"Tenho sido freqüentemente ameaçado de morte. Devo dizer a eles que, como cristão, não creio na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho".(Dom Óscar A. Romero)
Neste mês de março de 2010 a Igreja da América Latina celebra os trinta anos do martírio de Dom Oscar Romero († 1980,em 24 de março), Arcebispo de El Salvador, assassinado pela repressão de extrema-direita que oprimia a nação após um execrável golpe de estado. El Salvador tinha um governo ditatorial, que foi derrubado por outro golpe de extrema-direita, realizado por uma "junta governativa", composta por militares e civis, e apoiada pelos Estados Unidos. Como a opressão e a injustiça aumentaram, o Arcebispo Romero se insurgiu contra esse estado de coisas, que esmagava o povo, composto em sua maioria de pobres, índios e pequenos lavradores.
Enquanto padre, Oscar Romero era um burocrata, homem mais de sacristias e bibliotecas do que de uma atuação pastoral propriamente dita. Tanto que, por conta de seu perfil tímido e pouco combativo é que foi designado pelo Vaticano para ser bispo, porque o que menos as cortes romanas queriam naquele momento era a ascensão de alguém que postulasse a causa dos pobres e dos oprimidos, pois a Igreja da América Latina era, em sua maioria, naquela década, aderente à Teologia da Libertação.
É curioso que a conversão de Dom Romero, pelo menos à causa dos pobres e dos explorados - uma classe de maioria nas terras de El Salvador - ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Ele pode sentir a miséria do seu povo e violência dos poderosos, que - como em muitos paises do Continente - matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem fretenir suas vozes em defesa do povo esmagado.
Apesar de ameaças, perseguições e boicotes, o bispo tornava suas palavras, em homilias, pregações e discursos, cada vez mais candentes, dirigidas e corajosas, denunciando tudo o que era feito no país, como uma violação aos direitos do povo e à ética nacional. Dom Oscar Romero revestiu-se de uma coragem profética que faltou à maioria dos bispos da América, inclusive no Brasil, também dominado pelo tacão de uma ditadura militar, onde se destacou o destemor de Dom Helder, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom José Maria Pires e poucos outros que tiveram coragem de dizer que aquilo (prisões, cassações, expurgos, tortura e mortes) era um crime, contrário ao projeto de Deus.
Depois da morte de seu ajudante, o jesuíta Rutillo Grande Garcia († 1977), Romero passou a acusar frontalmente os poderes, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os de todos os males ocorrentes no país. Ora, depois dessa atitude de afronta ao poder político-econômica que se julgava dono de El Salvador, os dias do pastor estavam contados.
O padre Rutillo (pronuncia-se Rutílio) fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. Numa homilia proferida a 13 de Fevereiro de 1977 (ele seria assassinado trinta dias depois), ele bradou: "A Eucaristia que estamos celebrando hoje, alimenta este nosso ideal de uma mesa comum para todos, com um lugar para cada um e Cristo no meio". A 12 de Março seguinte, quando se dirigia para a sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do padre Rutillo e a sua morte que o convenceram a colocar-se decididamente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.
Um grupo de bispos latinoamericanos, em março de 1980, na cerimônia dos funerais de dom Romero, assinou um documento que dizia: "Três coisas admiramos e agradecemos no episcopado de dom Oscar Romero: foi, em primeiro lugar, anunciador da fé e mestre da verdade [...]. Foi, em segundo lugar, um resoluto defensor da justiça [...]. Em terceiro lugar, foi o amigo, o irmão, o defensor dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos operários, dos que vivem nos bairros marginalizados".
A história da vida, trabalho e martírio de Oscar Arnulfo Romero Galdámez hoje faz parte da caminhada da Igreja da América Latina, de seu martirológio e dos atos da missão cristã no Continente.
El Salvador é o menor país da América Central, com apenas 21 mil quilômetros quadrados e um PIB insignificante, a renda per capita é de US$ 1.045/ano, uma das piores qualidades de vida da América Latina. Mais de 90% da população, de cerca de seis milhões de habitantes, é constituída de mestiços.
Em 12 de maio de 1994 a Arquidiocese de San Salvador pediu permissão ao Vaticano para iniciar o processo de canonização de Dom Oscar Romero. O processo diocesano foi concluído em 1995 e enviado à Congregação para a Causa dos Santos em 1997, no Vaticano, que em 2000 o transferiu à Congregação para a Doutrina da Fé (então dirigida pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI) para que analisasse os escritos e homilias de Dom Oscar Romero. Terminado a análise, em 2005, o postulador da causa de canonização, Dom Vicenzo Paglia, informou aos meios de comunicação as conclusões do estudo: "Romero não era um bispo revolucionário, mas um homem da Igreja, do Evangelho e dos pobres". O processo seguirá novos trâmites burocráticos, que poderão elevar oficialmente Oscar Arnulfo Romero à honra dos altares como o primeiro santo e mártir de El Salvador.
Enquanto o processo de canonização segue em passos de tartaruga em Roma, para a indignação de muitos cristãos, o povo salvadorenho, da América Central e de todo Mundo já considera Romero um santo, mártir e profeta das Américas e do Mundo. Ao seu túmulo, sob a catedral de San Salvador, acorre diariamente muita gente peregrina agradecendo a ele graças recebidas e buscando forças e inspiração para seguir sendo discípulo dele na luta por justiça e paz.
PAULO DE OLIVEIRA (PAULINHO)
Dieretor Social da UNESER
Enquanto padre, Oscar Romero era um burocrata, homem mais de sacristias e bibliotecas do que de uma atuação pastoral propriamente dita. Tanto que, por conta de seu perfil tímido e pouco combativo é que foi designado pelo Vaticano para ser bispo, porque o que menos as cortes romanas queriam naquele momento era a ascensão de alguém que postulasse a causa dos pobres e dos oprimidos, pois a Igreja da América Latina era, em sua maioria, naquela década, aderente à Teologia da Libertação.
É curioso que a conversão de Dom Romero, pelo menos à causa dos pobres e dos explorados - uma classe de maioria nas terras de El Salvador - ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Ele pode sentir a miséria do seu povo e violência dos poderosos, que - como em muitos paises do Continente - matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem fretenir suas vozes em defesa do povo esmagado.
Apesar de ameaças, perseguições e boicotes, o bispo tornava suas palavras, em homilias, pregações e discursos, cada vez mais candentes, dirigidas e corajosas, denunciando tudo o que era feito no país, como uma violação aos direitos do povo e à ética nacional. Dom Oscar Romero revestiu-se de uma coragem profética que faltou à maioria dos bispos da América, inclusive no Brasil, também dominado pelo tacão de uma ditadura militar, onde se destacou o destemor de Dom Helder, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom José Maria Pires e poucos outros que tiveram coragem de dizer que aquilo (prisões, cassações, expurgos, tortura e mortes) era um crime, contrário ao projeto de Deus.
Depois da morte de seu ajudante, o jesuíta Rutillo Grande Garcia († 1977), Romero passou a acusar frontalmente os poderes, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os de todos os males ocorrentes no país. Ora, depois dessa atitude de afronta ao poder político-econômica que se julgava dono de El Salvador, os dias do pastor estavam contados.
O padre Rutillo (pronuncia-se Rutílio) fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. Numa homilia proferida a 13 de Fevereiro de 1977 (ele seria assassinado trinta dias depois), ele bradou: "A Eucaristia que estamos celebrando hoje, alimenta este nosso ideal de uma mesa comum para todos, com um lugar para cada um e Cristo no meio". A 12 de Março seguinte, quando se dirigia para a sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do padre Rutillo e a sua morte que o convenceram a colocar-se decididamente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.
Um grupo de bispos latinoamericanos, em março de 1980, na cerimônia dos funerais de dom Romero, assinou um documento que dizia: "Três coisas admiramos e agradecemos no episcopado de dom Oscar Romero: foi, em primeiro lugar, anunciador da fé e mestre da verdade [...]. Foi, em segundo lugar, um resoluto defensor da justiça [...]. Em terceiro lugar, foi o amigo, o irmão, o defensor dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos operários, dos que vivem nos bairros marginalizados".
A história da vida, trabalho e martírio de Oscar Arnulfo Romero Galdámez hoje faz parte da caminhada da Igreja da América Latina, de seu martirológio e dos atos da missão cristã no Continente.
El Salvador é o menor país da América Central, com apenas 21 mil quilômetros quadrados e um PIB insignificante, a renda per capita é de US$ 1.045/ano, uma das piores qualidades de vida da América Latina. Mais de 90% da população, de cerca de seis milhões de habitantes, é constituída de mestiços.
Em 12 de maio de 1994 a Arquidiocese de San Salvador pediu permissão ao Vaticano para iniciar o processo de canonização de Dom Oscar Romero. O processo diocesano foi concluído em 1995 e enviado à Congregação para a Causa dos Santos em 1997, no Vaticano, que em 2000 o transferiu à Congregação para a Doutrina da Fé (então dirigida pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI) para que analisasse os escritos e homilias de Dom Oscar Romero. Terminado a análise, em 2005, o postulador da causa de canonização, Dom Vicenzo Paglia, informou aos meios de comunicação as conclusões do estudo: "Romero não era um bispo revolucionário, mas um homem da Igreja, do Evangelho e dos pobres". O processo seguirá novos trâmites burocráticos, que poderão elevar oficialmente Oscar Arnulfo Romero à honra dos altares como o primeiro santo e mártir de El Salvador.
Enquanto o processo de canonização segue em passos de tartaruga em Roma, para a indignação de muitos cristãos, o povo salvadorenho, da América Central e de todo Mundo já considera Romero um santo, mártir e profeta das Américas e do Mundo. Ao seu túmulo, sob a catedral de San Salvador, acorre diariamente muita gente peregrina agradecendo a ele graças recebidas e buscando forças e inspiração para seguir sendo discípulo dele na luta por justiça e paz.
PAULO DE OLIVEIRA (PAULINHO)Dieretor Social da UNESER
É uma hipocrisia o Vaticano declarar D.Romero um mártir... pois o próprio Vaticano lhe virou as costas antes de sua morte. D.Romero, ameaçado pelo militares, foi a Roma pedir ajuda. Reação do papa: frieza, descaso....
ResponderExcluirEm um contraste violento, o primaz croata D.Stepinac foi beatificado e declarado mártir.
ResponderExcluirLogo Stepinac, que teve um paSSado sombrio.
Querido Fratello Paulinho,lindo e merecido texto...que estes santos se multipliquem na Terra...Stefano,confrade,não se apoquente tanto
ResponderExcluiros homens que se apequenam na Igreja passam mas a Igreja Santa-com seus santos-ficam...
Que Dom Oscar Romero olhe por nós todos e
pela nossa América Latina tão sofrida,ajthozzi@uol.com.br