
PADRE FLÁVIO CAVALCA DE CASTRO
No dia 11 de maio Frei Galvão foi canonizado, oficialmente apresentado à nossa veneração e imitação. Apesar de uma ou outra narrativa piedosa, na linha dos Fioretti de S. Francisco, a vida de Frei Galvão não apresenta os esplendores reais ou imaginários de outros santos. É uma vida singela, como o ambiente em que viveu neste nosso Brasil distante de antigamente.
Uma vida sobre a qual nem mesmo temos muitas informações. Não sabemos em que data nasceu, não temos certeza nem do ano. Foi em 1738, ou terá sido em 1739? Sua atividade pouco se afastou de S. Paulo. Dele temos poucos escritos. Durante muito tempo foram poucas as biografias, poucas as informações publicadas no meio católico, e praticamente nenhuma nos grandes meios. Como, então, se explica que tenha ficado na alma do povo, no imaginário e na veneração popular, sem o auxílio de nenhuma promoção orquestrada como vemos nestes nossos tempos de comunicação exacerbada? Podemos até dizer que Frei Galvão é um santo de casa, que sem espantar pode freqüentar nossa cozinha e participar de nossa prosa familiar ao cair da tarde. Sua lembrança e sua fama de santidade foram conservadas e transmitidas na tradição familiar, na devoção doméstica. Quase diria que ele não se sentirá à vontade entre velas e flores num altar.
Foi frade de convento, mas freqüentou muito as ruas, vielas e trilhas da antiga S. Paulo. A pé, e imagino que ás vezes em lombo de burro, percorreu longas estradas. Mais de uma vez varou os quatrocentos quilômetros entre S. Paulo e Rio de Janeiro, passando pelas cidades do Vale do Paraíba, não em viagem reta, mas com todos os desvios exigidos pela pregação. Andou por Itu, Sorocaba e até pelas bandas de Bauru, nas beiradas então da civilização. Estava sempre em contato com as pessoas. Com o povo, vivia perto, era de casa. Tão perto que não se envergonhavam de presenteá-lo com frangos vivos, dependurados de uma vara. Com os grandes, sabia manter os contatos necessários, de igual para igual, pois era filho de quem foi Capital-Mor da cidade de Guaratinguetá. E quando foi o caso, resistiu à tirania do Capitão-General que governava S. Paulo.
O povo devoto tem lá o seu estilo, e sabe desfiar histórias e mais histórias nos moldes das legendas áureas. Os pregadores, não sei como vão falar de meu santo frei, que aspecto irão destacar de sua personalidade, que virtudes, que pormenores de sua vida. Apesar de ser santo há tanto tempo, de fato está apenas a estrear como tema de sermões. Por falar nisso, como irá o papa apresentá-lo no sermão da canonização? Não faço nem idéia. O que posso dizer é como vejo esse meu santo conterrâneo e parente longínquo.
Eu o vejo marcado pela simplicidade, apesar de saber poetar até em latim, mesmo sendo pregador eloqüente e afamado, dotado de luzes místicas e dons espirituais. Frei Galvão - fica até difícil dizer “São Frei Galvão” - era capaz de chegar à porta do convento das irmãs carregando aos ombros mantimentos recebidos de esmolas. Mesmo sabendo sua teologia, preparou argamassa, assentou tijolos, levantou paredes depois de ter traçado as plantas. Era homem simples e austero. De todos que o procuravam como mestre espiritual, fossem freiras, clérigos ou leigos, exigia muito, até a santidade. Uma santidade da vida do dia-a-dia, da casa, da rua, da roça, da quitanda e até da igreja e das novenas. Os documentos que nos sobraram de sua vida destacam seu trabalho em favor da paz e da reconciliação entre as pessoas, sua participação muito ativa na vida da cidade, tomando a defesa dos fracos, tendo isso lhe custado uma vez até a expulsão da cidade. Acho que nessa linha iria falar se me pedissem um sermão na primeira festa do novo santo.
Frei Antônio de Santana Galvão encerrou sua caminhada no dia 23 de dezembro de 1822, pelas dez horas da manhã. Penso que gostará se continuarmos a tratá-lo como santo de casa.
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