
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
A turbulência política em torno das disputas pela presidência da Câmara Federal que resultou na eleição do deputado Arlindo Chinaglia, do PT de São Paulo, e as especulações em torno do anúncio do Plano de Aceleração do Crescimento do Governo Lula, no meu entendimento, sufocaram as poucas notícias que tivemos da realização do Fórum Social Mundial, o dos pobres, realizado na capital do Quênia. Depois que o furacão formado por esses dois fatos passou nos grandes órgãos de informação do país, houve apenas espaço para se repercutir o outro, o dos ricos, o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça. Andei procurando algum traço significativo do evento africano realizado no final de janeiro. Encontrei um artigo de Dom Marcelo Barros, Monge Beneditino. Ele participou do Fórum e foi uma espécie de correspondente da Rede Católica de Radio durante o encontro, apesar de não ter encontrado condições técnicas para enviar seus boletins diários. Ele resumiu a expectativa espiritual que se vivenciou diante do encontro assim: “Engravidar a realidade com a expectativa de um mundo melhor faz parte da vocação humana”.
Tenho a graça de conhecer o Marcelo e dou testemunho de que ele é um homem lúcido, extraordinariamente talentoso, profundamente conhecedor da Escritura, amigo dos pobres e um encantador operário da palavra. Para ele, o Fórum traz novidades desde a sua organização que reúne de intelectuais e políticos de destaque, até os mais pobres do mundo, como os dalits da Índia, até hoje, considerados "impuros" e os representantes de tribos africanas que lutam para sobreviver a séculos de colonialismo. E assegura: “O Fórum Social é espaço de discussão e integração entre organizações e movimentos que buscam outra forma de organizar o mundo” e dá um exemplo recente ao lembrar que o Fórum “não tem poder de decisão, mas o povo boliviano que, pela primeira vez na história, tem um índio como presidente da República e vários outros países da América Latina que vivem um caminho social e político novo sabem que, dificilmente, isso teria sido possível sem o processo que os fóruns sociais desencadearam no mundo”. Marcelo lembra ainda que, desde 2001, o Fórum Social Mundial tem atraído e dado melhor visibilidade às ações alter-mundialistas, buscado alternativas à globalização neoliberal em seus aspectos, econômicos, políticos, sociais e culturais. Iniciativas de economia solidária, de comércio alternativo e de cooperativas mais igualitárias têm se multiplicado e revelado uma eficácia surpreendente”.
O artigo do Marcelo sobre o Fórum Social, o qual reproduzo parcialmente, foi publicado originalmente pela Agência Frei Tito para a América Latina. Nesse texto, o Marcelo diz ainda que o Fórum Social tem também aprofundado a urgência sentida por muita gente de criar novas formas de "fazer política", mais de acordo com a realidade do mundo atual. Uma Política baseada na diversidade cultural e que valorize as diversas visões de mundo, assim como as múltiplas perspectivas de futuro. Esta nova forma de fazer política assume o diálogo entre os diferentes como instrumento para a construção de planos de ação e agendas coordenadas de lutas e propostas. O Marcelo também faz um outro destaque importante: “foi muito importante que este Fórum tenha sido realizado no coração da África negra. Ele desvenda para todo mundo a realidade terrível de sofrimentos e injustiças que os povos africanos continuam a sofrer, desde que, no século XV, o Ocidente começou a colonizá-los. Vindos da Europa e da América, os brancos souberam atiçar as rivalidades entre chefes tribais e, assim, puderam melhor roubar os bens naturais e explorar as riquezas minerais do continente. Milhões de africanos foram escravizados. E até hoje, as potências ocidentais levam da África diamantes, petróleo e outras riquezas, deixando para os negros várias guerras assassinas e uma miséria sempre maior”. A realização do Fórum, segundo o Marcelo, foi um momento histórico, tanto para as lutas de resistência no continente africano, como para o processo dos fóruns sociais. E conclui: “A maioria dos participantes vem ao fórum para fortalecer a utopia de que é possível mudar a forma de organizar o mundo e a vida. Eduardo Galeano conta a história do homem que dizia à Utopia: ´- Eu me aproximo de ti um passo e vejo que te distancias dois. Dou um passo a mais e vejo que te distancias mais dois. Para que serves, então?´. A Utopia respondeu: ´Para te fazer caminhar´”.
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 05.02.2007
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