
PADRE RAFAEL VIEIRA CSsR
Não temos feito outra coisa, nas ultimas semanas, aqui e ali, em nossos comentários sobre a infelicidade do comentário do presidente Lula sobre Direita e Esquerda. Ele disse, literalmente, ao receber um premio da revista “Istoé”: “Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema. Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema”. Eu que não me sinto à vontade para expressar-me sobre quem possa estar numa posição e nem em outra, e de filosofia não conheço coisa alguma, fiz ouvidos moucos a Chico Buarque que reagiu dizendo que “Isso é uma bobagem. Como bobagem não precisa ser levada tão a sério. Esse assunto não rende mais não. Essa conversa é muito antiga de incendiário e bombeiro. Essa é uma conversa de direita sem dúvida. Eu não mudei porque tenho cabelos brancos”. E nem prestei atenção no que falou um grande pensador do PSDB que eu admiro pelo poder poético de lidar com as palavras, Artur da Távola. Ele disse que ficava feliz de ver que o Presidente Lula estava fazendo uma revisão importante e que só espera, agora, que Lula possa aprofundar alguns conceitos para compreender a verdadeira esquerda, típica da maturidade pessoal, psicológica, espiritual e política que é a social democracia. Távola desabafa que é justamente essa esquerda que a antiga esquerda faz questão de ofender acoianando-a de neoliberal. Fui a uma fonte mais antiga para colocar minha colher de pau nesse assunto.
A professora de Literatura norte-americana Jennifer Michael Hech, em sua história da dúvida chama o poeta de Diágoras de Milo, de o maior ateu do século V. Ele já dizia que era preciso pensar na historia dos perdedores. Creio nisso. Hoje, por exemplo, alguém já parou para pensar onde estava a divina providencia que não salvou os ocupantes da van que foi tragada pela cratera das obras do Metrô de São Paulo na semana passada? Quem perde não tem proteção divina e não está nos planos de um mundo melhor? Se a esquerda clássica representada pelos teóricos marxistas não subsistiu, não pode ser justamente porque ela está também, entre os que não foram devidamente vista pelos olhos de quem quer ver de um modo diferente do modo antigo? Juventude e idade madura têm a ver com tudo isso. Entre os jovens podem estar aqueles que só sabem fazer as contas do aqui e do agora. Gente que não quer entender que existem situações mais complexas que precisam de horas de leitura para chegar-se a uma provável compreensão dos problemas sociais. Os mais idosos e não foram conduzidos a essa compreensão pelo empenho, foram levados a ela pela simples observação dos movimentos políticos e sociais dos anos que viveram e pelo cenário que viu durante a existência.
Ando muito interessado em assuntos sobre maturidade. Estou com 43 anos de idade e fico encabulado com o quanto a vida já mudou no passar desse tempo que tive a graça de acompanhar. Diágoras de Milo acabou complicando a vida litúrgica dos amantes dos desuses gregos porque vulgarizou a idéia de que se as divindades só estavam com os vencedores, elas não mereciam crédito. Ele foi acusado de profanar os mistérios. Entendo a mesma coisa, mesmo sendo crente. Acho que o cuidado divino está com todos, especialmente com os perdedores. Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em lidar com a chamada teologia da prosperidade. Recuso-me a aceitar que a graça e a benção dos céus se encontram apenas com aqueles que são ricos, famosos e poderosos. Estou entre aqueles que entendem, aceitam, admiram e servem o Deus que estava tanto com alguém que perdeu o horário do vôo feito pelo avião da Gol que se espatifou nos ares do Mato Grosso depois de se chocar com um Legacy, como com aqueles que pereceram, em questão de segundos, durante o desastre que marcou a história do ultimo semestre da vida do país.
O lance ideológico de Esquerda e Direita é ainda mais complexo do que se pode imaginar. Creio também nisso. Mas acho que o presidente tem razão ao associá-la com a idade. E tenho convicção de que as desconfianças do pré-socrático grego sobre a religião têm tudo a ver com a política. O tempo dos conceitos dogmáticos em política já chegou ao fim. Se o que aprendemos chamar de Direita nos bancos da escola de Filosofia pura está vitorioso nas sociedades de consumo capitalista de hoje, isso pode não dizer muito sobre qual é a idéia realmente válida. Os deuses podem estar equivocados e suas doutrinas podem dizer muito pouco do que se deseja pra uma sociedade justa, igualitária e feliz. Eu morro de medo de pessoas que presumem saber tudo sobre tudo. Elas me ameaçam. Parece que elas têm razão sobre mim e nenhuma sobre elas próprias. São como deuses. Consola-me, portanto, imaginar que elas não têm razão. E essas pessoas não gostam de conversas que envolvem temas sobre Esquerda e Direita em revisões de quem não detém altos graus acadêmicos. Elas acham que as formulações políticas de quem é apenas um observador inculto é um equívoco sem precedentes. Elas acham que o Lula, finalmente, sucumbiu. Diágoras que nos salve delas!
Pe. Rafael Vieira, CSsR / 15.01.2007
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