2º Domingo do Tempo Comum – Ano “B”
Evangelho: João 1,35-42
José
Antonio Pagola *
TRAZER
AS PESSOAS PARA JESUS
O evangelista João teve
um interesse especial em indicar a seus leitores como se iniciou o pequeno grupo
de seguidores de Jesus. Tudo parece casual. O Batista olha para Jesus que
passava por ali e diz aos seus discípulos que o acompanhem: “Este é o Cordeiro
de Deus”.
Provavelmente, os
discípulos não entenderam muita coisa disso tudo, porém começam a “seguir a
Jesus”. Durante um tempo, caminham em silêncio. Não houve, todavia, um
verdadeiro contato com ele. Estão seguindo a um desconhecido e não sabem,
exatamente, o porquê nem para quê.
Jesus rompe o silêncio
com uma pergunta: “Que procurais?” Que esperais de mim? Quereis orientar a vossa
vida na direção que eu levo? São coisas que é preciso esclarecer bem. Os
discípulos lhe dizem: “Mestre, onde vives?” Qual é o segredo de tua vida? O que
é a vida para ti? Pelo que parece, não buscam conhecer novas doutrinas. Querem
aprender de Jesus um modo diferente de viver. Querem viver como
ele.
Jesus lhes responde
diretamente: “Vinde ver”. Fazei vós mesmos a experiência. Não buscai informação
de fora. Vinde viver comigo e descobrireis como eu vivo, a partir de onde
oriento minha vida, a quem me dedico, porque vivo assim.
Este é o passo decisivo
que necessitamos dar hoje para inaugurar uma fase nova na história do
cristianismo. Milhões de pessoas se dizem cristãs, porém não experimentaram um
verdadeiro contato com Jesus. Não sabem como viveu, ignoram seu projeto. Não
aprendem nada de especial com ele.
Enquanto isso, em nossas
Igrejas não temos capacidade para gerar novos crentes. Nossa palavra não é mais
atraente e credível. Pelo que parece, o cristianismo, tal como nós o entendemos
e vivemos interessa cada vez menos. Se alguém se aproximasse e nos perguntasse:
“onde vives”, “o que há de interessante em vossas vidas”, como
responderíamos?
É urgente que os cristãos
se reúnam em pequenos grupos para aprender a viver no estilo de Jesus, escutando
juntos o evangelho. Ele é mais atraente e credível que todos nós. Pode gerar
novos seguidores, pois ensina a viver de maneira diferente e
interessante.
TESTEMUNHAS
Há um provérbio judeu que
expressa bem a importância que tem o testemunho dos crentes: “Se não dais
testemunho de mim, diz o Senhor, eu não existo”.
O mesmo se pode dizer
hoje do testemunho dos cristãos. Se eles não sabem ser testemunhas, o Deus de
Jesus Cristo permanece oculto e inacessível à sociedade.
A única razão de ser de
uma comunidade cristã é dar testemunho de Jesus Cristo. Atualizar, hoje, na
sociedade o mistério do amor salvador de Deus manifestado em Cristo. A Igreja
não tem outra justificação.
Em seu último livro
“Um Deus para hoje”, M. Neusch nos recordou que este
testemunho dos crentes há de se dar num contexto sociológico em que Deus sofre
um processo condenatório. Na sociedade atual, se está levando a cabo, de muitas
maneiras, um julgamento sobre Deus e, com frequência, os testemunhos contra Ele
recebem mais audiência que aqueles que se pronunciam a seu favor.
Devemos recordar que
nesta disputa a respeito de Deus, nem todos os crentes testemunham a seu favor e
da mesma maneira. A Igreja pode atrair para Deus, porém pode também afastar
dele.
O que importa, não é a
quantidade de testemunhas, pois a verdade não se decide pelo critério das
cifras. O decisivo não é, tampouco, a mensagem verbal que se pronuncia, ainda
que devamos continuar falando de Deus.
Aquilo que deve crescer
não é tanto o número de batizados, mas sua fé e seu amor. O que deve mudar não
tanto a mensagem verbal da Igreja, mas a vida das comunidades
cristãs.
Dificilmente o
desenvolvimento da informação religiosa e doutrinal ajudará, hoje, a Igreja a
acreditar em Deus, se ele não for, ao mesmo tempo, em si mesmo, manifestação do
amor salvador de Deus.
Deus não se impõe numa
sociedade pela autoridade dos argumentos, mas sim pela verdade que emana da vida
daqueles crentes que sabem amar de maneira efetiva e incondicional.
Não podemos nos esquecer
que “o único testemunho credível é o do amor efetivo aos homens, pois somente o
amor pode testemunhar o Deus Amor”.
Talvez uma das tragédias
do mundo atual, tão radicalizado em muitos aspectos, seja não contar hoje com
experiências de “fé radical” e de “testemunhas vivas” de Deus.
A figura do Batista,
verdadeira testemunha de Jesus Cristo, nos obriga a fazer-nos uma pergunta:
Minha vida ajuda alguém a crer em Deus ou mais afasta dele?
O evangelista João narra
os humildes começos do pequeno grupo de seguidores de Jesus. Seu relato começa
de maneira misteriosa. Diz-nos que Jesus “passava”. Não sabemos de onde vem nem
para onde se dirige. Não se detém junto ao Batista. Vai mais longe que seu mundo
religioso do deserto. Por isso, o Batista indica a seus discípulos que se fixem
nele: “Este é o Cordeiro de Deus”.
Jesus vem de Deus, não
com poder e glória, mas como um cordeiro indefeso e inerte. Nunca se imporá pela
força, não forçará ninguém a crer nele. Um dia será sacrificado numa cruz. Os
que querem segui-lo o acolherão livremente.
Os dois discípulos que
escutaram ao Batista começam a seguir Jesus sem dizer palavra. Há algo nele que
os atrai, ainda que não saibam quem ele é e para onde os leva. Sem dúvida, para
seguir a Jesus não basta escutar o que os outros dizem dele. É necessária uma
experiência pessoal.
Por isso, Jesus se vira e
lhes faz uma pergunta importante: “Que procurais?”. Estas são as primeiras
palavras de Jesus a quem o segue. Não se pode caminhar atrás de seus passos de
qualquer maneira. Que esperamos dele? Por que o seguimos? O que
buscamos?
Aqueles homens não sabem
aonde lhes pode levar a aventura de seguir Jesus, porém intuem que ele
possa-lhes ensinar algo que, ainda, não conhecem: “Mestre, onde vives?”. Não
buscam nele grandes doutrinas.
Na Igreja e fora dela,
são muitos aqueles que vivem perdidos no labirinto da vida, sem caminhos e sem
orientação. Alguns começam a sentir, com força, a necessidade de aprender a
viver de maneira diferente, mais humana, mais sadia e mais digna. Encontrar-se
com Jesus pode ser, para eles, a grande notícia.
É difícil aproximar-nos
desse Jesus narrado pelos evangelistas sem sentir-nos atraídos por sua pessoa.
Jesus abre um horizonte novo para nossa vida. Ensina a viver a partir de um Deus
que deseja o melhor para nós. Pouco a pouco nos vai libertando de enganos, medos
e egoísmos que nos estão bloqueando.
Quem se põe a caminho
atrás dele começa a recuperar a alegria e a sensibilidade para os que sofrem.
Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança.
Quando alguém se encontra com Jesus tem a sensação de que começa, finalmente, a
viver a vida a partir de sua raiz, pois começa a viver de um Deus Bom, mais
humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser
diferente.
Tradução:
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
* José Antonio Pagola é sacerdote espanhol. Licenciado (= mestrado) em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1965), Diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no Seminário de San Sebastián e na Faculdade de Teologia do norte da Espanha (sede de Vitoria). Desempenhou o encargo de reitor do Seminário diocesano de San Sebastián e, sobretudo, o de Vigário Geral da diocese San Sebastián (Espanha). É autor de vários ensaios e artigos, especialmente o famoso livro: Jesus - Aproximação Histórica (publicado no Brasil pela Editora Vozes, 2010).
Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A.
Pagola - Terça-feira, 10 de janeiro de 2012 - 09h37 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

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