Publico hoje mais um depoimento: ALEXANDRE DUMAS PASIN DE MENEZES .
Mais uma vez, convido todos para participarem mandando o seu, ilustrando com suas memórias.
É muito bom nos conhecermos melhor! Não
importa a época que lá estivemos. Importa, sim, o conteúdo e riqueza de
experiência que cada um viveu.
Vamos nos encorajar e participar!
ALEXANDRE DUMAS PASIN DE MENEZES
M E M Ó R I A S
Como não poderia deixar de ser, quero responder
ao Staliano o questionário que fez sobre o tempo em que estive no
Seminário Santo Afonso. Vou discorrer sem seguir rigorosamente a ordem
das perguntas. Tenho escrito vários artigos contando passagens
interessantes de meu tempo.
Nasci em Aparecida e, desde os
primórdios de minha infância, convivi com os redentoristas, minha mãe
era muito católica, meu pai agnóstico, fui batizado, crismado e com 8
anos ingressei no grupo de coroinhas da basílica velha, ali conheci
todos os padres da comunidade, os do convento e aqueles que lecionavam
no seminário. Os demais redentoristas da província sempre apareciam por
lá. Tive a honra de participar em 1946 das cerimônias do lançamento da
pedra fundamental da basílica nova, acolitei o cardeal Cerejeira e
também o cardeal Mota, tenho fotografias onde apareço ao lado dessas
autoridades eclesiásticas. Desde 1945, morava na Rua da Estação, a 50
metros dos portões do Colegião, nas proximidades situavam-se também a
Santa Casa e o Asilo, nessas casas havia capelas onde os redentoristas
celebravam aos domingos. Minha vida corria dentro da rotina de uma
criança normal, saudável e um pouco peralta, cumpria minhas obrigações
religiosas, não era tão piedoso a ponto de chamar atenção de algum padre
para convidar-me a ingressar no seminário. Eis que, em um domingo do
mês de janeiro de 1949, fui mandado para ajudar missa no Asilo, um padre
chamado Inocêncio aparece para celebrar e me faz aquela pergunta
inesperada : "Você não quer entrar para o seminário ?" . Fiquei
atônito, não sabia o que responder, saí pela tangente : "Quero, mas meus
pais não deixam ". Padre Inocêncio não teve dúvidas : "Vamos falar com
eles agora" . O resto qualquer um pode deduzir. Não achei ruim, pois
ingressaria na 1a. série do ginásio sem exame de admissão, o que não
tinha conseguido um mês antes numa tentativa de entrar no ginásio do
estado em Guaratinguetá. O enxoval foi providenciado e, em 02/02/49,
estava eu transpondo os portões do Colegião com uma tosca mala e
acompanhado pela minha mãe que não conseguia conter a emoção e
satisfação em ver mais um filho ingressar no convento, minha irmã
Ditinha já era freira vicentina.
"Jardins viçosos, ciprestes em alameda
Convidam à paz da vocação surgida
Fachada majestosa, janelões em vidros,
Portais se abrem a um convite amigo,
Transpor umbrais da soberana casa.....
Primeira imagem ao coração arfante,
Maria Virgem em escultura branca
Galerias amplas, abóbadas romanas,
No centro, o Cristo a indicar o Signo,
Apóstolos postados em prontidão constante...."
Fui indicado para a turma dos
menores, ali encontrei os dois primeiros zeladores, Gervásio Fabri e
Daniel Damacia, tomei ciência da autoridade que lhes era delegada,
portavam um apito com uma longa corrente, temida corrente, eram
disciplinadores, cumpriam ordens. Havia um manual que continha o
regulamento dos juvenistas, devíamos lê-lo a exaustão, o não cumprimento
de qualquer um de seus inúmeros itens tinha como consequência a
anotação no "Figo", livro temido e lido semanalmente perante toda a
comunidade, havia castigos, coisas da época. As aulas eram de manhã de
segunda a sábado, de tarde às segundas, quartas e sextas, havia passeios
às tardes de terça e quinta feira. No sábado, devíamos confessar e a
comunhão era diária, eu gostava dos cânticos na capela, aprendi todos,
muitos eram em latim, o primeiro organista foi o Oswaldo Aranha, aluno
da 7a. série. Minha turma, os que se tornaram padres: Antonio Clayton,
João Resende, Rodolfo Andeler e Cláudio Malman; os professos: Paulo
Hess, José de Arruda Rocha e Getúlio Vaz; os que permaneceram mais
tempo e que ainda me lembro : Antonio Maciel, Hélio Guindo, Faustino,
Arnóbio, Mário, Germano Bittencourt, Celso Plentz, Evaldo Natal, José
Carlos Vilhena, os irmãos paraguaios Pancrácio e Bernardo, o Souza e o
meu querido amigo de lá e de cá Vivaldo Justino Neves, este, quando já
em São Paulo, me animou e convenceu a prestar concurso do Banco do
Brasil onde juntos nos aposentamos. A turma um ano acima onde tive
muitos amigos eram os padres Pacheco, Gervásio e Daniel Damacia, os que
sairam dessa turma : Guido Arantes, Filemon de Castro, Valdir
matogrossense, Dito Siqueira, os irmãos Bianor e Higino Ferreira, João
de Deus Resende, Geiger e outros. Das turmas abaixo convivi com os
padres Geraldo Corrêa, Alberto Pasquotto, Pedrotti, Bertanha, Turler e
os gaúchos inseparáveis Guareschi e Aloisio. Os das turmas abaixo que
não permaneceram e foram meus amigos especiais : Sebastião Paulino,
meus primos João Bosco Pasin, Humberto Pasin e José Carlos Pasin, o
José Galvão Láua, Mário Muniz Barreto, Expedito Ourives, José Maria
Ribeiro, Gomes, Alonso Maciel, Miranda, Ramalho, Biazoto, Raimundo
Corrêa, os três profetas Josué, Eliseu e Elias e outros tantos.
Contemporâneos das turmas bem acima e com os quais convivi, mas não tive
contato em virtude da divisão de maiores, médios e menores : padres
Cabral, Jesus Flores, Dom Carlinhos, Dom Batistella, Zompero, Gabriel
Flores, Silvão e Silvinho. Das turmas bem abaixo com os quais também
convivi e também não tive contato: padres Libardi, Kron, Moacir e
Pelaquim . Aliás, essas divisões entre maiores, médios e menores foram
criadas sem nenhum discernimento, separavam simplesmente pela altura
física, vejam só, chegou uma época em que só eu e o Rochinha ainda
pertencíamos aos menores e o resto de nossa sala já estava entre médios e
maiores, convivíamos em aulas, mas não podíamos nos falar. Com essas
turmas citadas acima e outros que não me lembro convivi sete anos no
seminário, três anos no Colegião e quatro no Santo Afonso. No segundo
ano, recebi a fita de juvenista, no terceiro a de congregado mariano
menor e na quinta a fita de congregado maior. Acostumei-me à rotina da
casa, abracei o meu ideal, dediquei-me ao estudo, orei, refleti, não
tinha dúvidas de que seria um futuro sacerdote. A disciplina do
seminário era rígida, às vezes exagerada, trazida pelos padres alemães.
Eu gostava dos passeios, das férias na Pedrinha, havia horas de lazer,
teatros, cânticos. Não foi difícil para mim chegar à sétima série, minha
batina estava pronta, entraria para o noviciado, não fosse alguns
pensamentos que surgiram naquela mente que, embora ainda imatura, já
trazia questionamentos às diretrizes de nossa igreja católica. Nada que
envolvesse a fé principal, mas coisas que diziam respeito ao pecado,
castigo, inferno eterno e principalmente a exclusão da salvação
daqueles que não professassem a nossa fé. As aulas de apologética me
confundiram muito. Tornei-me uma pessoa escrupulosa, elegi padre
Rodrigues como espiritual. Não aceitava o inferno eterno nem os anjos
maus como obra divina. Meu espiritual não aguentou, convocava-o de dia e
de noite, sentia-me em pecado por pensar em desacordo com os
ensinamentos da Igreja. Foi o fim, fui mandado para casa descansar e
decidir sobre minha vocação, após três meses estava fora, assustado e
sem rumo num mundo para o qual não fui preparado.
Egresso do seminário, meus
pais acharam por bem que eu tomasse um rumo na vida longe de minha
casa, minha mãe estava doente, já em vias de morrer, e os cuidados todos
se voltavam para ela, não queriam que eu vivesse essa realidade. A
primeira opção que apareceu foi um vestibular na USP para o curso de
Letras Clássicas, seria uma fuga e não algo que me entusiasmasse. Passei
no vestibular e fui mandado para São Paulo com aquela mesma mala
velha, dois ternos, camisas e gravatas, tudo de meu pai, deram me
também algum dinheiro, algo suficiente para 30 dias. O mercado de
trabalho me era vedado por falta de documento militar, alistei-me como
refratário em Quitaúna, o certificado de reservista de 3a. categoria só
sairia em agosto. Diante dessa realidade e sem ter onde ficar, meu irmão
Orlando então tenente da PM, levou-me para morar no quartel do
Regimento Nove de Julho, na Rua Jorge Miranda, o alojamento era para
seis oficiais, mas havia um, já casado, que me cedeu sua cama. O
provisório se prolongou até que o comandante do regimento descobrisse a
existência de um clandestino no quartel, deu 3 dias de prazo para que eu
desocupasse a vaga, fui expulso solenemente, é hilário. Meu irmão mais
uma vez me socorreu, conseguiu junto ao irmão de seu sogro, Sr.
Aparecido Vieira, um emprego, sem carteira assinada, num escritório
montado dentro de sua própria casa no bairro do Tremembé. O sr.
Aparecido era egresso da Força Pública da qual tinha sido excluído na
década de trinta por participar de movimentos do Partido Comunista
fundado por Luiz Carlos Prestes, foi preso, fugiu e viveu clandestino
por muito tempo, na década de 50 fundou uma empresa que reunia clínicas
dentárias populares e o escritório era em sua casa, lá viviam parentes
estudantes, outros dentistas, sua mulher, dois filhos adotivos e alguns
comunistas clandestinos pertencentes à cúpula em São Paulo, eles dormiam
em quartos da edícula , viajavam, se revesavam e não participavam de
nossa mesa. Recebi uma tarefa, escriturava livros de contabilidade,
trabalhava durante o dia e à noite ia para a faculdade. A comida era
farta, o ambiente acolhedor, foi a minha primeira família pós-seminário,
recebia CR$ l.000,00 mais cama e comida, era o suficiente. O
interessante era que, aos domingos, o Sr. Aparecido almoçava fora,
deixava a geladeira a minha disposição, coisa que eu não aceitava,
fazia questão de acompanhá-lo nesses almoços, eles se realizavam em
lugares distantes, às vezes em chácaras, eram festivos, mas tinham uma
finalidade, a de reunir a cúpula do PCB. Compareciam também muitos
estudantes da USP, tinham-me como integrante do partido, mas, na verdade
estava ali por uma necessidade famélica. Na faculdade da Rua Maria
Antonia também havia um grêmio muito atuante, seus diretores eram todos
do PCB, um ex-seminarista, o Murasco, da turma do padre Cabral,
frequentava o grêmio e era atuante no partido, mesmo com essa
convivência, não aderi ao partido, fui somente um simpatizante. Quando
saiu o meu documento militar, ingressei no Banco Popular do Brasil em
setembro/1956, emprego arrumado não por minha capacidade, mas por obra e
arte de um assessor da diretoria chamado Rui Barbosa, casado com
minha prima Nilce Pasin Arneiro, passamos a trabalhar juntos, Rui
Barbosa e Alexandre Dumas. Em novembro de 1958, ingressei na Secretaria
da Fazenda e em dezembro de 1959 fui para o Banco do Brasil em
Morrinhos(GO), terra dos padres Gui, Gil e Nei, também meus
contemporâneos no seminário. Em Morrinhos, permaneci por três anos,
casei-me com Lucy e voltei para Guaratinguetá aposentando em 1991. Do
casamento nasceram cinco filhos e seis netos. Completei 50 anos de
casado e me considero uma pessoa feliz e realizada.
Já faz 57 anos que saí do
seminário, mas sua lembrança permanece viva em minha mente, não guardo
mágoa nenhuma, passei anos , a maioria de alegria e realização,
convivi com amigos leais, guardo boas lembranças e sou grato a Deus e à
congregação redentorista por me terem dado a oportunidade de viver um
ideal que, embora não atingido, formou o meu caráter e tornou-me um
homem voltado para o bem. O único senão que posso registrar na formação
dos "CHAMADOS", onde eu me incluía, é que tudo dentro daquela casa era
dirigido somente visando a formação dos "ESCOLHIDOS" , relegando a
segundo plano o destino da imensa maioria, aqueles que abandonaram o
barco da " SALVAÇÃO". Eu saí e me vi perdido na vida,
não houve orientação que me desse uma alternativa de vida, não fosse
algum parente ou um ex-seminarista amigo, não sei que rumo eu teria
tomado na vida. Senti alguma revolta quando me vi nessa situação
indesejada, mas à medida que as coisas iam melhorando, eu me voltava
para Deus e agradecia por ter-me conduzido pelo caminho do Bem, ter-me
feito uma pessoa de caráter, ter-me proporcionado uma educação sólida e
ter-me conduzido por aquelas paragens reservadas não só a seus eleitos,
mas também àqueles que um dia se tornariam homens de bem, pais de
família, profissionais competentes e cristãos que, sem serem
consagrados, dariam o testemunho da verdade. Meus educadores permanecem
vivos e estão presentes até hoje no íntimo de meu coração, se alguma
falha lhes for imputada isto é consequência da condição humana de cada
um. Termino este segmento reportando a palavras anotadas "in fine" em
um de meus artigos sobre o seminário, nestes termos : " PONTOS DISTANTES
DE MEU PASSADO, QUE SE FAZEM PRESENTES A TODO INSTANTE, ME ENCHEM DE
ORGULHO DE TER VIVIDO A PUREZA DE UM IDEAL, TER TIDO MESTRES DE
INIGUALÁVEL GRANDEZA, COM SABEDORIA PARA EDUCAR-NOS E DISCERNIMENTO PARA
CONDUZIR-NOS PARA O BEM"
E P Í L O G O
O Staliano propõe que citemos lembranças marcantes de
nosso tempo. Tenho escrito vários artigos sobre a minha vida no
seminário, tenho mais alguns sendo preparados, vou citar somente uma
passagem interessante vivida por mim : -
" No Colegião, fazíamos
passeios três vezes por semana, em alguns a saída se dava pela parte
dos fundos do seminário, às vezes, saíamos pela frente. Em muitas vezes que a saída se dava pela frente, encontrávamos um senhor, alto e negro, que
se postava perto da guia da calçada e sempre nos fazia uma pergunta intrigante : " Porque não existe
seminarista negro ? Negro não pode ser padre ? " Isto nos deixava sem ação, os padres recomendavam que não déssemos importância à pergunta.
Já no seminário novo, por volta de 1954, aguardávamos a chegada de três seminaristas da província do Amazonas, eles chegariam acompanhados de um padre americano, cantaríamos uma saudação em inglês que dizia mais ou menos assim "We are glad, yes we are glad, yes we are glad with your coming here".
Eis que, eles apontam lá no portão, estávamos curiosos para conhecer os novos colegas. À frente, vinha um padre loiro e alto, a seguir três rapazes sorridentes, dois com acentuadas características indígenas e o terceiro um negro super simpático, chamava-se Pedro, um grande músico e cantor.
Padre Ribolla não conseguiu ocultar um certo ar de constrangimento, balbuciou algumas palavras que não deu para entender. Pedro foi um grande amigo e quebrou um grande tabu existente sem nenhuma razão em nossa comunidade. "
Outra pergunta do questionário do Staliano é se
dedicamos e participamos de alguma atividade em nossa comunidade
católica. Sinceramente, não, contribuo com o dízimo, ajudo
financeiramente inúmeras entidades religiosas, mas não me adapto aos
novos tempos e aos párocos diocesanos, acho-os mal formados e pouco
convincentes. Sou um católico independente, pratico minhas devoções e
frequento quase que somente as basílicas de Aparecida, a velha e a nova,
lá, eu encontro minhas raízes, lá eu tenho o prazer de estar com os
redentoristas aos quais me sinto eternamente ligado . Assisto às missas pela TV Aparecida e quando coincide com
meu café, coloco o pão à frente da televisão na hora da consagração e
comungo-o convictamente.
Quanto à Uneser, sou um entusiasta de sua existência, ela me
proporcionou , de alguma forma, a volta ao meu passado, a oportunidade
de estar naquela casa, relembrar os lugares em que vivi, rever os
amigos, rezar na capela em que um dia cantei acompanhado de 200 vozes
o "Salve Regina" e também o hino do congregado mariano "Do Prata ao
Amazonas, do mar às cordilheiras, cerremos as fileiras, soldados do
Senhor ! " Sua diretoria é a mais competente, formada por grandes
amigos. A Uneser se propõe a congregar os ex-seminaristas e
conscientizá-los da marca indelével que lhes foi conferida "Uma vez
redentorista, sempre redentorista ". Tenho participado dos encontros,
não tenho críticas a fazer, mas tenho certeza de que se um dia alguma
sugestão eu tiver , ela será analisada e acatada dentro do possível.
Meus prezados amigos e colegas
ex-seminaristas, para finalizar quero, em poucas palavras, resumir a
diretriz de vida de um homem de 75 anos vividos com fé e muita luta :
"Quando quiser rezar, pratique um ato de amor, quando quiser pregar.dê o
exemplo !!
Alexandre Dumas Pasin de Menezes
Jan/2013
COMENTÁRIO: Dumas, tinha certeza de que você não deixaria de contribuir. Muito obrigado!
Além de nos lembrar tantos nomes de Padres e colegas, seu relato tão bem cadenciado, nos remete aos anos vividos naquela casa tão abençoada, independente de época e personagens. Todos nós vivemos muito desse clima.
Valeu a pena seu depoimento! Parabéns!
(Desculpe-me ter "roubado" duas fotos de seu Facebook)


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