020 - Irmãos
Alguns empregados de papai moraram lá em
casa. Considerados como irmãos.
O Sebastião, irmão do Ramiro, claro,
magérrimo e um corretíssimo rapaz. A família morava em Timóteo - um lugarejo
perto de Fabriciano. Tinha um bandolim e tocava para ouvirmos – como sempre
gostei de música, na minha avaliação de criança, achava o máximo.
O
Tião visitava mensalmente os pais - ia a pé por trilhos no meio do mato e de
matas - o comum na época. Voltava a cavalo - vinha alguém para retornar
com o animal.
Fui com o Tião à casa de seus pais.
Timóteo foi fundado antes de Fabriciano – impressionaram-me os morros íngremes,
a lama e o número de casas antigas do lugarejo.
Lembro-me dos trilhos: sobes e desces,
barro e mais barro de cabo a rabo da viagem - hoje, diz-se trilha. No lugarejo
só lama e escorregões - mas gostei do passeio, apesar da ida a pé ser muito
longa para uma criança. Preparada pela mãe, a comida caseira e gostosa, acompanhada
pela farinha de milho torrada e socada no pilão, deixou um gostinho em minha
boca até hoje. Voltamos a cavalo.
Filho de um andarilho, batizado por
papai e mamãe.
Antigamente as pessoas muito
pobres e pedintes andavam de vila em vila e de cidade em
cidade.
O
menino crescia, sempre a tiracolo do pai. De quando em vez o andarilho
passava pela loja para receber algo e conversar com papai. Numa delas,
o afilhado com uns doze anos, papai dirigiu-se ao pai:
- Compadre, você anda com esse menino
pra baixo e pra cima, muitas vezes com fome e sede, com sol e chuva, sem tomar
banho, sem roupa adequada, sem lugar para dormir, passando as noites nas ruas e
estradas. Vamos fazer o seguinte: deixa esse menino aqui comigo. Vou colocar
ele na escola e ele me ajuda na loja.
- Tá bão cumpade. Toma conta dele... E
lá se foi ele, deixando o menino com papai.
Papai levava o menino para a loja todos os
dias, mas...
Como esses meninos acompanhantes de
andarilhos não tinham boa fama, o povo era meio cismado com eles. Diante disso,
chegava um:
- Zé Franco, ocê é doido. Esse
minino... num sei não...inté acho que ele num vale nada. Vai é te dá poblema e
trabaio procê.
Outro:
- Sô Zé, esses minino é o capeta
em pessoa - capeta é bão perto deis. Fica com ele não. Nem gosto de vê.
Assim foram os primeiros dias do menino na
loja. A todos papai retrucava:
- Até agora ele tem se comportado muito
bem, tanto na loja quanto em casa. Não aprontando, continuará aqui.
O Geraldo, em pouco tempo, conquistou a
todos, tanto os de casa quanto os de fora. Nós meninos adorávamos o Geraldinho-Nosso
- virou propriedade! Comportamento nota dez, a educação em pessoa. Geraldo
morou em nossa casa durante anos e anos. Aborreceu-nos só quando foi
embora. Até hoje é nosso irmão.
O Sô Geraldo é um respeitado pai
de numerosa família e empresário de sucesso na região onde mora.
Victor era um menino levado e muito
severamente vigiado pela mamãe. Ficou pouco tempo lá em casa, mas marcou bem
sua passagem. Apesar das peraltices, sempre foi querido por todos nós.
Hoje é agrimensor e raramente aparece.
Cecília, uma morena de peito aberto –
reclamadeira como ela só! - hoje tem muitos filhos e netos - às vezes aparecia
para visitar mamãe.
Preta era uma moreninha meio sapeca, mas
humilde e boazinha; a ela a gente recorria para tudo. Levantava-se cedo e ia
acender o fogo no fogão de lenha. De tanto assoprar a brasa para aparecer o
fogo, de quando em vez reclamava:
- Diacho, nesta casa só eu tenho vento!
Um dia seria ótimo se reuníssemos todos
numa festa de família - daria para matar bastante as saudades. Pelo menos,
poderíamos ter seus endereços - gostaria de visitá-los.
Benedito Franco
Ave
Maria!
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