019 - A loja do papai – II
Falava-se muito em mil reis, mas na realidade tudo era
vendido em cruzeiros originais. Um centavo era igual a hum tostão. Um
cruzeiro, igual hum mil reis e mil cruzeiros eram hum conto de reis.
Acho que não havia salário mínimo e nem inflação.
Os tamanhos das moedas e notas variavam muito, mesmo
algumas de mesmo valor. As moedas eram de cobre, ou coisa parecida, e algumas
continham ouro ou prata – as mais reluzentes; encontravam-se inúmeras do século
XIX – algumas com o esbelto Dom Pedro I e outras com o barbudo Dom Pedro II ou
a Princesa Isabel. Notas de hum mil reis, dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta,
cem, duzentos e quinhentos – em reis ou cruzeiros, e seus tamanhos variavam,
sendo que as de quinhentos eram enormes; moedas de um tostão, dois, cinco, dez,
vinte, cinquenta, cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos e hum mil
reis.
Quando a pessoa era muito rica chamavam-na de milionário
que, na igreja, ajoelha em cima de notas de quinhentos mil reis!
O patacão, ou moeda de quatrocentos reis, era
uma grande moeda de cobre e ficou tão famosa que cobre virou sinônimo de
dinheiro: Ele tá cheio do cobre = Ele tá cheio do dinheiro, ou ele tá
rico! Patacão foi designação de antigas moedas portuguesas de ouro,
e uma delas, de cobre, valia quarenta reis. Pataca era também uma moeda de
prata, portuguesa, no valor de trezentos e vinte reis. E por falar em pataca, a
pataca era a unidade monetária, e moeda, de Macau e Timor, colônias
portuguesas. Fulano não vale uma pataca!- Dito quando alguém nada valia.
Além das mercadorias citadas, meu irmão José Maurício e eu
ficávamos na frente da loja com um caixote apropriado para engraxar sapatos, e
uma prateleira onde colocávamos laranja e mexerica ou outra fruta qualquer;
descascávamos as laranjas com uma pequena máquina apropriada. Muitas vezes
saíamos à rua para vender pedaços de bolo ou de doces que mamãe fabricava. Nos
domingos ou feriados, quando havia jogo de futebol – no “Campo do Social” ,
cercado de esteira de taquara – perto da entrada, vendíamos laranjas, mexericas
e os refrigerantes guaraná, guará, guarapan e mate-couro – tudo sem gelo,
apesar do calorão de Fabriciano.
Mais mercadorias que poderiam se encontrar na loja – todas
elas poderiam, uma vez que a loja e o depósito eram relativamente pequenos, sem
eletricidade e sem água encanada, e a compra e os transportes eram difíceis –
papai se esforçava para tê-las:
- Enxadas, enxadões, carrinho de mão, alavancas, ferraduras
e cravos, pregos, taxinhas; martelos, marretas, machados, machadinhas, arame
galvanizado e farpado, prumo e corda para prumo; cordas de bacalhau, fitas
métricas, metros – o articulado e o de um metro de madeira maciça; correntes,
picaretas, pás e garfos para carvão, chibancas, ferro à brasa para passar roupa,
esquadros e colheres de pedreiro; talheres e facas de todos os tipos, facões,
canivetes e punhais, garfos, colheres de metal nobre, de ferro comum ou de pau.
Garruchas, às vezes revólveres, balas para os dois, pólvora
e chumbos, assim como as capas de cartuchos, espoletas e até dinamite. Assobios
de madeira ou metal, para a caçada de animais e, principalmente, pássaros - na
época a caça era permitida.
- Lâmpadas, tomadas e interruptores externos, boquilhas e
fios elétricos, cobertos não com plástico, mas com pano embebido em borracha -
pegavam fogo fácil, fácil, mas era o que existia.
- Sapatos para homem, mulher e crianças. Botinas e botas
para homem, sandálias, galochas, tamancos – inexistiam sandálias de dedo – tudo
de couro, ou couro e pano. Guarda pó e capas de chuva de um pano muito grosso,
muito usadas por cavaleiros, pois protegia o arreio e grande parte do cavalo.
Lixas para madeira, d’água e para ferro.
- Sabonetes e sabões em pedaço ou barra – em pó,
detergentes ou água sanitária não existiam – anil, Kaol, óleo de peroba, óleo
de rícino, graxa, tinta e escovas para sapatos, vassoura e rodo.
- Talco, bicos de borracha para crianças, bico de mamadeira
– muito usada a garrafa pequena em lugar da mamadeira típica - brilhantina ou
óleo Glostora, vaselina, perfumes, batons, ruges, leite de rosas – xampu e
condicionador inexistiam.
- Sabonetes, pasta de dente, em bisnagas de chumbo, Escovas
de roupa e de dentes feitas de madeira e cerda de alguma planta ou pelo de
animal.
- Álcool, querosene, creolina, formicida em pó ou líquida,
assim como venenos para ratos e moscas.
- Bebidas alcoólicas e refrigerantes, como: guaraná,
cachaça, vinhos, conhaque, cervejas comuns e pretas – vinham em sacos com 64
unidades, mais tarde, em engradados de madeira, tudo embalado em capas de
capim, bebidas sem gelar, pois não havia geladeira – coca-cola era coisa rara
na cidade.
- Carteira para dinheiro, bolsas, espelhos de diversos
tamanhos, malas para viagem.
- Canela em casca ou em pó, pimenta do reino, em grão ou em
pó, urucum, bicarbonato e amoníaco – vinham em vidros, ou latas, de um ou dois
quilos, vendidos a gramas. Remédios, como o Melhoral, a Cibalena e o leite de
magnésio e até o óleo de fígado de bacalhau.
- Cadernos, cadernetas, lápis de cor em caixinhas e de tipos
diversos, apontadores de lápis, borracha, papel crepom e cartolina, compasso e
réguas, tinteiros e tintas para tinteiros e tinta Nanquim, tintas e corantes
para pano, além de todos os tipos de canetas de pena e penas de metal para
canetas tinteiro.
- Cabresto, chicotes, arreio e tudo para arriar um cavalo,
e até cangalha.
- Brinquedos de madeira, de lata, ou os dois juntos:
caminhões, carros, jogo de damas, tambores, flautas, gaitas e piorras e até
velocípedes; bonecas de louça ou de papel esmaltados, com ou sem vestidos de
panos – as que choravam e tinham um bico de borracha eram as mais caras.
Muitas bonecas vinham sem vestidos e outras, as mais baratas, com vestidos de
papel crepom! Não existiam nem nylon e nem plástico! No Natal, óbvio, os brinquedos
aumentavam em qualidade e quantidade.
- Corantes para roupa, cadarço, barbante, cordas de
bacalhau.
- Inhame, batatinha e bananas, laranjas e outras frutas que
aparecessem.
- Vez ou outra havia cimento, gesso e alvaiade.
- Pães vindos de Nova Era. Padaria só de quando em vez
aparecia uma no lugarejo – por pouco tempo.
- Óculos de diversos graus ou escuros, que o pessoal
experimentava; jóias e bijuterias, anéis para homens e mulheres, alianças para
casamento.
- Para embrulhar usavam-se sacos de papel e papel de todos
os tipos... e caprichavam-se nos embrulhos.
Acreditem: até dentaduras foram vendidas!... O cliente
experimentava várias até achar uma que lhe servia...
Ave Maria!
Benedito
Franco

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