CONSAGRAÇÃO À NOSSA SENHORA APARECIDA NA VOZ DO PADRE VITOR COELHO CSsR

Ó MARIA SANTÍSSIMA, PELOS MÉRITOS DO SENHOR JESUS CRISTO QUE EM VOSSA IMAGEM MILAGROSA DE APARECIDA ESPALHAIS INÚMEROS BENEFÍCIOS SOBRE O BRASIL, EU, EMBORA INDIGNO DE PERTENCER AO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS, MAS DESEJANDO PARTICIPAR DOS BENEFÍCIOS DA VOSSA MISERICÓRDIA, PROSTRADO A VOSSOS PÉS, CONSAGRO-VOS O ENTENDIMENTO, PARA QUE SEMPRE PENSE NO AMOR QUE MERECEIS. CONSAGRO-VOS A LÍNGUA, PARA QUE SEMPRE VOS LOUVE E PROPAGUE A VOSSA DEVOÇÃO.CONSAGRO-VOS O CORAÇÃO, PARA QUE, DEPOIS DE DEUS, VOS AME SOBRE TODAS AS COUSAS.RECEBEI-NOS, Ó RAINHA INCOMPARÁVEL, QUE NOSSO CRISTO CRUCIFICADO DEU-NOS POR MÃE, NO DITOSO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS. ACOLHEI-NOS DEBAIXO DA VOSSA PROTEÇÃO. SOCORREI-NOS EM NOSSAS NECESSIDADES ESPIRITUAIS E TEMPORAIS E, SOBRETUDO, NA HORA DA NOSSA MORTE. ABENÇOAI-NOS Ó MÃE CELESTIAL, E COM VOSSA PODEROSA INTERCESSÃO FORTALECEI-NOS EM NOSSA FRAQUEZA, A FIM DE QUE, SERVINDO-VOS FIELMENTE NESTA VIDA, POSSAMOS LOUVAR-VOS, AMAR-VOS E RENDER-VOS GRAÇAS NO CÉU, POR TODA A ETERNIDADE. ASSIM SEJA! ...PELA INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA APARECIDA, RAINHA E PADROEIRA DO BRASIL, A BÊNÇÃO DE DEUS ONIPOTENTE, PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO, DESÇA SOBRE VÓS E PERMANEÇA SEMPRE.AMÉM!

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13 de fevereiro de 2013

Manhã memorável com o Papa Bento XVI

Por Percival Tirapeli
 
Quando as portas de vidro do Salão Barroco do Palácio do Governo de São Paulo abriram-se, o papa adentrou a exposição Gênese da Fé no Novo Mundo. A manhã era ensolarada e pontuada por protocolos oficiais tanto do Brasil como do Vaticano. As portas foram abertas pelos seguranças da famosa Guarda Suíça, privativa do papa. Abertura solene. Naquele momento quem deveria receber o papa, se ele fosse à exposição, seria eu. Uma grande montagem fotográfica recobria toda a porta de vidro e parte da parede do imponente salão. Era a reprodução do altar maneirista da Fazenda Voturuna, das mais importantes obras sacras brasileiras cuja foto utilizara na capa do meu livro Igrejas Paulistas. Mal podia acreditar que do nicho do altar símbolo da arte brasileira surgiria um dia o papa em minha direção. Contive a emoção, pois deveria cumprir a missão de mostrar para Sua Santidade as mais antigas obras de arte sacra do Brasil.
Caminhei em sua direção. Não o perdi um instante, na altura de meus olhos o papa crescia como em uma visão, aproximando-se daquela realidade que eu pensara que poderia acontecer. E aconteceu. Beijei o anel do sucessor de São Pedro e logo senti sua mão com um gesto leve que me erguia.
- Obrigado, Sua Santidade, por ter vindo admirar nossas mais antigas obras de arte sacra do Brasil!
 
O encontro enfim tinha sido levado pelas circunstâncias, desde que comecei a preparar a exposição Arte Sacra – Gênese da Fé no Novo Mundo, a convite da curadora do Acervo Artístico dos Palácios do Governo, Ana Cristina Carvalho. Foram meses de pesquisa, de escrita de um livro/catálogo e da versão em inglês ( com resumos também em francês, espanhol, italiano)  que foi entregue a toda imprensa internacional que acompanhou a visita papal ao Palácio dos Bandeirantes do Governo de São Paulo.  Naquele dia, para todos os efeitos, a sede do governo paulista assumia a função de palácio presidencial.
Na visita de Bento XVI, desde o início previa-se que apenas as comitivas visitariam a exposição, não seus dirigentes, que estariam muito ocupados. A primeira visita foi da embaixatriz brasileira no Vaticano, Vera Lucia Machado. Seguiram-se ministros; dos mais atentos, Hélio Costa, das Comunicações, e logo o então presidente Lula e o governador José Serra - conforme o protocolo presidencial. Retiram-se e entraram os núncios apostólicos e bispos de toda América Latina – mais de 50!
Enquanto eu recebia as comitivas na exposição, naquele momento o presidente Lula e Bento XVI encontravam-se no Salão de Despachos, um andar acima. Eu já tinha, portanto, cumprido minha tarefa de recepcionar o presidente, o governador e as primeiras damas. Já estava quase conformado com o papel de receber apenas os políticos e autoridades eclesiásticas. Durante meses, naquele mesmo local, eu, ali sozinho, analisando os santos barrocos, tivera a certeza de que - mesmo sem estar previsto no protocolo - o papa viria visitar a exposição que organizei com tanto carinho para ele.
O papa deveria ficar em audiência particular com Lula e sua família, por meia hora. Mas ficou apenas quinze minutos. A chefe do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes, Cláudia Matarazzo, não teve dúvidas em sugerir a ele que visitasse a exposição. O papa prontamente aceitou. No protocolo o papa teria apenas mais quinze minutos no Palácio dos Bandeirantes. Mesmo assim decidiu adentrar a mostra.
Seguranças por todos os lados. Parecia cena do filme Cidade dos Anjos, com um guarda em cada janela, fresta e portas, prontos a barrar mesmo aquelas pessoas que tinham credenciais. E eu que nem era funcionário do Palácio, mas que fora convidado para fazer a curadoria da exposição, tive uma credencial específica para recepcionar as autoridades políticas e eclesiásticas, mas apenas naquele andar da exposição.
Sapatos novos, terno novo e barba cortada como promessa, pois tinha certeza de que encontraria o papa. De repente veio o comunicado que Sua Santidade visitaria a exposição e eu deveria guiá-lo na sequência das obras. Lá estava eu, paulista de Nhandeara, ao lado de Bento XVI, homem sábio, dos maiores teólogos da Igreja, amante da música de Mozart, conhecedor das obras sacras barrocas e rococós, em especial da Baviera, e crítico da arte de Michelangelo Buonarotti, pois escrevera, a pedido de João Paulo II, sobre a nudez na obra Juízo Final e Criação do Homem da Capela Sistina.
A primeira obra a ser vista no Palácio foi Nossa Senhora de Monteserrate de frei Agostinho de Jesus, de 1630 e logo seu olhos azuis levantaram-se para um par de anjos tocheiros do português Vieira Servas. Certamente a primeira obra rococó brasileira que contemplou em sua vida. Seguiu para um belíssimo oratório rococó português, encimado por uma custódia de prata. Foi então que ele olhou para mim e sorriu. Estava satisfeito em estar ali. Sempre a dois palmos de distância, como manda o protocolo, pedi que viesse admirar desde a tribuna, uma pia batismal em granito na qual os jesuítas tinham batizado nos idos de 1554, os primeiros tupinambás de Abarebebê (Peruíbe). Pude então contar a ele, baixinho em seu ouvido, em italiano, que a exposição continha as mais antigas obras de arte sacras do Brasil. Só então é que senti que realmente estava conduzindo Sua Santidade pelo mundo da arte brasileira que por ele era desconhecido, mas que pelos gestos e olhares, entendi que compreendia e se emocionava ao ver as mais antigas obras sacras do Brasil. Um amigo italiano, Adone Agnolin, preparara uma versão em italiano sobre as principais peças, então pude falar em italiano com ele, se bem que ele entende português.
Pensei que estivesse já em meus últimos minutos quando mostrei a ele a verga em pedra, da porta da antiga igreja de São Vicente, de 1559. Ao contemplar o cruzeiro que Martim Afonso de Sousa implantara na Ilha de Santo Amaro em 1532, senti sua reverência ante aquele símbolo cristão que implantava o cristianismo na América Lusa. Não parava por aí. Mostrei parte do mais antigo altar de uma igreja brasileira: eram os Fragmentos Vicentinos, e a réplica da mais antiga escultura sacra brasileira, uma Imaculada Conceição de 1560.
A Guarda Suíça já se mostrava impaciente. Os quinze minutos já tinham corrido, e bastante. Lula e Serra estavam entusiasmados com o interesse do papa. Quando o chefe dos seguranças fez um sinal que deveria terminar, me aproximei mais de Sua Santidade e disse e ele que o santo Antônio Galvão que ele viera beatificar no Brasil era um artista, patrono dos arquitetos brasileiros e que tínhamos fotos das igrejas que ele construíra.
Andiamo vedere!  (Vamos ver então), disse ele com interesse. 
 
Dirigimos-nos para outra saída, coisa que também quebrava o protocolo. Os guardas não sabiam o que fazer. Senti que o papa e eu começávamos a falar a mesma linguagem da arte, em comunhão espontânea. Olhou atentamente os seis painéis das igrejas da Ordem Terceira de São Francisco e o do Convento da Luz. Sem dúvida uma afinidade entre sua vivência artística, aliada a sua autoridade hierárquica em santificar um arquiteto. Sabia eu de antemão que o papa apenas passaria diante do Convento da Luz, obra de frei Galvão e que não veria a igreja dos terceiros franciscanos. Daí então tínhamos ampliado fotos de todas sua igrejas por ele construídas.
Sem dúvida a visita estava acabando. Passara-se mais de meia hora. A pergunta era quem era aquele que estava tirando o papa de seus protocolos? A comitiva brasileira estava radiante. Afinal, o papa estava no Palácio dos Bandeirantes para um encontro com o presidente do Brasil e não para uma visita a uma exposição de arte...
 Quando tudo parecia terminado, aproximei-me mais um pouco e disse – Sua Santidade, preparamos mais uma sala surpreendente.
Mais uma sala abriu-se, as imprensas do Vaticano e do Palácio estavam atentas. O papa soltou suas mãos, ergueu os braços levemente e exclamou, em italiano:
- Como no sacro trono de Bernini, na Basílica de São Pedro no Vaticano!
(Esta obra fica na abside da basílica do Vaticano na parte posterior, por detrás do baldaquino de Bernini, obra máxima do barroco italiano)
Senti que não precisava de mais nada. Sua Santidade abençoou a magnífica escultura de São Pedro Papa, no trono. Arte portuguesa pertencente à antiga igreja de São Pedro dos Clérigos, de São Paulo, agora depositada e exposta no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Um digno altar, com anjos tocheiros e candelabros de prata, ampliava a imagem de São Pedro entronado como chefe da Igreja. A escultura em tamanho mais que o natural impressionara Bento XVI, amante das artes e representante de Pedro na terra. Eu nada mais tinha que fazer ali, a não ser agradecer e ainda pedir a ele que abençoasse uma imagem facsímile da Virgem de Aparecida, que nos fora dada pessoalmente para a exposição por Dom Damasceno, Bispo de Aparecida.
O papa e eu permanecemos irmanados pela arte sacra brasileira durante mais de meia hora. Um tempo infinito para mim. Pedi sua bênção. Entendi que ali terminara minha missão, fascinante, de ter conduzido Sua Santidade pelas mais antigas obras sacras brasileiras que alimentaram a fé católica no Novo Mundo. Fiquei sozinho olhando para o papa esculpido, o São Pedro entronado, enquanto ele, o representante de Pedro, com toda sua grandeza, desaparecia com seus passos leves entre os ternos escuros dos políticos.
 
Percival Tirapeli
É professor doutor e titular em História da Arte Brasileira na Unesp, campus de São Paulo, artista plástico, curador de exposições e autor de 18 livros sobre arte brasileira. Concebeu e realizou a exposição de arte sacra brasileira especialmente para a visita de Bento XVI ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, em 10 de maio de 2007, organizada pelo Acervo Artístico dos Palácios do Governo. Nasceu em Nhandeara em 1952 e estudou no Seminário de Santo Afonso em Aparecida, de 1964 a 1971. Para ver fotos da exposição acesse http://www.tirapeli.pro.br/atuacoes/curadoriagenese.htm
 

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