
O
melhor da festa é esperar por ela, diz o provérbio. O melhor do Natal é
ter passado por ele, sem ter muito sem dizer. É insuportável a fissura,
a loucura e o desequilíbrio desencadeados pelas festas de fim de ano. O
consumo e compras compulsórias de produtos, o apetite compulsivo de
comilanças, a máscara da alegria estampada no rosto para encobrir o
bolso furado, a corrida aos espaços de lazer, as estradas engarrafadas
com mortes no trânsito e pedágios caríssimos, as filas intermináveis nos
supermercados, os sinos de papel envoltos nas fitas vermelhas dos
shoppings centers, aquela mesma musiquinha marota, tudo satura o
espírito.
Seria este anticlima um castigo divino à nossa reverência à figura de Papai Noel?
Natal
é pouco verso e muito reverso. Em pleno trópico e no verão, nossa
imitação enfeita de neve de algodão a árvore de luzinhas intermitentes. O
estômago devora castanhas, nozes, avelãs e amêndoas, quando a saúde
pede saladas, legumes e principalmente jejuns e purificações.
Já que o espírito arde de sede daquela Água Viva do poço de Jacó (João 4), afoga-se o corpo em álcool e gorduras buscando, em vão, alimentar o vazio existencial. A gula de Deus busca, em vão, saciar-se no ato de se empanturrar na mesa.
Talvez seja no Natal que nossas carências fiquem mais expostas. Damos presentes sem nos dar, sem cuidarmos de nós, recebemos sem acolher, brindamos sem perdoar, abraçamos sem afeto, damos a mercadoria um valor que nem sempre reconhecemos nas pessoas. No íntimo, os verdadeiros buscadores, estão inclinados à simplicidade da manjedoura. O mal estar decorre do fato de nos sentirmos mais próximos dos salões de Herodes, de nossas ilusões, medo e de sonhos que desistimos
No Brasil, este Natal é de Reis ?magros?. A nação, condenada a sustentar todo tipo de parasitas, corruptos, governantes e economistas que sacrificam o povo, dá as costas às alegrias do presépio para trilhar, com recessão, salários diminutos e tributos aumentados; instituições incompetentes e falidas que cuidam de legislar a seu favor, o caminho do Calvário.
Sem que fôssemos consultados, o Brasil foi vendido ao capital da pirataria especulativa, que saqueia nossas bolsas, quebra nossas pequenas e médias empresas, leiloa nosso patrimônio público, dilapida nosso sistema de ensino e gangrena o da saúde, segurança e "justiça". E ainda nos insistem em nos convencer de que esta é a melhor rota para o futuro e que devemos votar naqueles que seqüestram nossos anseios de felicidade.
Mudemos
nós o Natal. Abaixo o Papai Noel, viva o Menino Jesus! Em vez de
presentes, presença ? junto à família, aos que sofrem, aos enfermos, aos
soropositivos, às famílias das vitimas de crimes, às crianças de rua,
aos dependentes de drogas, aos deficientes físicos e mentais, aos
excluídos.
Façamos
da ceia, cesta a quem padece de fome e do abraço laço de solidariedade a
quem clama por justiça. Instalemos o presépio no próprio coração e
deixemos germinar Aquele que se fez pão e vinho para que todos tivessem
vida com a fartura e a alegria.
Abandonemos
a um canto, a árvore morta coberta de lantejoulas e plantemos no fundo
da alma uma oração que sacie nossa fome de transcendência. Deixemo-nos, como Maria, engravidar pelo espírito de Deus. Então, algo de misteriosamente novo haverá de nascer em nossas vidas.
Fonte: Santuário de N.Sra. Perpétuo Socorro - Campo dos Goytacases
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