PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
O país acompanhou, respeitosamente, nos últimos dias, os funerais de uma senhora que deu um testemunho cristalino para a nação de virtudes bastante incomuns. A Sra. Ruth Cardoso, falecida aos 77 anos de idade e sepultada ontem em São Paulo deixou uma marca de especial poder para a reflexão das futuras gerações. Ela foi uma antropóloga respeitada na academia e acompanhou seu marido, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, nos 8 anos em que ele serviu ao Brasil ocupando a presidência da republica. Dela não se ouvia falar nenhuma excentricidade inventada para o jardim do Palácio da Alvorada e nem era possível vê-la, com freqüência, nas fotos que o presidente tirava em seu escritório do Palácio do Planalto. Foi uma primeira-dama que, apesar de ter uma posição conhecida e contrária a essa figura decorativa quase humilhante para a mulher do presidente, não refutava a se apresentar ao lado do marido nas horas que eram convenientes. Na outra parte do tempo, não se perdia entre cirurgias plásticas e encontros com estilistas, tomou a frente de um projeto de credibilidade.
O “Comunidade Solidária” foi um projeto social de governo que teve seus críticos, mas foi um trabalho aberto e colocado em constante confronto com a sociedade. O PT que sempre gritou naquela época, se nega, hoje, a deixar que ocorra uma profunda revisão nos efeitos do “Bolsa Família” em termos de exploração eleitoral. Dona Ruth comandou o “Comunidade Solidária” com firmeza, eficiência e muita disciplina. Mesmo quem não a conheceu na intimidade e nem teve a graça de saber qual o significado de seu trabalho na antropologia, ficou com a imagem de uma mulher inteligente e dedicada. Muita gente escreveu e falou bem de Dona Ruth Cardoso por ocasião de sua morte. Uma dessas pessoas, o professor e cientista político Antony Hall da Escola de Economia de Londres disse, segundo informações da BBC, que muitas pessoas acreditam que Dona Ruth foi, de fato, a primeira pessoa que pensou na idéia do “Bolsa Família”, apesar do programa não ter recebido esse nome naquela época. Mas o propósito de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, revelado e defendido por Dona Ruth Cardoso, foi exatamente o que presidente Lula fez quando assumiu o governo em 2003.
Na tradição britânica, com influências isoladas espalhadas pelo mundo ocidental, existe o título de “Lady” que mulheres recebem por razões hereditárias, isto é, por fazerem parte da nobreza e não corresponde ao feminino de “Sir”, ou literalmente “senhor”, que é fruto da condecoração com a principal comenda que pode ser oferecida pela Coroa Real no Reino Unido. Em nosso modo comum de falar no Brasil, quando quer se rasgar elogios à fineza dos modos, à elegância nos trajes e na argúcia da inteligência de uma mulher, se concede a ela o título de “Lady”. Esse é o caso bem apropriado para se referir à Dona Ruth Cardoso. Ela foi uma, realmente, uma “Lady”. Uma mulher de aparência serena que fazia intervenções perspicazes nos debates públicos e que exerceu, com distinção, o papel de consorte do mandatário máximo do estado brasileiro.
O partido do qual ela foi uma das fundadoras, o PSDB, resumiu o apreço por ela, em nota oficial, num texto que traz uma mensagem que, facilmente, pode ser endossada até mesmo por quem não tem vínculos com essa força política: “dona Ruth foi uma figura luminosa e será sempre para nós o norte, o rumo e o caminho para a construção de um Brasil para todos os brasileiros”. Essa convicção dos tucanos também se aproxima do mote publicitário do governo do PT que também em nota oficial afirmou: “Tanto na vida pública quando na acadêmica, Dona Ruth sempre se destacou por seu compromisso democrático, sua independência intelectual e seu espírito de solidariedade, características dos que acreditam na construção de um mundo mais justo e menos desigual”. Há, portanto, uma convergência explícita entre o PT e o PSDB na apreciação que fazem da herança deixada pela atuação pública de Dona Ruth. E essa convergência pode formar a paisagem desenhada num painel a ser conservado para o futuro: um país, igualitário e mais justo, de todos e para todos. Somente uma “Lady” poderia ter escrito uma história tão completa que coroa o significado reservado de seu papel afetivo para os familiares e amigos com o de uma cidadã que contribuiu com o futuro do Brasil. Obrigado, senhora!

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