019- A loja do papai – I
Mamãe usava um código dela: JOSERCINA – José, de José Franco, e Ercina, seu nome. Papai gostava do código do jogo da velha – em cada espaço colocou um número.
Cada letra do JOSERCINA representava um número: J = 1, O = 2, S = 3, e assim por diante. O zero = X, tanto para o código de mamãe, quanto para o de papai. Se uma mercadoria deveria ser vendida por Cr$ 237,50, marcava-se OSI,RX –esse X poderia ser dispensado, ou era colocado e dispensava-se a vírgula.
No código do jogo da velha, um L invertido = 1, um U (reto) = 2, o L = 3, um quadrado = 5, e assim por diante.
Sempre achei os dois códigos bem inteligentes.
Tenho certeza absoluta que mamãe marcava preços maiores que os colocados por papai! Era ela comerciante nata... e mais vendedora, e mais financista! Papai comprava bem.
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Os viajantes, de três ou de quatro em quatro meses, traziam enormes baús, em lotes de burros ou pela estrada de ferro, contendo o mostruário das mercadorias a se vender; você via o que estava comprando, diferente de hoje, pois hoje a gente só vê a foto e, muitas vezes, compra gato por lebre. À noite, de terno e gravata, visitavam seus clientes – lembro-me do Sô Valentim: meio gordo, educado, com seu inseparável colete, impecável no vestir e na aparência.
Quando me entendi por gente, gostava de ajudar na loja de meu pai – servia a dose de cachacinha pura ou com carqueja, ou mel, ou outra droga qualquer, assim como vinho, conhaque São João da Barra; além do “salgadinho”, que poderia ser o salame, o queijo minas ou Parmesão, ou um pedaço de carne seca, de toucinho, de pele ou de carne de porco. Orgulhava-me de ser o caixa, cobrando e dando o troco, admirando cada nota e cada moeda de cruzeiro, tostão ou reis – ainda havia moedas de ouro ou prata, e muitas do século XIX, com esfinge do Dom Pedro I, Dom Pedro II, a Princesa Izabel.
Fabriciano ainda era o Calado e Governador Valadares a perigosa Figueira.
Coisas vendidas na loja – comparando com os produtos de hoje encontrados em supermercados, a relação abaixo serve para se ter uma idéia de como se vivia na época:
- Botões de todos os feitios e tamanhos, fabricados de chifre de boi, madeira, casco de tartaruga ou madre-pérola; ilhós, e os diversos aviamentos para costura, fitas e rendas. Cobriam-se botões com pano e pregavam-se ilhós ou botões de metal. Dedal e agulhas comuns, de máquina de costura e até as de costurar sacos de linhagem, assim como as tesouras de todos os tamanhos.
- Chitas, brins – brim cáqui o mais vendido, pois o jeans, a bem da verdade, desconhecia se até pelo nome; filós, casimira, sedas chinesas originais, linho; embornais, calções (não se usava cueca – só os calções!), camisas, calças; vestidos para batizados – os azuis para os meninos, os cor de rosa para as meninas, e os brancos para os dois sexos; vestidos e coroas para os anjinhos que coroavam ou os que morriam. Vestido de noiva, pano para colchão ou mesmo caixão encontravam-se.
- Colchões de capim, travesseiros de algodão, de paina, de penas e até mesmo de flor de marcela...
- Feijão, arroz, fubá, farinhas de mandioca de milho e de fubá torrado, café em grão, milho, açúcar cristal ou refinado, sal fino e sal grosso – tudo colocado no caixote de mantimentos e vendidos a quilo. Inhame, batatinha e batata doce. Mamãe lavava os sacos que traziam sal e aproveitava a água salgada para colocar nos coqueiros do quintal lá de casa. Debulhador manual de milho e torrador de café.
- Balança manual, moinho de ferro para café ou milho, macaquinho -, puxadores, quadôs e tripé para quadô, e carbureto para se usar em lampião.
- Pratos, copos, canecas e pinicos de louça ou esmaltados, louças de todo tipo, jarras, panelas de ferro, caldeirões e chaleiras de ferro ou esmaltados; baldes e regadores de chapa galvanizada. Bandejas, com o fundo desenhado com asas de borboletas. Pentes de chifre de boi ou de casco de tartaruga.
- Chapéus de todos os tipos, inclusive os de napa, palha ou palhinha. Guarda chuva e sombrinhas, gravatas, liga para meias, suspensórios, boinas, meias, camisas e calças para homens e meias para mulheres – só se usavam saias. Combinações, calcinhas, soutiens, cabides de arame ou de madeira – nada de nylon, pois não existia.
- Carne seca, carne de porco, toucinho e banhas, lingüiças, salsichas, salame, bacalhau, sardinha em lata ou seca, peixe seco que vinha em barril de carvalho, queijos parmesão e da roça.
- Doces de leite, rapadura, goiabada, marmelada, pessegada – alguns em latas e outros em caixotinhos de madeira de um, dois, cinco ou dez quilos. Leite condensado, toddy. Sessenta e quatro rapaduras formavam uma carga – o que um burro trazia de cada lado da cangalha.
- Cigarros e fumos em rolo, a gramas, ou em fiapos ou rapé puro ou com ervas, papel e palha para preparar cigarro, isqueiros, pedras e corda para os isqueiros...
Ave Maria!
Benedito Franco
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