-Turma de 1955
Cinema
Terminado o três a três bem antes do horário normal. Algo de misterioso pairava no ar. É que alguém deve ter visto o professor de historia com duas latas de filmes na mão. Será que hoje vai ter cinema? O importante era saber se ia ter cinema, não importava o filme. Era uma véspera de feriado, não religioso, que seria dia de mais futebol e sono mais prolongado. Então vai ter cinema. Vai ter cinema. Era uma ansiedade enorme, e aqueles filmes caiam na alma da gente e perduravam por muitos e muitos dias. Como era lindo o El Cid, Spartacus, Rei Arthur, Tarzan e outros. E o Guilherme Tell então, a seteira, a maçã, na cabeça do filho. Aquele não era filme, era a realidade vinda para nossa vida de sonhos. O filme era real, nos vivíamos em um sonho, Sonho de ser missionário e santo. No outro dia, todos os moleques construindo seteiras, iguais a do Guilherme Tell. Cada uma mais perfeita que outra. E os filmes das Cruzadas. O morro atrás do colégio se transforma em um campo de batalha, com cruzados, bárbaros, padres, mortes, e tudo. Mensageiros levando e trazendo propostas de acordo de paz ou de uma nova batalha, para o acampamento dos bárbaros, desde que eles se sujeitassem a ser cristãos. Caso contrário eram massacrados. Eram os efeitos dos filmes na cabeça da molecada. E o gordo e magro então? Quanta risada! E todos imitando o gordo ou o magro, conforme sua constituição física. Era riso por todo lado. Quanta inocência e pureza naqueles corações jovens!
Hoje vai ter filme, sempre tinha um que era mais chegado do professor de historia e sabia até qual era o nome do filme, mas não espalhava, pois além de se sentir um guardião de um quase segredo, também poderia dar em nada. A euforia da criançada era muito grande. Como era longo o três a três naqueles dias! E o recreio no salão de jogos então, quando havia um prenuncio de filmes! O tempo passando e passando e nada do sinal para ver o filme. Em quantas noites não acontecia aquilo. Qual teria sido o problema? O filme não tinha passado na censura dos professores e era impróprio para a formação das crianças? Quanta tristeza ! Como era triste ver os rostinhos dos moleques com o tercinho na mão indo fazer a oração da noite e dormir. Quem dormia e quem sonhava?
Isso acontecia, mas quando o filme já era conhecido dos padres professores e se era bom pra a formação das crianças, o sinal tocava bem antes e era anunciado que iria ter uma sessão de cinema. Quanta felicidade, Quanta alegria. Era tanta a ansiedade e a euforia dos moleques, que ninguém parava de falar, gesticular, rir cantar e pular. Cada um procurava o seu lugar, tudo em grupinhos, com os amigos mais chegados. Era um barulho enorme, risadas, gritos, e ninguém se continha. O filme tinha que começar. Começa, começa , começa. Era um barulho quase que de revolta porque o filme estava demorando a começar. Algum problema técnico!
De repente, um apito longo, como um punhal, cortava aquela balburdia, e um silencio ensurdecedor dominava o ambiente.
E voz do Diretor vinda do fundo escuro do salão caia, como um balde de água fria no coração efervescido de cada um. “Oração da noite”.- dizia a voz do Diretor. Era só aquilo, sem nenhuma explicação nem reprimenda falada. O silencio era mais doloroso que qualquer palavra e o diretor sabia disso e sabia usá-lo com a maestria e o sadismo de um educador rigoroso. Os terços iam saindo dos bolsos automaticamente e lagrimas invisíveis caiam dos rostos dos meninos, como se fossem a ultima gota daquela água que saiu do coração do Cristo crucificado. “Ofereço, meu Deus, esse sacrifício, para minha formação espiritual e salvação e salvação também das almas mais abandonadas. Faça de mim, Senhor, o que lhe aprouver. Entrego-me como um cordeiro para o sacrifício. Transforme, meu Deus, tudo isso em ato de amor”. Devíamos o silencio e respeito a quem nos estava sacrificando e castigando, dando-nos assim uma oportunidade de transformação. “Que tristeza, meu Deus, todo poderoso.” Meu coração entrava em uma tristeza de morte, de abandono e me fazia o ser mais rasteiro do planeta. O único consolo era pensar que aquelas lágrimas derramadas estavam servindo para minha santificação.
O cancelamento da sessão de cinema se dava por mau comportamento dos meninos, ou mesmo por sadismo do Diretor, na sua santa ignorância em moldar nosso caráter e nossa alma. Outras vezes era a mão do operador que impedia cena de beijo e escapava de alguém, um “Ahhh”, desaprovando a censura, também era motivo para a interrupção do filme e todos irem dormir, mais frustrados do que nunca, e completar com sonhos o restante da película.
Cinema
Terminado o três a três bem antes do horário normal. Algo de misterioso pairava no ar. É que alguém deve ter visto o professor de historia com duas latas de filmes na mão. Será que hoje vai ter cinema? O importante era saber se ia ter cinema, não importava o filme. Era uma véspera de feriado, não religioso, que seria dia de mais futebol e sono mais prolongado. Então vai ter cinema. Vai ter cinema. Era uma ansiedade enorme, e aqueles filmes caiam na alma da gente e perduravam por muitos e muitos dias. Como era lindo o El Cid, Spartacus, Rei Arthur, Tarzan e outros. E o Guilherme Tell então, a seteira, a maçã, na cabeça do filho. Aquele não era filme, era a realidade vinda para nossa vida de sonhos. O filme era real, nos vivíamos em um sonho, Sonho de ser missionário e santo. No outro dia, todos os moleques construindo seteiras, iguais a do Guilherme Tell. Cada uma mais perfeita que outra. E os filmes das Cruzadas. O morro atrás do colégio se transforma em um campo de batalha, com cruzados, bárbaros, padres, mortes, e tudo. Mensageiros levando e trazendo propostas de acordo de paz ou de uma nova batalha, para o acampamento dos bárbaros, desde que eles se sujeitassem a ser cristãos. Caso contrário eram massacrados. Eram os efeitos dos filmes na cabeça da molecada. E o gordo e magro então? Quanta risada! E todos imitando o gordo ou o magro, conforme sua constituição física. Era riso por todo lado. Quanta inocência e pureza naqueles corações jovens!
Hoje vai ter filme, sempre tinha um que era mais chegado do professor de historia e sabia até qual era o nome do filme, mas não espalhava, pois além de se sentir um guardião de um quase segredo, também poderia dar em nada. A euforia da criançada era muito grande. Como era longo o três a três naqueles dias! E o recreio no salão de jogos então, quando havia um prenuncio de filmes! O tempo passando e passando e nada do sinal para ver o filme. Em quantas noites não acontecia aquilo. Qual teria sido o problema? O filme não tinha passado na censura dos professores e era impróprio para a formação das crianças? Quanta tristeza ! Como era triste ver os rostinhos dos moleques com o tercinho na mão indo fazer a oração da noite e dormir. Quem dormia e quem sonhava?
Isso acontecia, mas quando o filme já era conhecido dos padres professores e se era bom pra a formação das crianças, o sinal tocava bem antes e era anunciado que iria ter uma sessão de cinema. Quanta felicidade, Quanta alegria. Era tanta a ansiedade e a euforia dos moleques, que ninguém parava de falar, gesticular, rir cantar e pular. Cada um procurava o seu lugar, tudo em grupinhos, com os amigos mais chegados. Era um barulho enorme, risadas, gritos, e ninguém se continha. O filme tinha que começar. Começa, começa , começa. Era um barulho quase que de revolta porque o filme estava demorando a começar. Algum problema técnico!
De repente, um apito longo, como um punhal, cortava aquela balburdia, e um silencio ensurdecedor dominava o ambiente.
E voz do Diretor vinda do fundo escuro do salão caia, como um balde de água fria no coração efervescido de cada um. “Oração da noite”.- dizia a voz do Diretor. Era só aquilo, sem nenhuma explicação nem reprimenda falada. O silencio era mais doloroso que qualquer palavra e o diretor sabia disso e sabia usá-lo com a maestria e o sadismo de um educador rigoroso. Os terços iam saindo dos bolsos automaticamente e lagrimas invisíveis caiam dos rostos dos meninos, como se fossem a ultima gota daquela água que saiu do coração do Cristo crucificado. “Ofereço, meu Deus, esse sacrifício, para minha formação espiritual e salvação e salvação também das almas mais abandonadas. Faça de mim, Senhor, o que lhe aprouver. Entrego-me como um cordeiro para o sacrifício. Transforme, meu Deus, tudo isso em ato de amor”. Devíamos o silencio e respeito a quem nos estava sacrificando e castigando, dando-nos assim uma oportunidade de transformação. “Que tristeza, meu Deus, todo poderoso.” Meu coração entrava em uma tristeza de morte, de abandono e me fazia o ser mais rasteiro do planeta. O único consolo era pensar que aquelas lágrimas derramadas estavam servindo para minha santificação.
O cancelamento da sessão de cinema se dava por mau comportamento dos meninos, ou mesmo por sadismo do Diretor, na sua santa ignorância em moldar nosso caráter e nossa alma. Outras vezes era a mão do operador que impedia cena de beijo e escapava de alguém, um “Ahhh”, desaprovando a censura, também era motivo para a interrupção do filme e todos irem dormir, mais frustrados do que nunca, e completar com sonhos o restante da película.

Abner, uma vez mais felicito sua brilhante memória...
ResponderExcluirExatamente como escreveu era a ansiedade que eu sentia no dia do CINEMA....
E você deve lembrar-se muito melhor do que eu, às vezes tínhamos a felicidade de ir ao Cine da cidade....
Por outro lado, era mesmo triste quando corria a notícia e o filme não acontecia...
Tempos de saudade porque, sobretudo, foram muito bons...