COMUNIDADE DE COMUNIDADES: UMA NOVA PARÓQUIA (II)
Perspectiva Teológica
A
abordagem desta Ficha recai sobre o Capítulo 2: Perspectiva Teológica,
do Estudo 104 da CNBB - “Comunidade de Comunidades: Uma nova Paróquia”,
que apresenta as concepções teológicas sobre a comunidade e a paróquia. A
ideia principal é resgatar a noção eclesiológica da “Domus Eclesiae”
(Igreja Doméstica) dos tempos apostólicos, onde os cristãos se reuniam
para professar a fé, ouvindo e celebrando a Palavra, vivendo a caridade e
orando, a partir dos ensinamentos de Jesus.
1. A Igreja Doméstica: No
cristianismo nascente, os discípulos se reuniam nas casas daqueles que
os acolhiam para a partilha da palavra e fração do pão, formando as
primeiras comunidades cristãs. Paulo, em sua peregrinação no
Mediterrâneo, formou comunidades cristãs que ele designou de Igrejas
Domésticas. Não eram identificadas pelo prédio ‘igreja’ - como espaço
para o culto - tal qual hoje conhecemos, mas pela existência de grupos
de cristãos que viviam relações interpessoais da comunhão de fé.
2. O surgimento das paróquias:
Com a centralização das lideranças em Roma e o crescimento do número de
cristãos, a Igreja Doméstica foi sendo substituída por assembleias cada
vez mais numerosas e anônimas, que celebravam o culto em lugares
específicos para esta finalidade. O reconhecimento do cristianismo como
religião oficial, no século IV, fez com que a Diocese e o Bispo se
tornassem as principais referências eclesiais e responsáveis pela
expansão das comunidades dirigidas pelos Presbíteros, numa estrutura
organizacional muito semelhante a que conhecemos hoje como Paróquia.
Durante a Idade Média, predominaram as catedrais, as igrejas ligadas aos
mosteiros e as pequenas igrejas dos vilarejos nas quais aconteciam as
funções religiosas, e a missão se caracterizava, essencialmente, na
construção de novas igrejas para reunir os cristãos. O Concílio de
Trento (séc. XVI) determinou a ereção de novas Paróquias para atender ao
crescimento populacional, segundo o principio da territorialidade,
modelo que, substancialmente, ainda subsiste, e, no período que antecede
a era industrial, a Paróquia abarcava a sociedade local como comunidade
territorial, para atender as famílias. No Código de Direito Canônico
(CDC) de 1917, a Paróquia é definida como a menor circunscrição local,
pastoral e administrativa, porém, no novo
CDC (1983), ela é a comunidade de fiéis, constituída de maneira estável e confiada a um Pároco, como seu pastor.
3. A paróquia no Concilio Vaticano II:
Embora este Concílio não tenha produzido nenhum texto específico sobre
a Paróquia, ele traz uma importante colocação a partir da
Lumen Gentium,
sobre ‘A Igreja Particular’ que explicita o seguinte: “Esta Igreja de
Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades
locais de fiéis, que unidas com seus pastores, são também elas, no Novo
Testamento, chamadas de igrejas”.
A Igreja Particular se caracteriza como porção do Povo de Deus, e é
formada pela interligação das paróquias que a compõem, as quais são
consideradas ‘células da diocese’. No Brasil, como uma nova forma de
organização eclesial, surgiram pequenas comunidades ligadas a uma
determinada paróquia, as quais, entendidas no horizonte da comunhão,
todos os que nelas participam fazem a experiência de ser Igreja com
multiplicidade de dons, de carismas e de ministério, e possuem força
profética num mundo marcado pelo individualismo. Esta comunhão deve ser a
característica principal de todas as formas de organização da vida
eclesial. Quando se propõe uma nova paróquia como comunidade de
comunidades, mais do que criar novas estruturas, trata-se de recuperar
as relações interpessoais e de comunhão como meio de pertença eclesial.
Neste sentido, o Concílio Vaticano II aponta para três direções quanto
ao modelo vigente de Paróquia: a passagem do territorial para o
comunitário; do princípio único do pároco para uma comunidade toda
ministerial; e da dimensão cultual para a totalidade das dimensões da
comunhão e da missão da Igreja no mundo.
4. A Renovação paroquial na América Latina e no Caribe:
Na América Latina, desde Medellín, passando por Puebla e Santo Domingo,
o magistério confirmou a tradição paroquial, recomendando a sua
renovação: A paróquia não é território, nem estrutura, nem edifício, mas
é a família de Deus... que acolhe as angústias e esperanças, anima e
orienta a comunhão, a participação e a missão, como Igreja inserida na
sociedade e solidária com suas aspirações e dificuldades. Ela deve
evangelizar, celebrar, fomentar a promoção humana e fazer progredir a
inculturação da fé, e ser uma rede de comunidades. Aparecida destaca a
multiplicação das comunidades e intensificação da pastoral urbana, e
ressalta a contribuição das CEBs. Afirma que não há comunidade com
multidões anônimas na Paróquia, daí a necessidade dela se tornar
comunidade de comunidades, lugar privilegiado onde a maioria dos fiéis
tem uma experiência concreta de Cristo e da comunhão eclesial. As
comunidades paroquiais são casas e escolas de comunhão e devem ser um
todo orgânico que envolve os diversos aspectos da vida, pois como vimos
nas DGAE, as paróquias têm um importante papel na vivência da fé para a
maioria dos fiéis (Fichas:
46,
47,
48,
49,
50,
51).
5. A Paróquia como Casa:
Para propor a reflexão sobre a renovação da paróquia, como comunidade de
comunidades, o Estudo 104 resgata a imagem da ‘Igreja como Casa’, onde
as pessoas se encontram em comunidade, num ambiente de vida e aconchego
que garante o referencial para o cristão encontrar-se no lar e
prosseguir na estrada de Jesus, e com Ele se deter na casa dos amigos.
Hoje há uma situação de desamparo, falta de pertença e deserto
espiritual, que reclama uma casa de acolhida. Por isso, a necessidade da
Paróquia ser essa casa, onde se ouve a convocação para que todos sejam
um e vivam como irmãos na família de Deus. Esse é um desafio da Igreja,
de recuperar esta fraternidade das casas, pois relações que não formam
vínculos, não criam sentimento de pertença.
A Paróquia, como
Casa da Palavra
e do discípulo que a acolhe e pratica, é a Igreja que se define pelo
acolhimento do Verbo que colocou a sua tenda entre os homens. Porém, a
Palavra não deve estar presente apenas na Celebração Eucarística, mas em
todo o agir eclesial, principalmente, como fonte de conhecimento da
História da Salvação que precisa ser ensinada a todo povo de Deus.
Portanto, é na
Casa da Palavra que o estudo, a formação e a oração devem ocupar também lugar de destaque.
A Igreja, como
Casa do Pão,
atrai os que têm fome, e é o lugar onde os cristãos se nutrem com a
Eucaristia, estabelecem as novas relações que o Evangelho propõe. É
fonte da vocação e do seu impulso missionário que leva a Paróquia a
concretizar o seu compromisso social pela caridade. Deus fez a sua
morada entre os homens; nasceu em Belém, a “casa do pão”; peregrinou
pela Galileia e Judeia; providenciou a Palavra e o Alimento para os
cansados e abatidos. Assim, também, deve ser a Igreja, onde a comunidade
vive da Eucaristia que a une pelo Espírito Santo, em Cristo, para
chegar ao Pai.
A Igreja, como
Casa da caridade (ágape),
é onde na Palavra e na Eucaristia, o cristão vive o amor como ágape na
relação com Deus. A amizade é o paradigma de todo relacionamento de
Jesus com os discípulos, e de Deus com a humanidade. Diante do pecado,
Deus não se torna inimigo, mas se revela como o Deus-Conosco, o Emanuel,
que, em Jesus Cristo, se faz amigo e irmão. A Igreja é a comunidade
santa porque nela se vive o amor. Deus oferece aos homens, a filiação
adotiva em Cristo, chamando-os à santidade, que é a vida de união com
Ele, com os irmãos e as irmãs, e a criação. A amizade se refere ao amor e
torna-se expressão do ágape, o centro do amor cristão. Quando Deus
convoca a humanidade para derrubar as barreiras que impedem a
fraternidade, esta amizade, amor ágape, é traduzida em compaixão pelos
que sofrem.
6. A Paróquia Hoje: A
Paróquia é importante para a construção da identidade cristã, e é o
lugar onde o cristianismo se torna visível na cultura e na história. Ela
está desafiada a se renovar diante das aceleradas mudanças, inserindo a
revisão da ação pastoral de modo geral, em vista da urgência de uma
nova evangelização.
É preciso compreender duas noções de Paróquia: como casa de acolhida e
como comunidade que é lar dos cristãos onde se faz a experiência de
seguir Jesus. Como acolhimento, ela é o espaço para receber pessoas com
suas buscas e vivências, que pretendem seguir o caminho. E enquanto
espaço da comunidade, ela reúne esses cristãos em grupos comprometidos a
viverem o evangelho em comunidade, a partir da fé, em profunda comunhão
com Deus e entre si, numa verdadeira comunhão eclesial que encontra a
sua expressão mais imediata e visível na Paróquia. Embora, por vezes,
pobre em pessoas e em meios, e outras vezes dispersa em territórios
vastíssimos ou quase desaparecida no meio de bairros modernos, populosos
e caóticos, a Paróquia é, sobretudo, a família de Deus, o próprio
mistério da Igreja presente e operante nela.
Teologicamente, o fundamento da Paróquia é ser uma comunidade
eucarística que celebra a presença de Cristo, Palavra e Eucaristia,
estabelecendo os vínculos de comunhão entre os seus fiéis, e remete
todos à missão de testemunhar na caridade a verdade professada. Assim, a
nova Paróquia, descrita no Estudo 104 da CNBB, é aquela que se abre aos
desafios do século XXI assumindo, como modelo, a ação de Jesus Cristo:
proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18- 19).
Para Refletir:
1. Na vivência comunitária atual, vivemos realmente a proposta cristã original? Qual é a sua realidade?
2. Como a proposta de pequenas comunidades, com ativa participação
ministerial dos cristãos leigos pode ser uma boa perspectiva de
renovação paroquial?
3. De que modo nós, cristãos do terceiro milênio, podemos, a partir da
comunidade de comunidades, fazer florescer, de fato, a tão sonhada
comunhão?
Orientações para a Interação:
a) Você poderá discutir este texto, presencialmente, com seus amigos na comunidade.
b) Você poderá enviar sua opinião usando a caixa de comentários do
texto publicado
c) Por fim, você poderá interagir na sala de aula virtual “Ambiente Virtual de Formação” da Arquidiocese. Acesse
http://www.avf.org.br/ e siga as orientações.
Este texto está publicado no site: Ambiente Virtual de Formação: Igreja em Rede
http://goo.gl/o6Isxy onde você poderá fazer o download em PDF.
Aguarde a publicação da próxima ficha: 27 novembro – Estudo 104 – CNBB
– “Comunidade de Comunidades: Uma nova Paróquia” (III) – Novos
contextos: Desafios a Paróquia
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Publicação da Arquidiocese de Campinas