016 - Os antigos – impressões - II
Quando entrei para o Seminário, havia um padre holandês, teria estatura alta,
não fosse o corpo alquebrado e arqueado pelo peso dos anos. De tão
velhinho, deveria ter sido companheiro de Santo Agostinho, para quem fruta
roubada, ou apanhada no quintal dos outros, é mais gostosa que a de nossa
casa. Supúnhamos, nós os meninos, que ele entendia pouco do que lhe
declarávamos no confessionário. Muito carinhoso, achando nossos pecadinhos,
pequenas travessuras de amiguinhos que brincavam com o Jesusinho, o Menino
Jesus - confessávamos, todos nós meninos, somente com ele – entendia nossas
travessuras.
Sô Manoel Domingos, o protótipo do homem antigo, e Dona Izabel a senhora mais
antiga que conheci - a sempiterna. A Matriarca da Família Pereira - mãe do
Coronel Silvino Pereira, o Camargo Correia da Vitória Minas na região, e do Tio
Totonho, casado com a tia Dedê. Dona Izabel sentava-se numa cama na
salinha em frente à sua casa, rente à rua principal do lugar, abrindo a parte
de cima da porta, cortada ao meio, - hoje Rua Coronel Silvino Pereira. De
quando em vez, eu, menino, parava e conversava com ela; recordo-me
pouco do assunto - dava-me muita atenção. Pela idade e aparência, com
certeza, a irmã mais velha que cuidou do Matusalém quando ainda criança -
a mãe de toda a humanidade desde o início dos tempos!
Ainda procurava imperar a Lei do Ventre Livre - uma das muitas leis no
Brasil que chegou e pouco pegou, como até hoje acontece com nossas
leis que ferem os interesses dos grandes - mas antes de a Princesa Izabel
assinar a Abolição dos Escravos, ou a Lei Áurea Rio de Janeiro, de 13 de maio
de 1888 , e anterior à Lei dos Sexagenários, a Vovó Olinda nasceu
(Viram como é difícil dizer, descobrir e demonstrar idade de mulher?... Mulher
não envelhece, mulher fica menos nova!).
Meu avô, Antônio Franco, faleceu novo, deixando Vovó com cinco filhos pequenos.
Como dizia papai, os cunhados tomaram-lhe a Fazenda Sant'Anna e ela então foi
para Antônio Dias, onde comprou uma casa na Rua do Pito Aceso. Eu, quando ia a
Antonio Dias, considerava-a a cidade dos velhos – impressão de menino, por
causa de Vovó, suas parentes e amigas – só gente de muita idade!
Com a ajuda do Dr. Euzébio, advogado, filho do Coronel Fabriciano, conterrâneos,
foi ser faxineira no Grupo Escolar do Município. O Diretor do Grupo, o Sr Chico
Letro, deve ter ajudado a ela também. Quando pequeno, visitava o grupo e Vovó,
além de faxineira e boa cozinheira, preparava a merenda - dava-me o mingau
de fubá, tomado em canecas de ferro esmaltado - sinto o gosto gostoso dele
até hoje!
Aposentada, Vovó foi morar em Ferros, na casa de tia Bita e tio Vital. Ferros,
cidade mineira à beira do Rio Santo Antônio, onde desmancharam a antiga capela
de Santana, construindo uma igreja bem moderna e na qual a grande artista Yara
Tupinambá pintou Adão totalmente nu - esconjurado e desamado pelas beatas.
De quando em vez, Vovó ia a Fabriciano. Nessa época, achava sua vida infinita -
parecia-me que Deus a criara no quinto ou sexto dia da criação do mundo,
portanto, nascera no início do Universo, quando ainda Crono e Réia governavam o
mundo, antes de seus filhos, Zeus e os irmãos, destronarem-nos, durante a
guerra contra os Titãs – jamais desapareceria... viveria per omnia saecula
saeculorum!
E os velhinhos, além de inspirar-nos respeito e admirarmo-nos de
sua sabedoria, dão-nos uma santa inveja do eterno viver.
Benedito Franco
Ave Maria!
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