
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
A grande jornalista Lílian Wite Fibe anda sumida do público de televisão desde quando tomou a decisão de ser a primeira grande âncora de um grande portal brasileiro da internet. Ela voltou, esta semana, como convidada, para um programa conhecido e, indignada pronunciou esta frase célebre: “Parem as máquinas!”. Ela se referia ao caso de barbárie que abalou o país. Um garoto de seis anos foi destroçado ao ser puxado por um carro, conduzido por assaltantes, num percurso de uns sete quilômetros atravessando alguns bairros da cidade do Rio de Janeiro e que durou cerca de 10 minutos. Uma monstruosidade. Os responsáveis pela tragédia: garotos de menos de 20 anos. Diante desse quadro, a Lílian que era acostumada se dirigir aos telespectadores nas maiores redes de televisão e ficou conhecida como uma boa comentarista de economia, pediu que parassem tudo para se pensar em educação na periferia das grandes cidades. Uma declaração forte que leva a uma reflexão. Em tempos de preocupação com a aceleração do crescimento econômico, a jornalista acha que deve parar com tudo o que está em jogo no Brasil para conseguirmos salvar nossas crianças. Antes do depoimento da Lílian, alguém na telinha já havia deixado a mesma indignação no ar.
Eu costumo ouvir que novela de televisão é uma coisa que não serve para nada. Pode ser que quem diz isso, tenha razão. Basta um olhar rápido para um capítulo qualquer que a gente tem essa sensação, mesmo. Estudos universitários, no entanto, são feitos com pesquisas sobre o que se pode salvar nesse tipo de manifestação cultural. Na novela das oito da Globo, foi apresentada uma cena que pode redimir essa teledramaturgia de consumo rápido, cheia de frivolidades e que só de vez em quando mostra uma investida séria em algum tema importante. Num forte encontro entre a ficção e a realidade, com a interpretação soberba de uma das mais importantes atrizes da televisão brasileira, o público de novelas teve que acompanhar um pai-nosso e uma ave-maria seguidos de uma cena aérea completamente muda que mostrava o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. O autor da novela “Paginas da Vida”, Manoel Carlos, retratou a dor que o pais inteiro sentiu ao saber da história bárbara do garoto puxado por um carro até morrer. Ele percebeu que o país inteiro fez uma experiência única. A experiência da dor. Uma dor que atingiu o coração e a mente de mães, pais e irmãos. A dor que assombra. A dor que machuca. A dor que revolta. A dor que produz reações inpensadas. O pai do principal garoto-bandido, aquele que dirigia o carro, o entregou para a justiça e quer que ele pague pelo que fez. Esse senhor disse que não criou filho para que depois ele fizesse essas coisas. A cena escrita pelo novelista e apresentada na semana passada, no horário nobre, deu a única vazão que a população brasileira pode ter nesse momento de profundo desgosto. Jogou na arte de uma atriz maravilhosa, chamada Beth Mendes, as lágrimas que todos nós choramos diante desse caso. Caracterizada de freira, ela assumiu o pavor da leitura do fato, jogou os joelhos no chão e, em prantos, rezou.
Reúno a reação de uma jornalista sensível e arte de um escritor de novela agregada à interpretação de uma excelente atriz para tentar traduzir o que percebo por detrás de mais uma tragédia brasileira. A dor compartilhada de forma tão ampla precisaria nos dar condições morais para exigir uma trégua no debate politiqueiro para, em seguida, exigir um empenho nacional na execução de um projeto básico de educação que nos orientasse a todos para o valor supremo da vida. A mesma vida que foi destruída, com requintes de crueldade, no corpo daquele garotinho que morreu dependurado no carro é a mesma vida maltratada, humilhada, destruída nos corpos dos monstros-juvenis que produziram aquele fato macabro. A vida que é hostilizada na história de milhares de famílias que observam, desesperadas, o desaparecimento de seus filhos adolescentes e jovens pelos becos do crime e da ociosidade diabólica por absoluta falta de uma estrutura pública de educação, de lazer e de cultura. O Brasil das disputas do Congresso Nacional e do loteamento de governo entre partidos não tem olhos para a vida descuidada das periferias e das regiões mais abandonadas. Esse Brasil precisa parar e sentir a nossa dor. A dor do outro Brasil. O Brasil do povo. O Brasil da violência contra a criança. Esse Brasil dos políticos tem que parar de gritar, de negociar fatias do poder, de fazer costuras conjunturais para definir cargos. Estamos vivendo num quadro desesperador. É preciso parar as máquinas como disse a Lílian. É preciso que vejam as lágrimas tão densamente interpretadas pela Beth.
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 12.02.2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por comentar. Sua participação é muito importante para nós. Deixe seu e-mail para podermos lhe contatar.