GENTILEZA DEMAIS
Pe. João tivera um domingo puxado. Estava cansado. Após a janta, conversou um pouco com a mãe e foi para o quarto. Não demorou cinco minutos, quando alguém o chamou:
— Seu Vigário, meu velho pai está passando mal. Acho que não amanhece vivo. Sei que o senhor está cansado, mas...
— Onde ele mora?
— No Taquaral, a três léguas daqui. Eu já trouxe um animal para o senhor.
O padre mandou o sertanejo entrar e esperar alguns minutos. Pouco depois eles saíam, varando o escuro da noite sem lua. Atendeu o velho, conversou um pouco, tomou um café e pegou o caminho de volta. Era mais de meia-noite. Estava quase chegando, quando percebeu um vulto bem atrás de si. Suspeitou que esse vulto o acompanhava há muito tempo. Teve uma leve desconfiança do que poderia ser, mas desviou o pensamento e abriu a porta da casa paroquial. Nisto aproxima-se às pressas o misterioso cavaleiro:
— Padre vigário, desculpe incomodá-lo. Vim pedir-lhe para visitar uma velhinha, quase agonizando.
— Onde é, meu amigo?
— Lá no Taquaral.
— Eu acabo de chegar agorinha de lá! Por que você não aproveitou?
— Ah! seu padre, eu bem que fiquei sabendo. Mas eu queria dar-lhe o prazer de tomar café com pão em minha casa. Por isso vim convidá-lo e, ao mesmo tempo, comprar pão fresco na padaria para levar.
Eram quase 6 horas da manhã. O padre reuniu todas as reservas de paciência que acumulou durante seus trinta anos de paroquiato, para não dar uma resposta daquelas ao bom roceiro. O jeito foi montar de novo no paciente "castanho" e refazer as seis léguas, ida e volta.

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