Por Percival Tirapeli
Quando as portas de vidro do Salão Barroco do Palácio do Governo de São Paulo abriram-se, o papa adentrou a exposição Gênese da Fé no Novo Mundo.
A manhã era ensolarada e pontuada por protocolos oficiais tanto do
Brasil como do Vaticano. As portas foram abertas pelos seguranças da
famosa Guarda Suíça, privativa do papa. Abertura solene. Naquele momento
quem deveria receber o papa, se ele fosse à exposição, seria eu. Uma
grande montagem fotográfica recobria toda a porta de vidro e parte da
parede do imponente salão. Era a reprodução do altar maneirista da
Fazenda Voturuna, das mais importantes obras sacras brasileiras cuja
foto utilizara na capa do meu livro Igrejas Paulistas. Mal podia
acreditar que do nicho do altar símbolo da arte brasileira surgiria um
dia o papa em minha direção. Contive a emoção, pois deveria cumprir a
missão de mostrar para Sua Santidade as mais antigas obras de arte sacra
do Brasil.
Caminhei em sua direção. Não o perdi um instante, na altura de meus
olhos o papa crescia como em uma visão, aproximando-se daquela
realidade que eu pensara que poderia acontecer. E aconteceu. Beijei o
anel do sucessor de São Pedro e logo senti sua mão com um gesto leve que
me erguia.
- Obrigado, Sua Santidade, por ter vindo admirar nossas mais antigas obras de arte sacra do Brasil!
O encontro enfim tinha sido levado pelas circunstâncias, desde que comecei a preparar a exposição Arte Sacra – Gênese da Fé no Novo Mundo,
a convite da curadora do Acervo Artístico dos Palácios do Governo, Ana
Cristina Carvalho. Foram meses de pesquisa, de escrita de um
livro/catálogo e da versão em inglês ( com resumos também em francês,
espanhol, italiano) que foi entregue a toda imprensa internacional que
acompanhou a visita papal ao Palácio dos Bandeirantes do Governo de São
Paulo. Naquele dia, para todos os efeitos, a sede do governo paulista
assumia a função de palácio presidencial.
Na visita de Bento XVI, desde o início previa-se que apenas as
comitivas visitariam a exposição, não seus dirigentes, que estariam
muito ocupados. A primeira visita foi da embaixatriz brasileira no
Vaticano, Vera Lucia Machado. Seguiram-se ministros; dos mais atentos,
Hélio Costa, das Comunicações, e logo o então presidente Lula e o
governador José Serra - conforme o protocolo presidencial. Retiram-se e
entraram os núncios apostólicos e bispos de toda América Latina – mais
de 50!
Enquanto eu recebia as comitivas na exposição, naquele momento o
presidente Lula e Bento XVI encontravam-se no Salão de Despachos, um
andar acima. Eu já tinha, portanto, cumprido minha tarefa de recepcionar
o presidente, o governador e as primeiras damas. Já estava quase
conformado com o papel de receber apenas os políticos e autoridades
eclesiásticas. Durante meses, naquele mesmo local, eu, ali sozinho,
analisando os santos barrocos, tivera a certeza de que - mesmo sem estar
previsto no protocolo - o papa viria visitar a exposição que organizei
com tanto carinho para ele.
O papa deveria ficar em audiência particular com Lula e sua
família, por meia hora. Mas ficou apenas quinze minutos. A chefe do
cerimonial do Palácio dos Bandeirantes, Cláudia Matarazzo, não teve
dúvidas em sugerir a ele que visitasse a exposição. O papa prontamente
aceitou. No protocolo o papa teria apenas mais quinze minutos no Palácio
dos Bandeirantes. Mesmo assim decidiu adentrar a mostra.
Seguranças por todos os lados. Parecia cena do filme Cidade dos Anjos,
com um guarda em cada janela, fresta e portas, prontos a barrar mesmo
aquelas pessoas que tinham credenciais. E eu que nem era funcionário do
Palácio, mas que fora convidado para fazer a curadoria da exposição,
tive uma credencial específica para recepcionar as autoridades políticas
e eclesiásticas, mas apenas naquele andar da exposição.
Sapatos novos, terno novo e barba cortada como promessa, pois tinha
certeza de que encontraria o papa. De repente veio o comunicado que Sua
Santidade visitaria a exposição e eu deveria guiá-lo na sequência das
obras. Lá estava eu, paulista de Nhandeara, ao lado de Bento XVI, homem
sábio, dos maiores teólogos da Igreja, amante da música de Mozart,
conhecedor das obras sacras barrocas e rococós, em especial da Baviera, e
crítico da arte de Michelangelo Buonarotti, pois escrevera, a pedido de
João Paulo II, sobre a nudez na obra Juízo Final e Criação do Homem da Capela Sistina.
A primeira obra a ser vista no Palácio foi Nossa Senhora de Monteserrate
de frei Agostinho de Jesus, de 1630 e logo seu olhos azuis
levantaram-se para um par de anjos tocheiros do português Vieira Servas.
Certamente a primeira obra rococó brasileira que contemplou em sua
vida. Seguiu para um belíssimo oratório rococó português, encimado por
uma custódia de prata. Foi então que ele olhou para mim e sorriu. Estava
satisfeito em estar ali. Sempre a dois palmos de distância, como manda o
protocolo, pedi que viesse admirar desde a tribuna, uma pia batismal em
granito na qual os jesuítas tinham batizado nos idos de 1554, os
primeiros tupinambás de Abarebebê (Peruíbe). Pude então contar a ele,
baixinho em seu ouvido, em italiano, que a exposição continha as mais
antigas obras de arte sacras do Brasil. Só então é que senti que
realmente estava conduzindo Sua Santidade pelo mundo da arte brasileira
que por ele era desconhecido, mas que pelos gestos e olhares, entendi
que compreendia e se emocionava ao ver as mais antigas obras sacras do
Brasil. Um amigo italiano, Adone Agnolin, preparara uma versão em
italiano sobre as principais peças, então pude falar em italiano com
ele, se bem que ele entende português.
Pensei que estivesse já em meus últimos minutos quando mostrei a
ele a verga em pedra, da porta da antiga igreja de São Vicente, de 1559.
Ao contemplar o cruzeiro que Martim Afonso de Sousa implantara na Ilha
de Santo Amaro em 1532, senti sua reverência ante aquele símbolo cristão
que implantava o cristianismo na América Lusa. Não parava por aí.
Mostrei parte do mais antigo altar de uma igreja brasileira: eram os Fragmentos Vicentinos, e a réplica da mais antiga escultura sacra brasileira, uma Imaculada Conceição de 1560.
A Guarda Suíça já se mostrava impaciente. Os quinze minutos já
tinham corrido, e bastante. Lula e Serra estavam entusiasmados com o
interesse do papa. Quando o chefe dos seguranças fez um sinal que
deveria terminar, me aproximei mais de Sua Santidade e disse e ele que o
santo Antônio Galvão que ele viera beatificar no Brasil era um artista,
patrono dos arquitetos brasileiros e que tínhamos fotos das igrejas que
ele construíra.
- Andiamo vedere! (Vamos ver então), disse ele com interesse.
Dirigimos-nos para outra saída, coisa que também quebrava o
protocolo. Os guardas não sabiam o que fazer. Senti que o papa e eu
começávamos a falar a mesma linguagem da arte, em comunhão espontânea.
Olhou atentamente os seis painéis das igrejas da Ordem Terceira de São
Francisco e o do Convento da Luz. Sem dúvida uma afinidade entre sua
vivência artística, aliada a sua autoridade hierárquica em santificar um
arquiteto. Sabia eu de antemão que o papa apenas passaria diante do
Convento da Luz, obra de frei Galvão e que não veria a igreja dos
terceiros franciscanos. Daí então tínhamos ampliado fotos de todas sua
igrejas por ele construídas.
Sem dúvida a visita estava acabando. Passara-se mais de meia hora. A
pergunta era quem era aquele que estava tirando o papa de seus
protocolos? A comitiva brasileira estava radiante. Afinal, o papa estava
no Palácio dos Bandeirantes para um encontro com o presidente do Brasil
e não para uma visita a uma exposição de arte...
Quando tudo parecia terminado, aproximei-me mais um pouco e disse – Sua Santidade, preparamos mais uma sala surpreendente.
Mais uma sala abriu-se, as imprensas do Vaticano e do Palácio
estavam atentas. O papa soltou suas mãos, ergueu os braços levemente e
exclamou, em italiano:
- Como no sacro trono de Bernini, na Basílica de São Pedro no Vaticano!
(Esta obra fica na abside da basílica do Vaticano na parte
posterior, por detrás do baldaquino de Bernini, obra máxima do barroco
italiano)
Senti que não precisava de mais nada. Sua Santidade abençoou a
magnífica escultura de São Pedro Papa, no trono. Arte portuguesa
pertencente à antiga igreja de São Pedro dos Clérigos, de São Paulo,
agora depositada e exposta no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Um digno
altar, com anjos tocheiros e candelabros de prata, ampliava a imagem de
São Pedro entronado como chefe da Igreja. A escultura em tamanho mais
que o natural impressionara Bento XVI, amante das artes e representante
de Pedro na terra. Eu nada mais tinha que fazer ali, a não ser agradecer
e ainda pedir a ele que abençoasse uma imagem facsímile da Virgem de
Aparecida, que nos fora dada pessoalmente para a exposição por Dom
Damasceno, Bispo de Aparecida.
O papa e eu permanecemos irmanados pela arte sacra brasileira
durante mais de meia hora. Um tempo infinito para mim. Pedi sua bênção.
Entendi que ali terminara minha missão, fascinante, de ter conduzido Sua
Santidade pelas mais antigas obras sacras brasileiras que alimentaram a
fé católica no Novo Mundo. Fiquei sozinho olhando para o papa
esculpido, o São Pedro entronado, enquanto ele, o representante de
Pedro, com toda sua grandeza, desaparecia com seus passos leves entre os
ternos escuros dos políticos.
Percival Tirapeli
É professor doutor e titular em História da Arte Brasileira na
Unesp, campus de São Paulo, artista plástico, curador de exposições e
autor de 18 livros sobre arte brasileira. Concebeu e realizou a
exposição de arte sacra brasileira especialmente para a visita de Bento
XVI ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, em 10 de maio
de 2007, organizada pelo Acervo Artístico dos Palácios do Governo.
Nasceu em Nhandeara em 1952 e estudou no Seminário de Santo Afonso em
Aparecida, de 1964 a 1971. Para ver fotos da exposição acesse http://www.tirapeli.pro.br/atuacoes/curadoriagenese.htm


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