PADRE FLÁVIO CAVALCA DE CASTRO CSsR
Sentença do Supremo Tribunal Federal declarou constitucional e legal o uso de embriões humanos em experiências em torno das células-tronco. Muitos fizeram questão de apresentar o debate como sendo o desencontro entre ciência e religião, razão e fé. Tenho a impressão que o debate deveria ter sido feito num plano anterior, no campo da filosofia, que não foi suficientemente analisado, nem pelos defensores da pesquisa, nem pelos que se lhe opunham. Em primeiro plano foi colocada a questão quanto ao início da vida humana. Ela já existe ou não no embrião? Mas não vi nenhum debate filosófico quanto à natureza dessa vida humana.
É uma vida puramente animal, ou no ser humano existe um princípio de vida espiritual, distinto da matéria, de sua organização e animação? O ser humano é o que é, simplesmente por ser um animal mais evoluído? Ou traz em si uma realidade superior à matéria, que se manifesta através dela, mas não depende totalmente dela? Esse princípio vital, esse espírito, começa a existir apenas quando a matéria atinge determinado estágio de desenvolvimento biológico, ou é desde o início uma realidade distinta da matéria, que determina todo o processo de desenvolvimento do novo ser? Com outras palavras: o ser humano é um ser corporal e espiritual, numa unidade perfeita, ou simples organismo animal? traz em si um elemento espiritual que lhe dá as características humanas, ou é apenas o resultado de uma programação genética?
Evidentemente essas questões escapam ao campo da biologia e das ciências afins. As religiões podem ter uma resposta de fé para essas questões, mas, antes de serem questões religiosas, elas são questões filosóficas, levantadas pela razão ao interrogar-se sobre o ser humano. Se no ser humano não existe um princípio de vida espiritual, distinto da matéria, e fora do alcance da morte, por que não usá-lo, em qualquer estágio de sua existência, como objeto a ser manipulado, como meio a ser usado utilitariamente conforme as circunstâncias? Se somos matéria apenas, não precisamos de um Superior Tribunal Federal, porque, se só existe a matéria, não existe nem sabedoria nem justiça.

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