
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Parece que quase tudo começa e termina com os meios de comunicação. Temos milhares de problemas com a infraestrutura no Brasil, mas somente quando a televisão dá vazão à situação escandalosa de certos setores é que o país descobre aquele problema. As manobras de políticos para alcançar verbas e levar adiante certos propósitos são práticas antigas, mas só quando um repórter esperto de um jornal ou de uma revista descobre o fio da meada é que explode um escândalo. Passamos décadas olhando para certos setores da vida brasileira sem darmos atenção devida. Basta ocorrer uma tragédia e os veículos de comunicação darem espaço para especulações e lá estamos nós descobrindo que o tráfego aéreo não é assim tão seguro e as construções do metrô em grandes cidades são feitas sob vigas enferrujadas. Alguns temas estão sempre colocados na grande agenda das discussões mundiais, mas ganham espaço e tomam corpo apenas e tão somente quando começa uma onda na mídia. O aquecimento global, por exemplo, deixou de ser assunto de cientistas apocalípticos, caiu nas mãos de um cidadão poderoso como o ex vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, e passou a ser pauta de quase todo o dia dos jornais. Forma-se uma grande bolha. E, por mais que o assunto seja importante, quando a mídia mudar de interesse e a bolha explodir, o povo corre o risco de esquecer a questão tão propagada porque os holofotes vão procurar outros temas.
Há momentos, no entanto, que a concentração temática da comunicação planetária arrasta para si uma série de iniciativas interessantes que acaba mudando o cenário em determinados campos da vida do país. Creio que, nestes dias, está ocorrendo algo semelhante. A Campanha da Fraternidade da Igreja, que não paga tributo algum a esse fenômeno da overdose de exploração sazonal de um único tema, entrou na esteira da discussão global. Ao trazer a Amazônia para a reflexão e oração das comunidades, a Conferência dos Bispos do Brasil coloca uma enorme quantidade de informação no caldeirão midiático desse início de 2007. E a proposta dos bispos aprofunda com argumentos objetivos, além da reflexão teológica, um elemento muito importante em toda a discussão sobre a Amazônia apresentada pela grande mídia: os povos amazônicos. As comunidades que construíram, no correr dos séculos, a história daquela região tem muito a dizer sobre o que é cada problema ou qual é cada riqueza da Amazônia. Elas estão longe dos escritórios das empresas multinacionais, dos grandes proprietários, dos gabinetes de governos, dos fóruns de ambientalistas e até mesmo de organizações de defesa daquele pedaço do mundo. Mas essas comunidades têm de tomar lugar na discussão do presente e do futuro.
A mídia sustentada por interesses variados do ponto de vista econômico, político e até religioso parece não ter se dado conta que a Amazônia pode ser um mundo bem distante das fantasias de um seriado de televisão. Lá estão inúmeros povos indígenas, povos afro-descendentes, migrantes de quase todos os cantos do Brasil, Ribeirinhos, posseiros, colonos. Lá também estão cidades grandes e pequenas com o mesmo quadro de dificuldades de infraestrutura do resto do país. Tem gente que pensa, que tem boca, que reflete, que luta, que grita, que sonha e que pode dizer ao mundo o que é Amazônia de verdade. Esta é uma das mais contundentes diferenças entre o discurso midiático sobre a Amazônia e a proposta de reflexão da CNBB. Para a Igreja, os povos amazônicos devem ser sempre ouvidos e levados em consideração ao tratar de qualquer grande desafio como a preservação das florestas, a ocupação de território, o uso da água, a militarização, o narcotráfico e um tanto de outras complexas questões amazônicas. Lembrando: a opinião de Al Gore sobre o desmatamento veiculada pela grande mídia global, para a Igreja, pode ser importante na medida que se confronta com a história e a opinião dos povos da Amazônia.
A Campanha da Fraternidade é fruto da espiritualidade da quaresma. A Igreja propõe temas, há 44 anos, para ajudar o cristão a se aproximar dos verdadeiros obstáculos que impedem a fraternidade e convoca para a conversão. Exatamente por conta dessa origem e não da agenda oportunista da mídia que as considerações sobre a realidade e os grandes desafios da Amazônia convergem para a pessoa humana sob o prisma da fraternidade. Compreendendo assim, de alguma maneira, nesse tempo, somos todos amazônicos uma vez que o destino das comunidades dessa região deve ser motivo de aprofundamento na comunidade que cada um de nós freqüenta em qualquer lugar. Somos irmãos. A terra inteira é a nossa casa. Voltados para a direção que nos aponta o coração do Pai, seguindo os mandamentos do Filho, sob a luz do Espírito Santo, somos convidados a renovar o compromisso com os povos amazônicos e suas bandeiras em busca de mais vida naquele pedaço de chão. A dimensão missionária do batismo e não a atual bolha de mídia em torno de temas ambientais é que nos irmana e, de forma sólida e permanente, nos liga na luta por um mundo melhor e para chegar a ele, precisamos trilhar caminhos comuns que nos levem a enfrentar, com maiores chances de vitória, os grandes desafios que impedem a vida de continuar explodindo em fartura, diversidade e felicidade no olhar dos povos amazônicos.
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 22.02.2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por comentar. Sua participação é muito importante para nós. Deixe seu e-mail para podermos lhe contatar.