PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
A guerra entre a Rússia e a Geórgia acabou. As atenções do mundo convergiram durante os dias do conflito bélico no sul do Cáucaso, mas o que realmente faz uma diferença na compreensão e nas possíveis conseqüências dessa história é o significado estratégico do território povoado por separatistas da chamada Ossétia do Sul. Os jornais analisaram esse ponto com insistência, mas é preciso registrar também que os tiros que já atingem civis na ex-república soviética formam a mais asquerosa face de uma política internacional marcada pelos interesses militares das super-potências. Os inocentes estão morrendo nas ruas por causa dos ataques do menino de recados de Valdimir Putin, a diplomacia norte-americana se move de forma covarde e o presidente da Geórgia faz cena com o novo pop star europeu Nicolas Sarkozy. A vida de idosos, pais de famílias, adolescentes e crianças está nas mãos dessa corja infame. Encravada na fronteira entre dois continentes, a Ásia e a Europa, a Ossétia já consolidou dois grupos à sua volta: o primeiro é formado por seus habitantes que tomaram consciência da importância geopolítica da sua terra e, por isso, querem a independência da Geórgia e o outro é composto pelos dirigentes da Rússia, dos Estados Unidos e da Europa ocidental que querem tirar um naco consistente de influência na região. Ao povo mesmo, só sobram o medo e a morte.
É extremamente complicado achar amparo na justiça para aceitar uma guerra qualquer e num caso tão repentino e espetacular como esse no qual o presidente russo Dmitri Medvedev e o georgiano Mijail Saakashvili se atiraram, as dificuldades aumentam sobremaneira. O saudoso João Paulo II deixou-nos uma série de lições sobre esse tema. Para ele, a guerra, qualquer guerra é, sempre, “uma derrota da humanidade”. E mostra o pano de fundo de todos os conflitos: “Não terá paz na terra enquanto perdurem as opressões dos povos, as injustiças e os desequilíbrios econômicos que ainda existem”. O Papa ainda destacava responsabilidades especiais entre os autores das guerras ao lembrar que “Até que aqueles que ocupam postos de responsabilidade não aceitem questionar com valentia seu modo de administrar o poder e de tentar o bem-estar de seus povos, será difícil imaginar que se possa progredir verdadeiramente para a paz”. Os dirigentes, nesse caso da guerra-relâmpago do Cáucaso têm muita conta no cartório e eles não serão capazes de justificar seus atos se não levarem em conta outra máxima do papa polonês ao confirmar que “a paz exige quatro condições essenciais: verdade, justiça, amor e liberdade”.
Na Ossétia do Sul, anexada à Geórgia, foi fruto, segundo análise dos redatores do site “Ultimo segundo”, do arbítrio comunista e, por isso mesmo, o cessar-fogo de agora resolve quase nada porque, quando o assunto é fronteira, as regras da Europa do pós-guerra não podem ser mudadas exceto por acordo. E, pelo que parece, esta regra tem sido seguida de maneira muito dura e servindo aos interesses dos herdeiros dos velhos donos do poder. Daí se entende porque governos como o da Geórgia relutam em abrir mão de qualquer território, mesmo quando a população local é claramente hostil e pode estar naquela situação simplesmente como resultado de uma decisão arbitrária do passado. Os habitantes da Ossétia não querem estar unidos ao território georgiano e não conseguem engolir, ainda hoje, que essa situação seja o resultado do que ficou determinado pela antiga União Soviética que forçou, em 1921, a Ossétia do Sul a fazer parte da Geórgia.
Sarkozy, apesar de representar a União Européia, entra no bolo das conversações para o encerramento do confronto quase como um oportunista por mais trágico que seja o momento. Em outros lances, ele tem se mostrado com esse perfil e tem sido essa a reclamação permanente da oposição na França e na reação da opinião pública de outros países europeus. Claro que ninguém subestima a importância da intervenção de qualquer país democrático quando suas autoridades se apresentam para mediar uma situação de derramamento de sangue, mas os russos não se referiram a União Européia e acharam, no primeiro momento, que a participação da França não parecia ter consistência e chegaram a chamar o plano de paz do marido da bela Carla Bruni de “rascunho”.

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