PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
A lista de gafes do presidente da República volta e meia é enriquecida com expressões de alto poder de preconceito. Formado no ambiente sindicalista, onde as pessoas adotam uma linguagem pesada, direta, cheia de palavrões, Lula não consegue se conter diante de situações mais quentes da cena política nacional. No dia em que quase disse uma palavra chula, criou problemas em todo canto. Na semana passada, o mundo voltou a cair quando repercutiu por aqui sua afirmação de que a crise econômica que assola o planeta foi criada por pessoas brancas de olhos azuis. Ele ama o improviso. E se complica cada vez mais.
O assunto não teria tanta relevância se não se tratasse de um preconceito de raça. Justamente um líder que tem pretendido, ao longo desses anos de dois mandatos presidenciais, combater o preconceito racial. Às avessas, teria sido o mesmo que ele afirmasse aos quatro cantos que um determinado problema social tivesse sido produzido por quem tem pele negra. Os teóricos da história do preconceito no Brasil, por uma questão de justiça, sempre colocou em relevo as barbaridades cometidas pelos brancos contra os negros. Mas o comentário do presidente não é sinal de uma revanche? Não é preconceituoso? Não poderia ferir os brancos? Ou os brancos, por terem sido os grandes exploradores dos negros, não têm direito de reclamar ao serem tratados com descaso e de forma estereotipada?
Nos últimos anos, tornou-se conhecida a mania que Lula tem de não aceitar se preparar para determinados temas. Confia em seu taco e pronto. Sai pelo mundo, em fóruns importantes e deixa tudo por conta de sua autocelebrada capacidade de fazer afirmações diretas e contundentes. Essa qualidade o deixa no patamar dos corajosos e autênticos, mas o desnuda sobre seus próprios preconceitos. Não dá para esconder, portanto, que, ao se referir aos donos do mundo desenvolvido como brancos de olhos claros, ele misturou alhos com bugalhos. Fez uma constatação indiscutível sobre quem são os verdadeiros autores das trapalhadas financeiras que deixaram o mundo inteiro em apuros, mas escancarou sua visão racista.
O racismo é uma indignidade. Tanto contra negros quanto contra brancos. Não está certo e nem é merecedor de admiração ser reconhecido ou depreciado pela cor dos olhos. É inadmissível racismo nem a favor nem ao contrário. Lembram-se da ênfase dada ao fato de que, pela primeira vez na história, os Estados Unidos elegeu um presidente negro? Aqui no Brasil só endossaram a frase, com orgulho. Só um país racista poderia ter dado tanto relevo a este fato. E só gente acostumada a aplaudir sem pensar, continua a achar tudo lindo valorizar Obama pela cor da pele. A partida está apenas começando e ele pode ser um grande presidente. Só gente acostumada com a discriminação pode deixar passar em brancas nuvens a afirmação de Lula sobre os brancos e não retirar dele o brilho de humanista que ele jura possuir.

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