Professor Adilson
06/06/2013
Como
eu gostaria de falar, abrindo meu coração às pessoas - àquelas que não têm
noções do meu sofrimento ao longo dos anos. Já fui feliz e vivia contentíssimo
quando esbanjava saúde, quando as águas eram abundantes.
A
vida sã auxiliava a população ribeirinha, que vivia da pesca, da agricultura e
da pecuária. Sempre falaram da minha importância na vida deles.
Hoje
vivo com sede, mas lembro-me que sempre fui um rio de muita água e em
detrimento dessa minha situação confortável , as pessoas tinham vida em
abundância .
Nasci
muito longe da minha foz, distante mais ou menos três mil quilômetros e
confesso que minha infância ocorreu lá pelas bandas da Serra da Canastra, no
estado de Minas Gerais, lado norte da Mantiqueira. Eta gente boa! Se dela dependesse, minha vida seria uma
eternidade.
Velho Chico como é o meu apelido, vivo cansado.
Cansado de ser generoso e de ver a população que me cerca, sofrida, idosa e sem
saúde.
Dependo
de alguns coadjuvantes, cujas águas jorram sobre mim para continuar a viver. Seus nomes são diferentes : Rio Grande e Rio das
Velhas, não podendo deixar de citar o Paracatu, o Corrente e o Paraopeba. Faço
festa quando suas águas me molham e como teria imensa satisfação em vê-los me encharcando.
Eles colaboram para que eu mate a sede de outros amigos, que me auxiliam na
irrigação de grandes extensões de terras, que são nada menos que seiscentos
quilômetros quadrados.
Nas
minhas andanças por esses Brasis afora, conheci indivíduos chamados de biomas,
quais receberam os nomes de: Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. São velhos
como eu, e sofrem dos mesmos desmandos
humano. Com a história de sustentar a economia do país, enchem os próprios bolsos.
São os empresários, latifundiários e políticos que exercem uma função chamada “curral
eleitoreiro”. Ah! Por falar em curral,
esse é também outro epíteto que me deram “rios dos currais”, nada haver com
aquele.
Se
assim continuar, as minhas águas vão escassear-se e os biomas, quais foram dantes
amigos, tornar-se-ão desertos.
Os
homens construíram pontes para passar de uma margem à outra, mas existem
lugares sem elas, onde as pessoas se movimentam com facilidade e o fazem por
entre as pedras.
As
minhas águas vão saneando, ao longo do curso, outros estados, como é o caso da
Bahia, de Pernambuco, de Sergipe e de Alagoas. Por isso sou conhecido como Rio
da Integração Nacional e olha que fui engendrado em terras brasileiras, dela
nunca saí, e jogo as minhas poucas águas
no Velho Oceano Comercial, contribuindo para com o aumento de suas águas e,
digo mais, de doce que me era tornei-me salgado e assim pude escrever com letras garrafais : Genuinamente Brasileiro.
Não
sou todo navegável, mas levo no meu bojo: sal, arroz, soja, cimento, areia,
produtos manufaturados, madeira (que é uma pena!), alguns minerais e ainda levo
turistas para passear, quando podem ver as mais belas paisagens ribeirinhas.
Dois
fatos foram acontecendo em minha vida. Um deles é o represamento das minhas
águas que servem até hoje para gerar energia elétrica. O outro é mais grave que
este, pois, desviaram minhas águas dizendo que é para resolver o problema da
falta d!água no sertão nordestino , mas na verdade a história é bem outra :
servir a agroindústria , o que está me deixando irritado , pois , as pessoas pobres
não estão tendo acesso a essa grande fonte de vida, e para que isso não aconteça,
estão colocando cerca ao longo dos canais e farpeando, fazendo com que a população não se achegue a mim.
As águas
que levo na minha cauda servem
apenas aos poderosos desta terra abençoada , mas tornar-se-ão malditas quando só
servirem aos coronéis da região.

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