PADRE FLÁVIO CAVALCA DE CASTRO CSsRHá textos aos quais pouco ou nada se pode acrescentar. Principalmente textos antigos, dos primeiros tempos do cristianismo. É verdade que são quase desconhecidos por nós, que geralmente damos maior importância às novidades.
Deixo para sua consideração um texto de Justino, cristão das primeiras horas. Desiludido com as escolas filosóficas do tempo, convertera-se ao cristianismo ao ver a coragem dos que morriam por essa fé. Colocou seu preparo intelectual a serviço da defesa do evangelho, deixando três textos de apologia da fé cristã. Morreu em Roma, no ano 165, decapitado com mais seis companheiros cristãos.
Assim Justino fala sobre a eucaristia no segundo século da era cristã:
“A ninguém é permitido participar dá Eucaristia, a não ser que creia na verdade do que ensinamos, tenha sido purificado pelo batismo para a remissão dos pecados e a regeneração, e viva como Cristo ensinou. Pois não tomamos este alimento como pão comum ou como bebida comum.
Do mesmo modo que, pela Palavra de Deus, Jesus Cristo, nosso salvador, se encarnou e assumiu carne e sangue por nossa salvação, também nos foi ensinado que o alimento consagrado mediante a oração que contém suas próprias palavras − alimento do qual nossa carne e nosso sangue se nutrem para sermos transformados − é o corpo e o sangue de Jesus, que se encarnou.
Os apóstolos, em suas memórias, que chamamos de evangelhos, transmitiram-nos a recomendação que lhes fizera Jesus: tendo ele tomado o pão e dado graças, disse: «Fazei isto em memória de mim. Isto é meu corpo”; e tomando igualmente o cálice e dando graças, disse: «Este é meu sangue», e os deu somente a eles. Desde então, não cessamos de recordar estas coisas entre nós.
Com o que possuímos, socorremos a todos os necessitados e estamos sempre unidos uns aos outros. E, por todas as coisas de que nos alimentamos, bendizemos o criador de tudo, por seu Filho Jesus Cristo e pelo Espírito Santo.
E no dia chamado do Sol [o nosso Domingo], reúnem-se em um mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos. Lêem-se as memórias dos apóstolos, ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo o permite. Em seguida, ao terminar a leitura, aquele que preside toma a palavra para exortar e estimular à imita¬ção de coisas tão belas.
Depois, levantamo-nos todos juntos e recitamos orações. Como já dissemos acima, ao acabarmos de rezar, apresentam pão, vinho e água, e o que preside eleva ao céu, conforme o seu poder, orações e ações de graças, e o povo diz a aclamação: Amém. Em seguida faz-se entre os presentes a distribuição e a partilha dos alimentos consagrados, que são também enviados aos ausentes pôr meio dos diáconos.
Os ricos que o desejam dão, a seu arbítrio, o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposi¬ção do que preside, e este socorre os órfãos, as viúvas, aqueles que, por doença ou outro motivo qualquer, se acham em dificuldade, os prisioneiros e os peregrinos, numa palavra, cuida de todos os necessitados.
Reunimo-nos todos no dia do Sol, visto ser ele o primeiro dia no qual Deus, mudando as trevas e a matéria, criou o mundo, e porque neste mesmo dia Jesus Cristo Salvador ressuscitou dos mortos. Com efeito, um dia antes do de Saturno [o nosso sábado], crucificaram-no e no dia seguinte a este, isto é, no dia do Sol, apa¬receu a seus apóstolos e discípulos, e ensinou-lhes estas coisas que propus à vossa consideração. (Primeira Apologia, cap. 66-67)”
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