo Brasil, dominando novos espaços. O acumulado das estatísticas de outros anos dá um resultado absurdo. Milhares de famílias, especialmente do norte e nordeste brasileiro, tiveram de seguir sozinhas sem a presença de homens corajosos, dignos e engajados na luta pelo direito de viver na terra e produzir nela o sustento do país. Os números são assustadores e alguns casos foram amplamente conhecidos pela covardia e pela omissão do estado em situações tristes vividas na região do Bico do Papagaio, ponto geográfico no qual converge os estados do Maranhão, do Tocantins e de Goiás. Foi lá que morreu Pe. Josimo Tavares, um sacerdote que enfrentou, por amor ao Evangelho, os conflitos agrários e defendeu os fracos, os pobres, os trabalhadores abandonados. Eram outros tempos. Tempos que o PT era um aliado dos pequenos. Entre os comentários desta semana sobre a ocorrência de Pernambuco, o presidente Lula fez uma declaração visivelmente tendenciosa no rumo da criminalização das ações do MST.
Claro que qualquer resgate ou lembrança do compromisso com a luta por uma reforma agrária ampla e justa pode soar, agora, como desculpa esfarrapada diante do assassinato dos seguranças no nordeste. A revista Veja, que está nas bancas esta semana, colocou em destaque o desabafo de um militante como se fosse a confissão de que o Movimento mata e depois quer a defesa do estado. Nada mais injusto e nojento. Não creio que falte aos grupos realmente convencidos do valor da luta organizada, pacifica e perseverante do MST algum elemento que os impeça de entender o que sentem as famílias dos seguranças mortos. O povo que luta por dignidade e terra nesse país tem o rosto molhado pelo suor da esperança que se desfaz em momentos como esse representado pelos dias desta semana. Creio que ninguém queira acobertar assassinos e nem justificar mortes. Justiça com punição aos responsáveis pelos crimes ocorridos em Pernambuco é o que todos querem, mas há que se garantir o direito de defesa de uma luta, de uma utopia, de um sonho. A terra é mal dividida no Brasil. Os poderosos matam para conservar essa situação iníqua e não se pode aceitar que a fúria dos grandes apequenasse a imensa luta dos pobres trabalhadores que entregam suas vidas por um país diferente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por comentar. Sua participação é muito importante para nós. Deixe seu e-mail para podermos lhe contatar.