PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Não tem mesmo jeito. As espetaculares prisões realizadas, esses dias, pela Polícia Federal podem terminar em pizza como as Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso. Operações com nomes e expressões estranhas estão sendo executadas de modo a desagradar a gregos e troianos. Os defensores da moralidade pública acham que as ações estão se transformando em shows e quem, evidentemente, não quer ver a sujeira ser retirada de debaixo dos tapetes entende que a Polícia está extrapolando e fugindo ao seu papel constitucional. A grande imprensa deita e rola em cima dessa insatisfação generalizada e o cidadão, com tristeza, constata mais uma vez que há algo de muito podre por detrás de toda essa movimentação e que a corrupção é um espécie de polvo político e econômico e seus tentáculos prendem as principais forças da sociedade.
A história atual que trata da prisão do banqueiro Daniel Dantas, largamente documentada pelos jornais, traz um traço inusitado e que será particularmente responsável pelo desfecho na impunidade. Há comentaristas que afirmam, sem rodeios, que se esse grande executivo do mundo financeiro abrir a boca não vai sobrar pedra sobre pedra nos edifícios políticos das duas únicas forças que protagonizam a cena brasileira nos último 13 anos. O partido do presidente Lula, o PT, parece ter relações de colaboração e de cordialidade com o complexo dominado por Dantas do mesmo modo que haveria ligações da mesma natureza com os governos de Fernando Henrique Cardoso e com figuras do seu partido, o PSDB. Talvez sejam essas ligações que produzem aquele olhar fleumático e a postura de iminência parda que as revistas das últimas semanas têm explorado para o deleite de quem gosta de ler futricas políticas com o tempero ácido da economia.
Tudo isso chega numa hora psicológica nacional tremendamente infeliz. A inflação retornou de modo mais simbólico do que real. Voltaram os remarcadores para os supermercados, as contas já não batem mais, o dinheiro que dava para fazer a feira do mês já não é suficiente. Ainda que os indicadores econômicos não sejam próximos àqueles que torturavam a população em 1994, antes do Plano Real, na cabeça das pessoas, a situação já degringolou. Esse estado de espírito já amortiza a atenção que deveria merecer as prisões de gente com suspeita de corrupção. A análise sobre a importância de uma possível oportunidade de passar a história recente a limpo por meio de uma devassa na vida pública e nos conchavos políticos de um homem poderoso passa a se desviar para os métodos da Polícia Federal. Nos últimos dias, ao invés de focar na gravidade das suspeitas que recaem sobre Daniel Dantas, o centro nervoso da questão passou para intrigas entre ministros que discordam da forma quase teatral que foram efetuadas as prisões de notáveis.
Claro que não há clima para se pedir uma reação popular. Os movimentos sociais estão sufocados por um governo ambíguo que bate e sopra. As grandes lideranças partidárias estão se engalfinhando pela disputa do poder nas cidades e anestesiadas pela expectativa do processo de sucessão no governo federal em 2010. Os bons comentaristas políticos estão garantindo que a oportunidade representada pela prisão de Daniel Dantas devia ser singularmente explorada para que se levantassem dados sobre o submundo das relações do poder público com grupos econômicos. A prisão seria a porta de entrada para uma significativa busca da verdade Se não ocorrer isso, o esforço da Polícia Federal terá sido em vão. Mas a impressão que se tem é que nada disso tem grande importância e os holofotes foram jogados sobre picuinhas de ministros que falam muito. É preciso concluir com uma citação bem lugar-comum. Um desabafo cívico de Martin Luther King “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons!".
Pe. Rafael Vieira, CSsR – 16.07.2008

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