Bom dia!
Pelo Pe. Mario Boies, C.Ss.R.
Superior Provincial da Província redentorista e Santa Ana de Beaupré
Eu
lhe envio esta carta, que é uma bela tomada de consciência da grandeza do bem
feito por religiosos, mas que, infelizmente, fica no silêncio...
Nota do editor: A carta que se segue foi escrita pelo padre salesiano uruguaio Martín Lasarte, que trabalha em Angola, e endereçada a 6 de Abril ao jornal norte-americano The New York Times. Nela expressa a sua perplexidade diante da onda mediática despertada pelos abusos sexuais de alguns sacerdotes a par do desinteresse que o trabalho de milhares religiosos suscita nos meios de comunicação.
CARTA
DE UM PADRE CATÓLICO AO NEW-YORK TIMES
Querido Irmão Jornalista:
Sou um simples padre católico. Sinto-me
feliz e orgulhoso de minha vocação. Faz 20 anos que vim para Angola, como
missionário.

Vejo em muitos meios de comunicação,
sobretudo no seu jornal, o exagero de importância dado ao tema dos padres
pedófilos. Faz-se isso de uma maneira mórbida, procurando, na vida desses
padres, em detalhes, os erros de sua vida passada. Fala-se de um caso
acontecido nos anos 70, num lugarejo dos Estados Unidos; de outro na Austrália,
nos anos 80; e assim por diante, até chegar a casos mais recentes... Todos, com
certeza, condenáveis!
Há textos jornalísticos ponderados e
equilibrados. Outros são exagerados, cheios de prejulgamentos e até de ódio. Eu
próprio sinto uma grande dor pelo mal imenso causado por pessoas que deveriam
ser sinal do amor de Deus, mas são, ao contrário, uma tortura na vida de seres
inocentes. Não existem palavras para justificar tais atos. Não há dúvida de que
a Igreja não pode estar senão ao lado dos fracos, dos mais desamparados. Por
esse motivo, todas as medidas que podem ser tomadas para a prevenção e para a
proteção da dignidade das crianças sempre serão de prioridade absoluta.
Curioso é, porém, ver a quase inexistência
de notícias e a falta de interesse pelos milhares de padres que sacrificam sua
vida e a consomem inteira a serviço de milhões de crianças, de adolescentes e
dos mais desfavorecidos, nos quatro cantos do mundo. Eu penso que para o seu
jornal não há o menor interesse pelo fato de eu ter sido obrigado, devido à
guerra, em 2002, a transportar um número enorme de crianças famélicas, por
estradas minadas, de Cangumbe a Lwena (Angola), porque nem ao governo era
permitido fazer isso, nem as ONGs estavam autorizadas a tanto; não interessa a
seu jornal que eu tenha sido obrigado a enterrar, às dezenas, crianças mortas pelas
mudanças de local da guerra; não importa que nós tenhamos salvo a vida de
milhares de pessoas no México, por meio de um único centro de saúde existente
em uma região de 90.000 km2, com a distribuição de alimentos e de sementes; não
importa que ali tenhamos conseguido dar educação e escola, durante esses
últimos dez anos, para mais de 110.000 crianças; não há interesse em saber que,
junto com outros padres, nós tenhamos socorrido mais de 15.000 pessoas nos
acampamentos da guerrilha, antes da deposição das armas, porque os alimentos do
governo e da ONU não chegavam. Não é notícia que interesse o fato de um padre
de 75 anos, de nome Roberto, percorrer a cidade de Luanda cuidando de crianças
de rua, levando-as a um abrigo, para que se desintoxiquem da gasolina que
aspiram porque têm de ganhar a vida como frentistas de postos. Também não é
notícia a alfabetização de centenas de prisioneiros; não é notícia que outros
padres, como o Pe. Stéphane, organizem casas de acolhimento temporário para que
jovens maltratados, machucados e mesmo violentados ali encontrem abrigo. Como
também não interessa que o Pe. Maiato, aos 80 anos, visite as casas dos pobres,
uma a uma, confortando os doentes, os sem esperança. Não é igualmente notícia
que mais de 6.000, entre os 40.000 padres e religiosos atuais, tenham deixado
seu país, sua família, para servir seus irmãos num leprosário, nos hospitais,
nos campos de refugiados, nos orfanatos para crianças acusadas de feitiçaria ou
órfãs de pais mortos pela AIDS; para cuidar dos mais pobres nas escolas, nos
centros de formação profissional, nos centros de acolhimento para os
soropositivos etc. Ou, sobretudo, gastando sua vida em paróquias ou em missões,
motivando as pessoas a viver melhor e, em primeiro lugar, a amar. Não é notícia
que interesse que meu amigo, o Pe. Marc-Aurèle, para salvar crianças durante a
guerra na Angola, as tenha transportado de Kalulo a Dondo e, no caminho de
volta de sua missão, tenha sido metralhado. Não importa que o Irmão François e
cinco senhoras católicas tenham morrido em um acidente, quando iam para as
regiões rurais para ajudar os mais isolados do país. Não interessa noticiar que
dezenas e dezenas de missionários em Angola morram por falta de recursos para
curar uma simples malária. Que outros tenham saltado aos ares por causa de uma
mina, ao visitarem seus fiéis. No cemitério de Kalulo há os túmulos dos primeiros
padres que chegaram à região... nenhum com mais de 40 anos! Não é também
notícia o fato de um padre “normal” seguir seu trabalho diário, com suas
dificuldades e suas alegrias, gastando sua vida, silenciosamente, em favor da
comunidade que ele serve. A verdade é que nós não procuramos fazer notícias, e
sim simplesmente levar a Boa Notícia, aquela Notícia que, sem alarde, começou
no domingo de Páscoa. Uma árvore que cai faz mais barulho que mil que continuam
em pé. Faz-se muito mais barulho por um padre que comete uma falta, do que por
milhares que doam a vida pelos pobres e indigentes.
Não pretendo fazer apologia da Igreja
nem dos padres. Um padre não é nem um herói nem um neurótico. É simplesmente um
homem normal, que com sua natureza humana procura seguir Jesus Cristo e
servi-Lo nos seus irmãos. Ele está sujeito a misérias, pobrezas, fraquezas como
todos os seres humanos. Mas ele carrega igualmente a beleza e a grandeza que
existem em toda criatura. Insistir de uma forma obsessiva e importuna em um
tema doloroso, deixando de lado o conjunto da obra, na verdade cria caricaturas
ofensivas do sacerdócio católico, pelas quais eu me sinto ofendido. Peço-lhe
somente, amigo jornalista, que procure a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso
engrandecerá sua profissão!
Em Cristo,
Pe. Martin Lasarte, sdb
“Meu passado, Senhor, eu confio à tua
Misericórdia; meu presente, ao teu Amor; meu futuro, à tua Providência!”
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