HOJE É ANIVERSÁRIO DO PADRE LAURO PALÚ.
PARA QUEM NÃO O CONHECE, SEGUE CÓPIA DE UMA ENTREVISTA CONCEDIDA POR ELE EM 2001.
No dia 11 de dezembro de 2001, Photosynthesis foi conversar com o Padre Lauro Palú, diretor do Colégio São Vicente de Paulo. Lauro Palú, além de Padre, é poeta e fotógrafo. Morou doze anos em Roma, fez palestras e conferências pelo mundo. Possuidor de uma cultura vastíssima, Padre LAURO, como é chamado pelos alunos, é daquelas pessoas com quem você gostaria que os relógios parassem para que a conversa não tivesse a mínima pressa. Pudemos constatar também que ele é uma pessoa querida pelos alunos. Nosso bate-papo foi interrompido algumas vêzes por crianças levando um carinho, às vêzes um cartão pelo aniversário dele.
Nessa pequena entrevista, ele Lauro nos fala um pouco sobre sua trajetória e sua relação com a fotografia
PHOTOSYNTESIS. Pe. Lauro, inicialmente gostaríamos que o senhor contasse um pouco da sua história. Onde nasceu, estudou, sua idade e como surgiu o gosto pela fotografia.
Padre LAURO. 62 anos hoje, ontem 61. Nasci em Rebouças, cidade de colonização alemã e polonesa no sul do Paraná. Estudei com os Maristas em Curitiba, terminei o ginásio no Seminário do Caraça, em Minas Gerais, onde também completei o ensino médio. Depois, vim para Petrópolis onde fiz meu Noviciato, estudei Filosofia e Teologia.
PHOTOSYNTESIS. E o gosto pela fotografia?
Padre LAURO. Além de abrigar a Congregação dos Padres Lazaristas, o Caraça é patrimônio histórico e reserva biológica, hoje uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Alguns dos Padres professores fotografavam muito. O gosto pela fotografia começou lá. Fotografei a princípio p/b com uma Yashica 6x6. Depois, passei a usar uma Fujica e a fotografar com cromo. Arrependi-me, pois perdi muito material por falta de tratamento e armazenamento adequados. Do meu pai, que desenhava muito bem, herdei o gosto pelo estudo das estruturas das plantas, fato que pode ser visto na exposição.
PHOTOSYNTESIS. Sua principal influência então foi o seu pai?
Padre LAURO. Quando consegui minha primeira máquina, tentei reproduzir o que os outros faziam. Depois, observei que havia uma ligação muito forte com a poesia japonesa.
PHOTOSYNTESIS. O hai-kai?
Padre LAURO. Exatamente. Pureza, delicadeza, beleza. Guilherme de Almeida, poeta e jornalista, tinha uma definição brilhante do hai-kai: "Notação poética de um instante de exceção." Sou encantado pela caligrafia japonesa. Chego a chamá-la de desenho. Sem dúvida, a minha maior influência na fotografia é a poesia japonesa. Bashô, considerado o mestre do hai-kai tem um poema que diz: "O velho lago ... / O ruído do salto / Da rã na água." Um outro, de Buson, diz: "Sobre o sino, / Repousa e dorme / A borboleta." Há uma economia, uma simplicidade de informação que para muitos parece não fazer sentido. Os ocidentais, de maneira geral, não são suficientemente espiritualizados (dizem os japoneses) para compreender a grandeza contida nesses pequenos versos. Esta simplicidade, este momento de exceção, também está presente na fotografia.
Eu me deixo surpreender muito. Eu vejo fotograficamente, mas não apenas fotograficamente. Quero captar tanto o mínimo fragmento quanto a totalidade.
foto: Flávio Rodrigues
PHOTOSYNTESIS. O senhor é uma pessoa considerada como um expoente em sua congregação?
Padre LAURO. (... breve silêncio) Eu não tenho vaidade daquilo que sei, daquilo que sou, porque sei quanto me custou adquiri-lo. Cheguei ao Rio de Janeiro há vinte anos sem saber nada sobre colégio, o que era um SOP, um SOE... e foram seis anos e meio me preparando, durante os quais fiz pedagogia e administração escolar na Universidade Santa Úrsula. Em seguida fui para Roma e vivi lá doze anos como Assistente Geral da minha Congregação, tempo suficiente para esquecer tudo, mas voltei muito enriquecido culturalmente.
PHOTOSYNTESIS. E fotografou muito durante o tempo que esteve fora?
Padre LAURO. Não muito, mas fotografei. A primavera em Roma por exemplo é belíssima.
PHOTOSYNTESIS. Mas como o senhor sente a repercussão dessa sua vivência nas pessoas à sua volta?
Padre LAURO. Tenho um gosto particular pela vida intelectual, embora alguns achem que seja uma cultura inútil. No Seminário, estudei grego, latim, hebraico, francês, inglês e muito português. Em Roma, aprendi italiano e espanhol. E, para ler suas literaturas no original, estudei catalão, provençal, galego e o romanesco. Gostaria de ter aprendido japonês, por causa da poesia, e alemão por causa da literatura em geral. Meus estudos de Filosofia da Arte e História da Arte também me ajudaram muito quanto à composição das fotos.
PHOTOSYNTESIS. Voltando um pouco ao São Vicente e a sua exposição... Qual o seu objetivo?
Padre LAURO. Rotina/Retina (ou o que ver no São Vicente) - é didática. Meu objetivo é A exposição - fazer com que os alunos vejam o colégio de uma outra forma. Suas geometrias, suas cores, seus corredores, as flores... Alguns já pediram para "ensinar" a fazer fotos daquele jeito. Tenho recebido retorno de pais de alunos e professores. Uma professora pediu cópia de uma das fotos para usar na aula de geometria. Isso é gratificante. Na verdade, faço parte de um conjunto de educadores que trabalham nesse sentido, como os professores de artes. Acredito que, com a educação pela arte, pela música, pelo teatro, pode-se promover a transformação social. Fotografar é como tocar violão clássico. Como diretor do colégio, com o digital, percebi que aos poucos se formou um acervo. Quero motivar os alunos a gostar do colégio. Os professores estão valorizando. Os alunos que foram em excursão ao Caraça, também fotografaram muito e bonito.
PHOTOSYNTESIS. Qual é a linha filosófica do São Vicente?
Padre LAURO. A linha filosófica é muito boa. Seguimos há quase 40 anos a Educação Libertadora de Paulo Freire. Gosto muito de meu trabalho. Não vivo apenas contente, estou verdadeiramente feliz.
PHOTOSYNTESIS. O São Vicente então deve ter tido uma atuação política importante durante a repressão...
Padre LAURO. (... leve sorriso e olhar pensativo) Vamos pular essa? (risos)
PHOTOSYNTESIS. Pular por quê?
Padre LAURO. Vocês são jornalistas, devem saber melhor do que eu... leiam o livro Diálogo nas Trevas, está tudo lá. Vocês lembram da famosa procissão-passeata de 1968? Os Padres do São Vicente estavam à frente. Havia um cartunista de Porto ALegre, o Sampaulo, que publicou uma charge ótima à época. Os Padres na frente, carregando estandartes com foices e martelos. Apenas um deles trazia uma cruz. Sampaulo o identificou como "infiltrado". (Todos riem)
PHOTOSYNTESIS. O São Vicente segue a linha da Teologia da Libertação do Leonardo Boff?
Padre LAURO. Na verdade, a Teologia da Libertação é que tem muito de Paulo Freire. Manter o professorado nesse nível é que é muito difícil. Há tempos em que estão mais mobilizados, outros menos. A mobilização é diretamente proporcional à pressão externa. O Pasquim foi bem no tempo da repressão. Não sei se conseguirão reativá-lo agora.
PHOTOSYNTESIS. As escolas devem formar não apenas alunos, mas cidadãos...
Padre LAURO. Este é o nosso grande desafio. Fernando Collor estudou aqui durante um ano. Cursou apenas a primeira série do ensino fundamental. Acho que não teve tempo de aprender grande coisa conosco... Aécio Neves estudou no São Vicente a última série do ensino médio. Vocês vêem a influência que um bom Colégio pode ter na sociedade. O São Vicente não quer apenas preparar para o vestibular; quer formar pessoas capazes, humanas, com consciência política. Eu reclamo muito do mundo com essa meninada. O gosto pela antropologia me fez ter respeito pelas diferenças, pelos diferentes. Quero passar isso aos alunos. E não deixo de levar a todos, sistematicamente, mensagens de esperança.
O Betinho esteve aqui para uma palestra e se emocionou com a atitude dos alunos que formaram o Comitê Graúna de Ação da Cidadania. O nome do comitê foi uma homenagem ao cartunista Henfil, irmão de Betinho. Ziraldo, Henfil, Fortuna, Claudius e muitos outros, são nomes conhecidos no São Vicente, colégio onde estudaram seus filhos e um sobrinho (no caso do Juarez Machado)
PHOTOSYNTESIS. Muito obrigado pela ótima conversa, Pe. Lauro.
Padre LAURO. Eu é que agradeço.
Fonte: site da Photosyntesis


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