PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Uma linda jovem inglesa de 17 anos foi encontrada, aos pedaços, pela polícia de Goiás, e o assassino, preso, guardava, armazenadas no celular, algumas fotos da moça mutilada e dele próprio em poses que lembram “Chuck”, o boneco esfaqueador bizarro dos filmes de terror. Ela vivia no Brasil há um ano na companhia de namorados. O garoto que a assassinou e a esquartejou, depois de participar de uma festa enquanto pensava no que fazer com o corpo era um deles. Um episódio de extrema selvageria que pode, de alguma forma, revelar uma das mais importantes questões da relação entre pais e filhos no contexto do grande debate da sociedade: a aprovação de certas aventuras na vida de menores de idade. Não foram poucas as pessoas que se perguntaram sobre o que estaria fazendo, perdida por aqui, uma menina tão nova na companhia de companheiros de idade semelhante. O que leva os pais a concordarem com a ida de uma filha para outro país sem o mínimo de garantias de segurança? Talvez parte das respostas para esses questionamentos esteja embutida no discurso frio a respeito do modo como casais britânicos lidam com filhos e na idéia de emancipação precoce que inflama não somente os ingleses, mas uma boa parcela da juventude no mundo inteiro.
Veja o que deu na BBC de Londres: segundo uma pesquisa realizada pela revista britânica Grazia, ter filhos aparece em último lugar na lista de prioridades de mulheres entre 28 e 32 anos de idade. De acordo com a pesquisa, que ouviu 1,8 mil mulheres sem filhos entre 18 e 50 anos, relacionamentos e casamento são a principal prioridade feminina. Amigos e família, carreira e ganhar dinheiro também vêm antes de ter filhos. No entanto, segundo a revista, a idéia de que as mulheres deixam a maternidade de lado para se dedicar mais à carreira não reflete a realidade. Entre as mulheres de 24 a 27 anos, 51% afirmaram que ainda não tiveram filhos porque não têm casa própria ou não se sentem financeiramente estáveis. Esse também foi o motivo apontado por um terço das entrevistadas entre 28 e 32 anos. Uma em cada quatro mulheres entre 33 e 40 anos disse estar "se divertindo muito para pensar em crianças no momento". E 13% das entrevistadas com mais de 30 anos afirmaram que elas próprias ainda se sentem como crianças. Na faixa entre 41 e 49 anos, 35% das entrevistadas eram casadas, mas 28% disseram que ainda se sentem muito imaturas para ter filhos. Esses dados dizem muito do que pode estar por detrás da história macabra ocorrida em Goiânia.
Do mesmo lado está a ideologia da emancipação. O que uma menina de 17 anos, por mais bem informada que fosse, teria de válido para convencer seus responsáveis de mudar-se para um país distante e viver na companhia de gente da sua idade? Não há chances para encontrar razões aceitáveis para isso. Mas tanto lá na Inglaterra como em outras partes e aqui no Brasil, é grande a reivindicação por uma espécie de direito que os jovens teriam de serem donos de seus próprios narizes, cada vez mais cedo. No livro “Encurtando a adolescência”, a filósofa Tânia Zagury, mostra que, acima de tudo, a ação segura e firme dos pais é a forma mais eficiente de conduzir os filhos a um destino produtivo, saudável e feliz. Na obra, ela trabalha a questão de uma abreviação necessária dessa fase na vida dos jovens o que poderia, por associação e aprofundamento da questão, sugerir que os pais britânicos já teriam notado nessa menina, morta covardemente no Brasil, uma adulta pronta para enfrentar a vida. Mas Zagury afirma, com todas as letras, que esse encurtamento da adolescência só pode ser feito com a presença e condução dos pais como forma de estímulo a que os jovens assumam responsavelmente as rédeas de seu destino e de seu futuro.
As duas questões são intrigantes e merecem muita reflexão. A responsabilidade dos pais e a perigosa postulação dos filhos. O desencontro delas pode produzir cenas de barbárie. E, no caso dantesco de Goiânia, o mesmo tipo de preocupação sobre pais e filhos recai sobre o ambiente que produziu o comportamento de um jovem calculista e marcado pelas ações assassinas e doentes de figuras do imaginário cinematográfico de suspense. Está aí um caldeirão de provocações para quem se preocupa com o rumo que o mundão esta tomando. Não se pode apenas ler a notícia e apenas virar a página. Será preciso pensar. Será preciso rezar.

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