
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Um filme duro. Misterioso. Amarrado por histórias de proposições densas. Requer digestão longa para se absorver os nutrientes culturais presentes no entrelaçamento de três universos muito diferentes e, paradoxalmente, muito semelhantes. Nem dá pra considerar a produção com os critérios tradicionais de análise de cinema. Os astros são figurantes. A atuação dos atores desconhecidos ganha fortíssimo destaque mas não deixa marcas estéticas, aponta para dramas humanos de grande complexidade. O mundo dos surdos-mudos tem um estonteante casamento com o mundo dos sedentos por sexo com uma pitada de mistério policial. O ambiente lúdico de senhoras que cuidam de crianças e trabalham ilegalmente na Califórnia tem uma união colossal com o cenário portentoso em símbolos e em alegria das festas mexicanas. O árido, pesado, estranho palco das montanhas do Marrocos reúne o cotidiano de famílias paupérrimas que cuidam de cabras misturado com a postura de turistas problemáticos numa tragédia de deixar quem assiste com dificuldades para respirar. Esse último retrato ainda tem um tempero completamente arrebatador: a solidariedade sincera de um Guia e a coragem doida de um garoto que explode em masculinidade autêntica. É um colossal mosaico de três continentes. E todas essas fotografias em movimento, de alguma forma, se tocam e indicam uma mensagem urgente: há um mistério que nos iguala debaixo de qualquer roupa, desempenhando qualquer papel e vivendo em qualquer lugar.
Alguma sala de cinema dos grandes shoppings, em uma grande cidade brasileira, estará exibindo, nestes dias, essa história. O filme “Babel” pode até passar pelo turbilhão comercial do verão sem merecer destaque, mas uma pessoa que procura compreender o mistério da natureza humana e tiver a oportunidade de assistir a projeção desse trabalho vai ter que refletir. O mexicano Alejandro González-Iñárritu, idealizador e diretor do filme, ainda não completou 44 anos de idade e já deu o que falar entre as pessoas que gostam de produções arrojadas. O seu “Babel”, pelo que se tem notícia, é a conclusão de uma trilogia antecedida por dois trabalhos que não conheço: “Amores Brutos”, que foi lançado no ano 2000 e “21 gramas” exibido há três anos atrás. No primeiro, o diretor contou apenas com atores mexicanos. Em seguida, buscou a figuras emblemáticas do norte-americano Sean Penn e do espanhol Benício del Toro. Agora, além de convidar seu amigo do primeiro trabalho que tem arrasado com outros diretores, Gael Garcia Bernal, ele chegou aos internacionais Brad Pitt, Cate Blanchett e Michael Pena. Todos, no entanto, são infinitamente menores do que seus personagens. O herói de “World Trade Center”, por exemplo, não passa mais que quatro minutos em cena sob a pele de um policial. O fundamental mesmo é o filme, o conjunto, o impacto do embaralhamento de dramas humanos cruciais. Num deles, uma turista americana é atingida por uma bala vinda de um rifle acionado por um garoto numa estrada no interior do Marrocos. A divulgação do estúdio que produziu o trabalho explorou essa vertente porque nela atua diretamente os personagens de Pitt e de Blanchett. Na verdade, as melhores e mais importantes partes são as outras duas. A que conta a aventura de uma surda-muda no Japão e o dramalhão mexicano de uma senhora que usa roupas vermelhas.
Esses dois casos me impressionaram em demasia. O primeiro mostra que a história americana é uma incógnita. Tratada por sociólogos, ilustrada por sucessivos casos dramáticos e objeto de preocupação dos governos dos Estados Unidos, a imigração ilegal serve de pano de fundo para um espetáculo de fatalidade, alegria e de uma dor capaz de cortar do coração. A personagem Amélia, interpretada pela excelente Adriana Barraza, é um monumento vivo à qualquer pessoa que dedica sua vida a uma atividade digna, colocando nela todo o amor que tem e, no final, é colhida pela ingratidão daqueles que conviveram com ela e pela crueldade de quem confia na eficiência das regras e fecha o coração para o inusitado da vida. Ela chora as lágrimas de todos os que recebem as bofetadas da injustiça. Ela engole, amargamente, o fruto de sabor acre do absurdo que o mundo se tornou. O outro caso é uma significativa expressão do desejo que não respeita convenção alguma. A mocinha oriental que não pode ouvir e nem falar, mas sabe escrever e se comunicar pela simpatia, aparenta não saber lidar com a perda da mãe e a superproteção do pai, mas no fundo, só quer ser possuída de forma simples, isto é, por meio de uma relação sexual. De nada adiantam a amizade das companheiras e o afeto paterno. Ainda que o seu efeito seja drástico, nem o preconceito a vence. Ela quer, definitivamente, transar e é capaz de qualquer coisa para chegar à realização desse propósito. Essa menina representa de forma crua, direta e dolorosa, a solidão de todas as pessoas que se encontram, em qualquer lugar e em todos os tempos, desprovidas de experiências básicas. As duas histórias são comoventes, mas não há detalhe nesse filme que possa ser considerado banal. Um Guia que não aceita dinheiro pela ajuda dada e um garoto que enfrenta policiais abrutalhados entre tantos outros símbolos deixam esse filme na lista dos imperdíveis.
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 29.01.2007
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