
PADRE LUÍS KIRSCHNER CSsR
Se houver dez economistas numa sala, haverá onze opiniões! No meio de tantas divergências, Papa Bento XVI entrará com mais um ensinamento social sobre o assunto que gera tanta polemica: como usar os bens e o dinheiro que temos?
John Allen* fez uma observação sobre o conteúdo possível dessa nova carta do Papa, e oferece, como pano de fundo, outras luzes.
O titulo será Veritas in Caritate, isto é, A Verdade na Caridade, uma meditação, segundo o Papa, sobre o vasto assunto da economia e do mundo do trabalho. É mais uma peca na lista de outras cartas papais, começando com Leão XIII (Rerum Novarum, em 1891), que foi uma análise do surgimento do capitalismo industrial. Encíclicas sociais têm a tendência a serem publicadas nos momentos de grandes crises econômicas mundiais. Pio XI escreveu Quadragesimo Anno, no ano de 1931, durante a Grande Depressão Econômica; Paulo VI escreveu Populorum Progressio em 1967, refletindo sobre a nova era da descolonização. E em 1991, João Paulo II publicou Centesimus Annus depois da queda da União Soviética.
A nova carta do Bento promete continuar essa tradição, pois sua publicação foi atrasada quase dois anos, a fim de refletir melhor sobre a situação atual, global, da economia.
A Classe Operaria e os Pobres
Os ensinamentos católicos sobre Justiça Econômica frequentemente contêm conseqüências políticas, e assim são bem vindos e aplaudidos pela Esquerda, mas vistos pela Direta com uma outra ótica.
O bom exemplo foi a carta do Papa João XXIII em 1961, Mater et Magistra. Escrita na auge da Guerra Fria, ela condenou tanto o mundo Ocidental como Oriental por ter dirigido recursos preciosos para a construção de armas, em vez de ajudar os pobres. Um jornalista criou a frase: Mater si, Magistra no! (i.e. Mãe, si, Professora não!) Houve uma reação negativa, também, contra Paulo VI quando ele publicou Populorum Progressio, pedindo impostos mais altos nas nações ricas a fim de financiar ajuda internacional.
O cerne do Ensinamento Social Católico é uma solidariedade com a classe operaria e os pobres. Leão XIII iniciou este processo, desafiando o capitalismo selvagem da época. Um numero pequeno de homens muito ricos tem colocado um peso sobre as multidões que é pouco melhor do que a escravidão. Pio XI condenou o Imperialismo Internacional do Dinheiro.
É verdade que todos os papas recentes têm defendido o direito da propriedade particular, condenando comunismo e socialismo, abraçando o principio de subsidiariedade, limitando o poder do Estado. Também havia dúvida e medo que a tal Mão Invisível do Mercado fosse tão bondosa, e houvesse ênfase clara em favor do Bem Comum antes do lucro pessoal. João Paulo II disse em 1987, Sollicitudo Rei Socialis, que propriedade particular contém uma hipoteca social.
Como consêquencia, os papas têm apoiado Sindicatos e os esforços para diminuir o Débito Internacional dos países pobres; estão em favor de direitos positivos para os operários, como, por exemplo, salários justos, previdência para a saúde, condições de segurança no trabalho e aposentadorias.
Ninguém deve ficar surpreso agora que o Vaticano toma linhas progressistas. Em 1991, João Paulo II acabou com a ideia de uma Terceira Via entre Capitalismo e Comunismo. Ele achou que uma economia de mercado era a melhor maneira de promover uma criatividade humana livre no setor econômico. Mas ele estava longe de abençoar um Capitalismo laissez-faire. A Economia deve ser governada por uma estrutura jurídica forte, cujo coração deve ser ético e religioso.
Muitas pessoas que admiram as tentativas dos Papas descrevem os seus esforços como o melhor segredo da Igreja, desejando que o Ensinamento Social seja mais conhecido e aceito. Os críticos dizem que é um exemplo do clero agindo alem da sua competência, às vezes, ignorando a realidade econômica, e assim prejudicando as pessoas que eles querem ajudar.
De qualquer jeito, Papa Bento não ficará calado diante das possíveis criticas, enfatizando os valores da Dignidade Humana e Solidariedade. Em 1988, Cardeal Ratzinger argumentou que Capitalismo é pouco melhor que Nazismo ou Comunismo, pois todos adoram ídolos falsos (i.e. Lucro, o Volk -O Povo - e o Estado. Alguns descobriram que um tio dele ajudou a criar um partido político que representou os agricultores pobres contra os interesses das industrias grandes.
Apesar do fato que Veritas in Caritate será a primeira carta social completa do Papa Bento, ele já se tem pronunciado sobre temas sociais varias vezes em outras ocasiões. Por exemplo,
1.) Uma preocupação em favor da Justiça social não pode substituir a pratica de uma Caridade individual;
2.) Pregar o Evangelho é essencial para construir um mundo melhor, porque um mundo sem Deus será destinado a ser desumano;
3.) Uma Reforma sistemática, apesar do fato que seja urgente, não terá sucesso sem uma conversão individual.
Os governos têm de continuar assistindo os mais pobres
Uma Questão Chave
Veritas in Caritate será a primeira encíclica social escrita na era da Globalização. Peritos no assunto querem saber como o Papa falará sobre um assunto ainda não esclarecido pelo ensinamento social católico: O que seria uma estrutura jurídica forte para a economia no século 21?
Padre João Coleman, SJ, tem notado que o poder de transformar e governar o mundo atual não está mais o exercício exclusivo dos governos nacionais tradicionais. Existem os grupos intergovernamentais, como a Organização Mundial do Comercio, ou agencias particulares como Standard and Poor (que regula 5 trilhões de dólares). Há também o poder dos Multinacionais como HSBC, com posse de 2.5 bilhões de dólares, mais do que o GNP de todas as nações, menos apenas cinco. Porque o ensino social católico tem falado pouco sobre isso, Coleman tem medo que a doutrina da Igreja seja vaga e moralista.
Vamos ver se Papa Bento oferecerá novos pensamentos sobre a questão de usar mais regras e leis na área de disciplinar os bancos e os mercados que captam recursos. Pode ser uma chance para expor um novo raciocínio.
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* John Allen, jornalista norte-americano que escreve regularmente sobre questões do Vaticano.
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