
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Neste tempo em que se celebra a memória viva dos mistérios que sustentam a nossa fé, ando intrigado com uma expressão poética de Bertold Brecht quando disse que preferia como amigos aqueles que agem irrefletidamente. Ninguém duvidaria da qualidade daqueles que conviveram fraternalmente com um dos dramaturgos mais importantes do século XX. Marxista, ateu militante, sua obra deixou um rastro de humanidade capaz de comover profundamente quem crê em Jesus e encontra em seu gesto radical de amor no Calvário o evento que traz a salvação no agora e na transcendência de quem professa a eternidade e de quem tem mística para lidar com o agora finito. Brecht gostava de amigos estouvados. Considero-me um tipo que se enquadra na preferência de gênio alemão. Celebro a Páscoa com mais encanto pela força que nos une em torno de certos ritos e de certas pessoas do que pela contemplação intelectual de certas teologias. Vejo nos olhos de mulheres, crianças e homens que carregam, comigo, ramos, imagens e velas a luz que vem do Sepulcro Vazio. Na dor que experimento ao ver a injustiça e a morte vencendo nos quatro cantos do mundo consigo me situar no cenário da Paixão e identifico Pilatos, Herodes, chefes, algozes. E, nas celebrações desses dias, acolho os efeitos da Ressurreição que ainda nos sustentam para rezar, pensar, sonhar, renovar compromisso e lavar pés.
Brecht, certa vez, imaginou uma realidade curiosa se “Se os tubarões fossem homens” e saiu com essa: “eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres têm gosto melhor que os tristonhos”. Da aguçada crítica comunista de que os opressores são capazes até mesmo de zelar pela sobrevivência dos pequenos para consumir suas vidas em favor do seu prazer, brota um serviço raro de conscientização política. Uma dádiva. Um presente que contrasta preferência em repartir afeto com quem fala ou faz as coisas sem tomar muito cuidado. Talvez seja justamente porque ele também era um dos nossos.
Sou estouvado e mesmo que não tivesse sido aceito entre os amigos do autor de “Galileu Galilei”, sinto que me acomodo nesse conceito porque a fascinante festa da Páscoa, todo ano, me pega de jeito e me leva a fazer longas meditações. Pouco ortodoxas talvez, pouco filosóficas também. Todas elas, no entanto, são marcadas pelo desejo de ser mais íntimo das verdades da fé em Jesus e na humanidade do bem. E, o interessante, é que um bocado de gente me acompanha. Claro que isso ocorre por razões óbvias, mas não existirá algo de falta de juízo nisso. Levar fé no que diz um sujeito que não discorre de forma lógica, linear e com um conteúdo bem definido nos discursos que a Tradição tem garantido todos os anos. Há ainda, a provável falta de alternativa ou ainda a santa boa vontade que coloca multidões inteiras diante de um despreparado nas igrejas em quase todo lugar.
O que conta mais, para mim, é a sinceridade. É o sinônimo da verdade. Se não sou capaz de ir além do que digo é porque não tenho o cabedal necessário. Posso assegurar que não sou bom na arte de enrolação. Se não chego a dizer algo consistente é porque cheguei ao meu limite. E daí, parto para a aventura. Não aquela do vôo livre que me leva a espatifar-me no chão, mas aquela que me leva à travessura das tentativas de pensamento peregrino e de comunicar o que penso. Fica tudo meio atabalhoado. Só posso garantir que não sou leviano. E tem muita gente que está comigo. Gosto da idéia de ser membro do clube dos estouvados. Entre nós, há muita gente divertida. Nas andanças pelas celebrações da Semana Santa, encontrei gente tão linda, tão boa, tão santa, tão engraçada. Alguns estouvados. A Páscoa, nosso dom maior, continua.
Pe. Rafael Vieira / 02.04.2007.
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