PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Um dos maiores sucessos de teledramturgia brasileira é representada, atualmente, pela chamada novela das 8 da Rede Globo de Televisão. Nela, os autores colocam as idéias e os comportamentos que acabam por promover discussões e suscitar reações escandalizadas. Na atual temporada, a novela de João Emanuel Carneiro, intitulada “A favorita” traz um caso de interessante de contraste entre o perfil asqueroso de um personagem e a beleza da interpretação de um ator sensível e talentoso. Algumas notícias de bastidores podem dar a exata dimensão desse fenômeno. Estou me referindo ao Jackson Antunes que faz o papel de Leonardo, um cafajeste. Trago duas informações importantes. Primeira: o ator disse em uma entrevista recente que depois ter feito uma leitura cuidadosa das características de seu personagem e de tomar conhecimento, pela sinopse, do potencial de rejeição que ele poderia criar no público, tomou a decisão de engordar quase 15 quilos. Antunes não queria que o público feminino achasse que aquele traste de marido que bate na mulher, humilha os filhos e é antipático no trabalho e no convívio da comunidade fosse considerado atraente. Segunda: a atriz Paula Bulamarque, que atua na mesma novela, deu uma entrevista sobre seu trabalho e testemunhou que Antunes, durante as gravações, depois de atuar em cenas nas quais diz horrores à personagem de Lilia Cabral que interpreta sua mulher, ele não se cansa de pedir desculpas á colega.
Pode parecer exagero, excesso de cuidado, mas não é nada disso. Esse comportamento do ator parece mais estar revelando o caso de alguém que leva, definitivamente a sério, o que aprendemos como ética pessoal. Em qualquer canto que se queira pesquisar sobre esse tema pode-se encontrar a definição de que ética pessoal refere-se à postura ou conduta que um indivíduo demonstra através do modo como se relaciona consigo mesmo e frente aos outros abrangendo suas diferentes ações, pensamentos e sentimentos. Sublinho o fato de que em não há “folga” para o exercício da ética da pessoa. Em qualquer lugar e a qualquer hora essa ética requer que ela se posicione diante dos preceitos que respeita e consiga, com isso, estabelecer para si certo modo de ser.
A negação ou a não observância de uma ética pessoal tem produzido, no Brasil, um comportamento generalizado de amoralidade na política, na economia e nos costumes. Até o ambiente da Igreja não tem sido poupado dessa praga. As pessoas se sentem profundamente confortáveis em desfilar comportamentos de comedimento e de defesa de valores que, depois, são assassinados dentro de salas e quartos fechados á chave. Longe do olhar de uma câmera indiscreta ou de um inimigo político, muita gente se sente liberada para pensar, falar ou fazer coisas que não combinam em nada com o que dizem respeitar na vida. A ausência de ética pessoal é a grande responsável por todos os tipos de corrupção. É o fim da moral. O início do caos e do “salve-se quem puder”.
O comportamento de Jackson Antunes não teve grande divulgação. Não interessa a essa sociedade ampliar esse tipo de informação e pior: ao saber de gestos como os dele nos bastidores de uma novela de sucesso, aparecerão aqueles que vão preferir considerá-lo um demagogo ou um hipócrita. A educação das novas gerações está fortemente comprometida por conta desse tipo de mentalidade. Já não se encontra mais modelos parciais de ilustração concreta no âmbito da cena pública para se tratar de comportamento ético e quando aparecem esses casos raros, há um natural desaconselhamento para a sua divulgação. Com isso, tornam-se largos, em demasia, os campos das justificativas do comportamento imoral. Confinam-se ao ambiente dos mais conservadores a tarefa da afirmação de valores importantes para garantir o mínimo de sanidade para os modelos familiares e propaga-se, sempre com maior entusiasmo, a cultura da permissividade. O personagem do Antunes é um calhorda, não deve ser bonito e é compreensível que o ator se desculpe com a colega por ser tão convincente.
Pe. Rafael Vieira, CSsR – 07.10.2008

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