Quatro horas da manhã. Todos acordando de uma noite mal dormida por causa da ansiedade que acompanhava um passeio daqueles. Arrumávamo-nos apressadamente, alguns vestiam camisas no avesso, até parecia que íamos fugir. As mochilas com a comida já estavam preparadas; latas cheias de tutu de feijão, de arroz, mochilas de pão, litros de groselha e peças de mortadela. Era o lanche para passarmos o dia no Alto da Serra da Mantiqueira, nos Campos, como era chamado. O ar estava úmido e fazia um pouco de frio, mesmo nas férias de verão. Às vezes a lua ainda teimava em nos espiar de um canto do céu. A estrela Dalva ainda coruscava, um pouco abaixo da lua, sendo a única que desafiava o dia que iniciava, e continuava brilhando. Outras já haviam desaparecido com a claridade do sol, que embora invisível, já se anunciava com muita intensidade. Era necessário estugar os passos para subirmos a Serra antes que o sol começasse a castigar.
Os garotos subiam em grupos de três, quatro ou mais, conversando e brincando. Uma das brincadeiras era não perder de vista a estrela Dalva, que era perseguida por aguçados olhinhos até mais ou menos às onze horas do dia, hora que a perdiam de vista. Outros saíam da trilha e se aprofundavam no mato, colhendo morangos silvestres que eram uma delícia. A estrela já havia desaparecido e ia se mostrar novamente no início da noite como Vésper, hora do regresso.
Nesses passeios tínhamos a perspectiva de participar de muitas aventuras, nas redondezas, e chegávamos até descer a Serra da Mantiqueira no seu lado oposto e visitarmos aldeias no lado de Minas Gerais. Mas em nossas mentes, infalivelmente quem estava mais presente era o nosso admirado e querido Kar May, com sua espingarda mata-urso e seu irmão de sangue o cacique dos apaches e destemido Wennitou, com sua espingarda de prata. As historias do Karl May povoavam a mente de quase todos os garotos, e era uma fila enorme para ler os poucos livros dele que existiam. Mas nos Campos, não tínhamos índios, ursos cinzentos, ou bisões das aventuras do Mão de Ferro. O que mais predominava nesse super herói era sem duvida a amizade sincera e a dedicação ao seu amigo Wennitou e a dedicação do Wennitou a seu amigo Mão de Ferro, que às vezes, mais na intimidade era chamado simplesmente de Carlos, seu nome de verdade. Mão de Ferro ou Carlos era íntegro, ético e temente a Deus. Wennitou era temente ao Grande Espírito e a maior tristeza dele é que quando ambos morressem iriam para lugares diferentes. Wennitou para as Grandes Campinas e Carlos para o Céu dos caras pálidas. Karl May explicava para ele que o Deus era um só e iam todos para mesmo lugar e Wennitou até concordava. Essa amizade de irmãos de sangue dos dois heróis era transferida para os garotos que inconscientemente nutriam a idéia de ser irmão de sangue de seus amigos mais chegados e prolongar aquela amizade juvenil para todo o sempre, já que éramos sozinhos e assim teríamos uma pessoa para compartilhar a vida fosse como fosse. Talvez a perspectiva de que não iríamos ter famílias nos levava a pensar dessa maneira.
O mais interessante foi o encontro de Mão de Ferro com o índio apache, Foi um tipo de amor a primeira vista. Assim narrou Karl May logo após matar o seu primeiro urso cinzento a facadas, seu primeiro grande feito, causando admiração em todos seus companheiros de trabalho na construção da Estrada de Ferro. Além de despertar admiração, despertou também inveja em outros, princpalemente em Rattler, um de seus companheiros de acampamento .
“Rattler, então avançou para mim. Atingi-o com um soco. entretanto a briga foi interrompida pelo aparecimento de uma estranha personagem. Era um homenzinho corcunda, que em tudo parecia um índio, menos na cor branca de sua tez. Apesar da deficiência física, era uma figura que impunha respeito e com fisionomia iluminada por um par de olhos inteligentes e bondosos.
-Que força você tem-disse ele-Esse animal é terrível. Nós vínhamos à procura dele seguindo suas pegadas.
-Quem é o senhor? E porque diz “nós”? Alguém o acompanha?
-Vivo entre os Apaches e meu nome é Klekih-Petra, que quer dizer “pai branco”. Trago comigo dois companheiros.
E voltando-se para trás, chamou num linguajar indígena. De entre as árvores surgiram duas belas figuras de índios, um bem mais velho que o outro. Vestiam-se ambos com roupas de couro desde as sapatilhas até o jaquetão de caça. O mais velho trazia no alto da cabeça a pena característica dos caciques, o outro tinha a cabeleira negra solta até os ombros, e, embora tivessem os traços próprios da raça, seus rostos eram de uma nobreza fora do comum e mostravam grande paz e tranquilidade.
Aqui estão os meus companheiros. Este é Intschu-Tschuma, o grande cacique dos Apaches. E este é Wennitou, seu filho, que, apesar de pouca idade, já pode se orgulhar de um passado cheio de feitos heróicos
De fato a própria presença do jovem guerreiro impunha respeito. Seu corpo musculoso e flexível sugeria agilidade e destreza.E o olhar penetrante imprimia-lhe um cunho de inteligência e lealdade.
Pouco tempo depois, Rattler, já cheio de cachaça, volta, e desta vez insultando o nobre Wennitou, joga uma caneca de cachaça no seu rosto. Wennitou deu-lhe um tremendo soco, prostrando-o por terra, mas mesmo assim ele conseguiu pegar a espingarda e desferiu-lhe um tiro, que não o matou porque o velho Kisleit –Petra se colocou na frente recebendo o balaço no peito. Antes de dar o ultimo suspiro nos braços de Wennitou, disse :
-Wennitou! Meu filho Wennitou!
Voltando os olhos para Karl May disse em alemão
-Fi... que com e.....le ....pro.......te.....ja... "
Nossa biblioteca era muito pequena para o tanto de estudantes que existiam. Só havia alguns livros, mais de aventuras e policiais. Havia um chamado: “A Décima Terceira Badalada da Maia Noite”. Era um policial fantástico, cujo autor não me lembro. E a décima terceira badalada era um tiro, que o assassino deu em sua vítima e poucas pessoas iriam contar as badaladas do relógio, mas o detetive contou e desvendou o crime.
Estudávamos literatura, mas era mais o Autor, suas obras, vida, um resumo delas e nada mais. Não tínhamos contatos com elas. Lembro-me que “Iracema” e “Ubirajara” foram proibidos por algum tempo por que, segundo ouvi, eram lascivos e sensuais.
O professor de literatura lia trechos de alguns livros, como o Guarani, mas quando chegava a algum trecho mais picante, ele mudava. Por exemplo, o Índio Peri “colocou a mão nos ombros de Jaci”, mas não eram ombros mas peitos de Jaci. Isso ficamos sabendo muitos e muitos anos depois. Na época ainda vigorava o Índex da Igreja. Os livros de Karl May, embora fossem de um dos autores mais lidos e traduzidos da Alemanha, não eram considerados literatura pura.
A descida de volta, era mais calma e os garotos não falavam muito, um pouco pelo cansaço e também para chegar mais rápido, tomar um banho de piscina e se preparar para o jantar. A comida na casa de férias era muito boa, feita em menor quantidade, pois como éramos divididos em turmas, maiores, médios e menores, havia um revezamento, de modo que só ficava na casa apenas uma das turmas. O cozinheiro era o “Seu Zoza” um caipira típico, bigode português e conhecedor dos temperos como ninguém. O almoço ou o jantar era sempre um banquete.
Quando recebíamos ordem para sair da piscina, a estrela Dalva que havíamos abandonado no alto da serra, agora como Vésper, já brilhava no céu, maravilhosa como nunca, e sempre acompanhando a lua, tão linda quanto ela. Como a luz elétrica era muito pouca e fraca, o céu ficava deslumbrante e quando havia algum professor junto conosco, ele mostrava no céu as principais constelações do nosso hemisfério. Depois do jantar, era conversar, curtir o resto da noite e participar de alguma cantoria com algum cantor sertanejo local. Não tínhamos hora muito certa para dormir, dependia da animação ou da vontade do padre que tomava conta da turma A oração da noite era feita na capela da casa, simples, pequena e singela. Ali, rezando, depois de ver o Vale do Paraíba bem do alto, parece que descia a serra conosco algo de Deus, que nos fazia sentir um aconchego muito bom, e uma proteção especial. Íamos dormir sonhando com o dia de aventura e planejando outro passeio em locais não menos atraentes que os Campos. De uma coisa tínhamos certeza, embora pecadores, nossas almas eram almas de jovens puros e cheios de sonhos.

Que boas lembranças nos traz o colega Abner...
ResponderExcluirÀs vezes fico pensando naqueles dias de "colégio" e os fatos tão sinceros e salutares por que passamos um dia...tempo até um pouco remoto...
Parabéns, Abner, e muito obrigado por essas inesquecíveis memórias....
Rapaz,pensei que eu fosse o ùnico a guardar essas lembranças...poi saibam que quando meu neto ,vinícius,que muitos de vocês conhecem
ResponderExcluircompletou dez anos,para estimular nele a leitura eu sai à procura dos livros de Karl May
e comprei a coleção toda os quinze volumes que ele leu e,como nós se apaixonou...(que ele não
saiba que estou contando isso)mas desencravou
uma velha cartucheira que fora do meu pai e andava com ela pelo sítio qual o grande herói e
poderia jurar que daquela catucheira sairiam
21 tiros...depois de ler estas lembranças do Abner(grande companheiro!)fui verificar e vi
que passados dez anos( O Vinìcius já vai fazer
20 os livros continuam lá na sua estante,em destaque!)...que saudades de vocês,do Zoza,dos
Campos e até da mortadela com groselha...olha,pensando bem,que saudades dos
treze anos,isso sim! abraços a todos,com muita alegria...
E eu achando que era o maior admirador e devorador de Karl May. Após ler boa parte da coleção, já considerava ser o maior conhecedor dos apaches e seus costumes.
ResponderExcluirA leitura também trouxe expectativa sobre a vida nômade dos árabes, com trechos onde se lia que a refeição era preparada com gordura de carneiro eu ficava a imaginar qual sabor teria esse arroz.
A cuspida no focinho do cachorro logo no primeiro encontro, faria dele seu fiel amigo e companheiro.
Ah as leituras......
Hoje ouvimos que a maior dificuldade dos jovens é a de interpretar o que leem, e nem todos conceguem.
A tempo, durante 06 meses fui responsável pelo gerador nas Pedrinhas. Para isso deitava após todos os outros e levantava antes de todos. Tudo pela energia elétrica.
Se juntássemos as pequenas crônicas de cada um, e as compilássemos, teriamos uma trmenda obra sobre nossas vidas no Seminário.
Abraços,
Antonio Claudio - Foguinho.