
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Dia desses, num anúncio de assuntos sobre novidades do espaço, encontrei uma nota curiosa. Um telescópio da Agência Espacial Americana captou a colisão de cometas em torno de uma estrela morta a cerca de 700 anos luz da Terra. A estrela encontra-se no centro da nebulosa de "Helix" e a nuvem de gás que a envolve lhe dá a aparência de um olho gigantesco. Fiquei encabulado com o fenômeno. Um grande olho sugerindo vigilância intergaláctica. Esse símbolo que continua no centro de grandes temas refletidos na sociedade e na religião. De um lado, uma pirâmide com um olho no centro foi usada, durante séculos, para remeter-se à figura de Deus em ambientes católicos. O brasão da minha congregação religiosa, por exemplo, tem um grande olho no centro. Por outro lado, os brasileiros acompanham um programa de televisão que já fez história em boa parte do mundo e traz a fantasia crítica de George Orwell para o espetáculo grotesco da futilidade atual sob o nome de “Big Brother”. Na verdade, esse Grande Irmão, representado pela denúncia da vigilância social de Orwell contra o estabelecimento do stalinismo no leste europeu, remete à realidade de um olho onipresente controlador. Eis o paradoxo da nebulosa. Transitamos, como sociedade e até como comunidades de fé, entre a vontade de sermos vistos, protegidos e guardados e a necessidade de privacidade e do segredo.
Marcelo Gleiser, jovem brasileiro estudioso de Física que caiu nas graças da grande mídia no segundo semestre do ano passado, depois de ver um eclipse do sol, deixou a seguinte expressão registrada em uma de suas crônicas reunidas no volume O fim da terra e do céu: “Lá estava o olho de Deus novamente, assustador e magnífico. Após a luz azul-metálica nos envolver por completo, fui invadido por uma vaga sensação de terror, ao mesmo tempo primordial e sublime. Essa luz não vinha deste mundo, mas de um mundo que existe além do tempo; mais uma vez, passados 34 anos, eu vislumbrava o eterno nos céus”. Nas palavras de um cientista a referência religiosa pode comprovar que todos, crentes e não-crentes, são tributários de uma mesma imagem divina. A associação do olho com a presença de Deus deixou marcas negativas na história da humanidade. Culturas foram construídas sobre a base da crença num Deus que olha para punir. Vigia de maneira repressora. Vê tudo para manter tudo sob seu absoluto controle. Essa idéia é muito difundida pelas religiões que amam o poder e o utilizam para perpetuar a dominação de alguns, considerados enviados de Deus, sobre multidões que precisam ser tuteladas. Esse tipo de prática está bem representado pelos modernos programas do gênero chamado de reality show. Neles, o olhar constante é indiscreto, malicioso e tem pretensões divinas. O telespectador quer decidir, punir e premiar. É a reprodução do retrato contemporâneo da religião do grande olho.
A nebulosa, no entanto, não recorda apenas essa página delicada da imagem que fizemos e ainda insistimos em fazer de Deus. Um dos salmos da Escritura, cantado nas igrejas e nos shows católicos e evangélicos no país inteiro traz uma correção poderosa a essa fraude do olho divino. A letra é facilmente entoada e a melodia mais conhecida é assimilada rapidamente a ponto de servir quase como uma cantiga de ninar: “Senhor, tu me sondas e me conheces, sabes quando assento e levanto. Esquadrinhas meu andar e o meu deitar. Conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à boca não e tu conheces. Senhor, Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões tua mão. Sonda-me, ó Deus, conheces o meu coração. Prova-me os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mal e guia-me pelo caminho eterno. Senhor Tu me sondas”. É sempre a poesia e a música que nos salvam. Colocam no lugar certo, nossas idéias. O olho de Deus que está permanente sobre nós é o mesmo olho da mãe que embala o sono ou acompanha a brincadeira dos filhos pequenos. Um olhar cuidadoso, protetor, a garantia da segurança. A nota sobre a nebulosa de "Helix", na constelação de Aquário, mostra que aquela configuração em olho gigante se formou quando uma estrela similar ao nosso Sol morreu depois de desprender de suas camadas mais externas. A radiação dessa estrela morta aquece o material expulso, causando uma fosforescência que foi captada pelo telescópio infravermelho da NASA. Segundo os cientistas, o pó da nebulosa é causado pela colisão de cometas nos limites externos do sistema como conseqüência da alteração de suas órbitas produzidas pela morte da estrela. A morte deixando um eterno sinal de proteção e carinho. Será que não é uma boa metáfora de Páscoa para nos ajudar nessa Quaresma?
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 26.02.2006
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