PADRE FLÁVIO CAVALCA DE CASTRO CSsR
A sineta cantou alegre na portaria do convento de Santa Cruz dos cônegos de Santo Agostinho. Cônego Fernando abriu a porta e contra o sol de Coimbra viu as silhuetas dos dois frades franciscanos da ermida de Santo Antônio dos Olivais.
— Boa tarde, sr. cônego. Uma esmola pelo amor de Deus!
Ganharam a esmola, mas não saíram logo porque o cônego Fernando queria desabafar.
— Aqui não é o meu lugar. Acho que Deus me chama para ser missionário e converter os mouros. Como seus irmãos que foram para o Marrocos e lá morreram como mártires. Será que vocês me aceitam como irmão?
— Acho que sim, sr. cônego. Vamos falar com o irmão guardião.
— Mas vejam lá, me mandem logo para a África...
Cônego Fernando teria nascido em Lisboa, entre 1188 e 1191, e quanto a seus pais nada sabemos ao certo. Em casa, dizem, teve boa formação cristã; na escola da catedral recebeu a melhor instrução do tempo. Aos 15 anos entrou para os cônegos de Santo Agostinho em Lisboa, mas logo pediu para ficar mais longe da família e dos amigos. Foi para Coimbra onde, infelizmente, não encontrou o mesmo ambiente de santidade que tinha acolhido em S. Vicente de Fora. Até parece que o ambiente desfavorável o espicaçou a ser mais santo.
Em meados de 1220 foi recebido entre os franciscanos e em novembro já estava desembarcando no Marrocos como missionário. Chegou doente e logo no começo do ano os superiores o mandaram de volta para Portugal. Mas, nem sempre Deus está de acordo com os superiores... e dá um jeito. Uma tempestade arrastou o navio e Frei Antônio (esqueci de dizer, mas o cônego Fernando tinha mudado de nome...) foi parar nas praias da Sicília, muito longe de Lisboa.
Em maio de 1221 estava em Assis, onde Frei Francisco reunia seus frades menores. Ninguém prestou atenção ao frade português que acabou indo morar no convento de Bolonha. Até setembro viveu no silêncio e na oração, macerando o corpo com penitências. Até que ficou doente o pregador que devia falar na solene ordenação de alguns frades. Ninguém estava preparado. Talvez por brincadeira, o guardião perguntou se o português não queria falar... Frei Antônio aceitou e dizem que, havia muito tempo, não se ouvia tão grande pregador. Acabou-se o sossego.
O frade de Lisboa foi logo encarregado de pregar, principalmente para converter os hereges. Era um santo e um sábio que atraía multidões. Mas também atraía perseguições e encontrava a repulsa dos mais fanáticos. Contam que, em Rimini, os hereges não o quiseram ouvir. Frei Antônio foi para a beira do mar e começou a falar aos peixes. Talvez seja lenda que os peixes o tenham vindo ouvir, mas pelo menos é certo que logo ajuntou-se uma grande multidão para ouvir o que dizia. Durante algum tempo foi professor de teologia. Obedecendo às orientações de Frei Francisco, ensinou de maneira a não perturbar a oração e a devoção dos bons frades. Logo, porém, foi convocado pelo papa e foi pregar aos hereges no sul da França.
Em fins de 1229 está em Pádua, onde mais que nunca atrai multidões. É preciso protegê-lo com soldados armados, senão o povo lhe fazia em pedaço o pobre hábito marrom. Seus milagres corriam de boca em boca. No dia 13 de junho de 1231, os garotos percorreram as ruas de Pádua gritando:
— “Morreu o santo, morreu o santo!”
Desde então ninguém foi capaz de decidir se é Santo Antônio de Pádua ou Santo Antônio de Lisboa. O certo é que todos o invocam para encontrar coisas perdidas ou encontrar o noivo que não aparece. Santo Antônio tão conhecido que todos se esqueceram do cônego Fernando.

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