14º Domingo do Tempo Comum - Ano "B" - Homilia
Naquele tempo,
1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam.
2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres realizados por suas mãos?
3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?”
E ficaram escandalizados por causa dele.
4 Jesus lhes dizia: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”.
5 E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
6 E admirou-se com a falta de fé deles.
Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando.
José Antonio Pagola
REJEITADO ENTRE OS SEUS
Jesus não é
um sacerdote do Templo, ocupado em cuidar e promover a religião. Tão
pouco, alguém o confunde com um mestre da Lei, dedicado a defender a
Torá de Moisés. Os camponeses da Galileia veem em seus gestos de cura e
em suas palavras de fogo a atuação de um profeta movido pelo Espírito de
Deus.
Jesus sabe
que o espera uma vida difícil e conflitiva. Os dirigentes religiosos o
enfrentarão. É o destino de todo profeta. Não suspeita, entretanto, que
será rejeitado precisamente entre os seus, aqueles que melhor o conhecem
desde criança. A rejeição de Jesus pelo seu povo de Nazaré era muito
comentada entre os primeiros cristãos. Três evangelistas recolhem o
episódio com todos os detalhes. Segundo Marcos, Jesus chega em Nazaré
acompanhado de um grupo de discípulos e com fama de profeta curador.
Seus vizinhos não sabem o que pensar.
Ao chegar
sábado, Jesus entra na pequena sinagoga do povo e "começa a ensinar".
Seus vizinhos e familiares apenas o escutam. Entre eles nascem todo tipo
de perguntas. Conhecem Jesus desde pequeno: é um vizinho a mais. Onde
aprendeu essa mensagem surpreendente do reino de Deus? De quem recebeu
essa força para curar? Marcos diz que tudo "lhes parecia escandaloso".
Por quê?
Aqueles
camponeses creem que sabem tudo de Jesus. Fizeram uma ideia dele desde
crianças. Ao invés de acolhê-lo tal como se apresenta diante deles,
ficam bloqueados pela imagem que têm dele. Essa imagem lhes impede de
abrirem-se ao mistério que se encontra em Jesus. Resistem a descobrir
nele a proximidade salvadora de Deus.
Porém, há algo mais. Acolhê-lo como profeta significa estar dispostos a escutar a mensagem que lhe dirige em nome de Deus.
E isto pode trazer-lhes problemas. Eles têm sua sinagoga, seus livros
sagrados e suas tradições. Vivem em paz a sua religião. A presença
profética de Jesus pode romper a tranquilidade da aldeia.
NÃO DESPREZAR O PROFETA
O relato
não deixa de ser surpreendente. Jesus foi rejeitado precisamente por seu
próprio povo, entre aqueles que acreditavam conhecê-lo melhor que
todos. Chega a Nazaré, acompanhado de seus discípulos, e ninguém sai ao
seu encontro, como acontece às vezes em outros lugares. Tão pouco lhe
apresentam os enfermos da aldeia para que os cure.
A sua
presença somente desperta neles assombro. Não sabem quem tenha podido
ensinar-lhe uma mensagem tão cheia de sabedoria. Tão pouco se explica de
onde provenha a força curadora de suas mãos. A única coisa que sabem é
que Jesus é um trabalhador nascido numa família de sua aldeia. Todo o
restante "parece-lhes escandaloso".
Jesus se
sente "desapreciado": os seus não o aceitam como portador da mensagem e
da salvação de Deus. Fizeram uma ideia de seu vizinho Jesus e resistem a
abrir-se ao mistério que está nele. Jesus lhes recorda um refrão que,
provavelmente, todos conhecem: "Não desprezam um profeta a não ser em
sua terra, entre seus parentes e em sua casa".
Ao mesmo tempo, Jesus "estranha a sua falta de fé".
É a primeira vez que experimenta uma rejeição coletiva, não dos
dirigentes religiosos, mas de todo o seu povo. Ele não esperava isto dos
seus. A sua incredulidade chega, inclusive, a bloquear sua capacidade
de curar: "não pôde fazer ali nenhum milagre, somente curou a alguns
enfermos".
Marcos não narra este episódio para satisfazer a curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado, precisamente, por aqueles que acreditam conhecê-lo melhor: os que se fecham em suas ideias preconcebidas sem abrir-se nem à novidade de sua mensagem nem ao mistério de sua pessoa.
Como estamos acolhendo Jesus, aqueles que se creem "seus"? Em meio a um mundo que se tornou adulto, nossa fé não é demasiadamente infantil e superficial?
Não vivemos demasiadamente indiferentes à novidade revolucionária de
sua mensagem? Não é estranha a nossa falta de fé em sua força
transformadora? Não corremos o risco de apagar seu Espírito e desprezar sua Profecia?
Esta é a preocupação de Paulo de Tarso: "Não apagueis o Espírito, não desprezeis o dom de Profecia. Analiseis tudo e ficai somente com o que é bom" (1Ts 5,19-21). Os cristãos de nossos dias não necessitam de algo como isto?
Os
cristãos têm imagens muito diferentes de Jesus. Nem todas coincidem com
aquela que tinham os que o conheceram de perto e o seguiram. Cada um
fazemos nossa ideia dele. Essa imagem condiciona a nossa maneira de
viver a fé. Se nossa imagem de Jesus é pobre, parcial ou destorcida,
nossa fé será pobre, parcial ou destorcida.
Por que
nos esforçamos tão pouco para conhecer Jesus? Por que nos escandaliza
recordar seus traços humanos? Por que resistimos a confessar que Deus se
encarnou num Profeta? Talvez, intuímos que sua vida profética nos
obrigaria a transformar profundamente sua Igreja?
Tradução de: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - 04 de julho de 2012 - 12h27 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php


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