CONSAGRAÇÃO À NOSSA SENHORA APARECIDA NA VOZ DO PADRE VITOR COELHO CSsR

Ó MARIA SANTÍSSIMA, PELOS MÉRITOS DO SENHOR JESUS CRISTO QUE EM VOSSA IMAGEM MILAGROSA DE APARECIDA ESPALHAIS INÚMEROS BENEFÍCIOS SOBRE O BRASIL, EU, EMBORA INDIGNO DE PERTENCER AO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS, MAS DESEJANDO PARTICIPAR DOS BENEFÍCIOS DA VOSSA MISERICÓRDIA, PROSTRADO A VOSSOS PÉS, CONSAGRO-VOS O ENTENDIMENTO, PARA QUE SEMPRE PENSE NO AMOR QUE MERECEIS. CONSAGRO-VOS A LÍNGUA, PARA QUE SEMPRE VOS LOUVE E PROPAGUE A VOSSA DEVOÇÃO.CONSAGRO-VOS O CORAÇÃO, PARA QUE, DEPOIS DE DEUS, VOS AME SOBRE TODAS AS COUSAS.RECEBEI-NOS, Ó RAINHA INCOMPARÁVEL, QUE NOSSO CRISTO CRUCIFICADO DEU-NOS POR MÃE, NO DITOSO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS. ACOLHEI-NOS DEBAIXO DA VOSSA PROTEÇÃO. SOCORREI-NOS EM NOSSAS NECESSIDADES ESPIRITUAIS E TEMPORAIS E, SOBRETUDO, NA HORA DA NOSSA MORTE. ABENÇOAI-NOS Ó MÃE CELESTIAL, E COM VOSSA PODEROSA INTERCESSÃO FORTALECEI-NOS EM NOSSA FRAQUEZA, A FIM DE QUE, SERVINDO-VOS FIELMENTE NESTA VIDA, POSSAMOS LOUVAR-VOS, AMAR-VOS E RENDER-VOS GRAÇAS NO CÉU, POR TODA A ETERNIDADE. ASSIM SEJA! ...PELA INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA APARECIDA, RAINHA E PADROEIRA DO BRASIL, A BÊNÇÃO DE DEUS ONIPOTENTE, PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO, DESÇA SOBRE VÓS E PERMANEÇA SEMPRE.AMÉM!

ATUALIZAÇÃO



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7 de maio de 2014

Frei Betto e o Papa Francisco


Encontro de Frei Betto com o Papa: “foi rápido, mas consistente, eu disse tudo o que precisava”
Natasha Pitts
Adital
Um rápido encontro entre Frei Betto e o Papa Francisco, no último dia 09 de abril, em Roma, na Itália, após a audiência geral realizada todas às quartas-feiras, causou grande controvérsia e a publicação de informações desencontradas. O fato é que o breve encontro, de acordo com Frei Betto em entrevista à Adital, foi o suficiente para que ele pudesse fazer pedidos importantes ao Sumo Pontífice.
Em janeiro deste ano, o frei dominicano enviou uma carta ao Papa dizendo que estaria em Roma de 07 a 14 de abril. Com a ajuda do jornalista italiano Antonio Vermigli e de um vaticanista, a carta chegou às mãos de um assessor direto do Papa, que marcou para que Frei Betto comparecesse à audiência da quarta-feira, pois o Francisco o conhecia e queria falar com ele.
"Quando o Papa passou junto ao lugar em que eu me encontrava eu disse: Santo Padre, eu quero agradecer a carta que o senhor enviou às Comunidades Eclesiais de Base no encontro em Juazeiro (Juazeiro do Norte, no Estado do Ceará), em janeiro, mas eu gostaria que o senhor sempre lembrasse que as Comunidades não são um movimento da Igreja, são a própria Igreja no meio dos pobres. Gostaria que o senhor também sempre dialogasse, como pai amoroso, com a Teologia da Libertação, que é uma filha fiel à Igreja e que sempre se lembre dos povos indígenas. O encontro foi rápido, mas foi consistente, eu disse tudo o que precisava”, relatou Frei Betto.
O religioso também pediu a reabilitação do Mestre Eckhart e de Giordano Bruno, dois dominicanos da Idade Média condenados pela igreja. "Ele, sempre prestando muita atenção ao que eu dizia falou: reze por isso. Terminei dizendo em latim: Fora dos pobres não há salvação. E ele falou: estou de acordo”.
Frei Betto explicou o pedido de reabilitação dos dois dominicanos. "Mestre Eckhart foi um grande místico alemão centrado na subjetividade humana e com expressões que chocaram os ouvidos de Roma na época; tipo: ‘Eu e Deus somos um’. Ora, São Paulo, muito antes de ser considerado santo, falou isso, ‘já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim’. A igreja estava entrando no período inquisitorial e qualquer coisa que soasse estranho era motivo de censura ou de condenação. Giordano Bruno foi um homem profético, intuitivo, também um grande místico, foi queimado vivo, pois ele ridicularizou muito os inquisidores, a ponto de dizer aos seus algozes: vocês têm mais medo de mim do que eu de vocês. E isso irrita até hoje as pessoas conservadoras da Igreja, embora cada cidade na Itália, por menor que seja, tenha uma rua Giordano Bruno”.
Sobre esse pedido especial, realizado porque a ordem dominicana completa 800 anos em 2016, Frei Betto interpretou que as palavras do Papa: "Reze por isso”, soaram como quem diz: eu estou de acordo, mas não vai ser fácil.
Questionado sobre quais assuntos abordaria com o Papa caso tivesse mais tempo, Frei Betto afirmou que "falaria da mudança do Estatuto da Mulher na Igreja, pois a mulher até hoje é considerada um ser inferior, por isso não pode ser sacerdote; falaria de Cuba, pediria para ele interferir pela libertação dos cinco cubanos, e falaria da importância dele valorizar os movimentos sociais”.
A rápida troca de palavras entre os religiosos incomodou a imprensa conservadora e provocou a publicação de matérias controversas e com informações erradas. O jornal La República noticiou "Papa recebe teólogo rebelde” e chegou a afirmar que Betto havia sido recebido na Casa Santa Marta, a residência do Papa. A informação foi desmentida pelo L’Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano
"Esse encontro incomodou bastante a imprensa conservadora, que, por sinal, já estava bastante incomodada porque o Papa recebeu Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação”, explicou Frei Betto.

Fonte: Adital 06/05/14

12 de fevereiro de 2014

Entrevista com Hans Küng



Entrevista com Hans Küng

Andrea Tarquini
La Repubblica
10-02-2014
Hans Küng - teólogo - em seu escritório

"Agora, o Papa Francisco pode apelar à resposta da maioria dos fiéis sobre questões tão importantes no debate com os reacionários da Cúria. O Papa Emérito Bento XVI escreveu há pouco para mim, eterno rebelde, uma carta afetuosa em que se compromete a apoiar Francisco, esperando em cada sucesso seu." Em suma, substancialmente, é quase como dizer que Francisco é como Gorbachev, o homem novo contra os ortodoxos, mas com as pessoas ao seu lado. Eis a voz de Hans Küng, máximo teólogo católico crítico vivo, sobre a pesquisa chocante publicada nesse domingo no jornal La Repubblica [veja abaixo, após esta entrevista] e sobre o seu efeito na Igreja.

Eis a entrevista.

Professor Küng, como você avalia a sondagem sobre os cristãos no mundo?

Hans Küng - Tomados conjuntamente e analisados, esses dados revelam a extraordinária discrepância entre os ensinamentos da Igreja sobre questões fundamentais, como a família, e, ao contrário, a visão real dos católicos no mundo.

Para você, entre os muitos resultados da sondagem, quais são os mais importantes?

Hans Küng - Para mim, o mais importante é a imensa maioria de consensos para o Papa Francisco: 87% dos católicos entrevistados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É uma enorme manifestação de confiança para o Sumo Pontífice. Para mim, é um pequeno milagre, depois dos anos da crise de confiança que tinha investido contra a Igreja nos anos do Papa Bento XVI. Agora, em menos de um ano, o Papa Francisco conseguiu inverter a tendência dos sentimentos dos fiéis de todo o mundo.

E o Papa Emérito Bento XVI, a seu ver, ficará feliz ou triste com a resposta da sondagem?

Hans Küng - Naturalmente, ver esses resultados irá lhe entristecer, especialmente repensando hoje nos últimos meses vividos por ele como pontífice, no seu mandato. Mas, seguramente, ele irá se alegrar com o fato de que agora se segue em frente, e ele, a meu ver, pensa mais no destino da Igreja do que naquilo que diz respeito a ele mesmo.

É só uma suposição sua ou você pode provar sobre o que você diz sobre os sentimentos de Joseph Ratzinger neste momento?

Hans Küng - Eu acredito que explicarei melhor o pensamento de Bento XVI citando frases da sua recentíssima carta para mim.

Bento XVI lhe escreveu depois de anos de conflitos? E o que lhe escreveu?

Hans Küng - Bem, espere só um momento, deixe-me pegar aqui na minha escrivaninha lotada esse manuscrito com a carta da Santa Sé endereçada por ele, pessoalmente, da sua residência de papa emérito. Data: 24 de janeiro de 2014. Remetente: "Pontifex emeritus Benedictus XVI". "Sou grato por poder estar ligado por uma grande identidade de pontos de vista e por uma amizade de coração ao Papa Francisco. Hoje, vejo como minha única e última tarefa é apoiar o seu Pontificado na oração." Acredito que são palavras muito belas. Certamente, escritas antes da publicação da sondagem. Essa escolha de inclinação do Papa Emérito Bento XVI me convence ainda mais.

E o que significa a sondagem para os bispos e, em geral, para a hierarquia eclesiástica?

Hans Küng - Eu gostaria de distinguir três categorias de prelados. Para os bispos prontos para as reformas, e eles existem em todo o mundo, os resultados da sondagem significam um grande encorajamento: eles deverão se comprometer abertamente com as suas convicções e não ficar tímidos demais. Segundo, para os conservadores que têm as suas reservas: eles deveriam refletir sobre as suas reservas e deveriam ouvir os argumentos dos reformadores. Terceiro, para os bispos reacionários, presentes não só no Vaticano, mas em todo o mundo, eles deveriam abandonar a sua resistência obstinada e escolher a razoabilidade.

E o que significa a sondagem para a base, para os cristãos? Encorajamento à reforma a partir de dentro, como Gorbachev sonhou em vão para o socialismo real e o Império Soviético?

Hans Küng - É importante o sinal de que o movimento para a reforma dentro da Igreja tem do seu lado a grande maioria dos fiéis. O movimento de reforma é apoiado pela base – movimentos de reforma, como o Nós Somos Igreja – mais do que apareceu até agora, mais do que dentro da Igreja oficial. É um fato em nível internacional.

Professor, há décadas, você pede mudanças e aberturas na Igreja. Foi o primeiro e pagou as consequências por isso. Para você, essa sondagem é uma vitória, uma vitória amarga, ou outra coisa?

Hans Küng - Eu não me considero um vencedor, não liderei uma batalha por mim, mas sim pela Igreja. Evidentemente, eu tive muitas experiências amargas, mas é bom ver uma mudança na direção do Concílio Vaticano II. Eu tive a grande alegria de poder ver, ainda vivo, o sucesso das ideias de reforma da Igreja para a qual eu combati por tanto tempo, de poder ver o início da virada. Para mim, é um novo impulso vital, como diz Bento XVI, para este último trecho do percurso da vida que nós agora temos pela frente.

Que consequências o Papa Francisco deveria tirar dos resultados dessa sondagem?

Hans Küng - Se eu pudesse lhe dar um humilde conselho, ele deveria seguir em frente com coragem no caminho em que está encaminhado e não ter medo das consequências.

Concretamente, o que isso significa?

Hans Küng - Espero que ele use a arte da Distinção que ambos aprendemos na Pontifícia Universidade Gregoriana: 
  • onde há, segundo a sondagem, consenso na Comunidade eclesial, ele deveria propor uma solução positiva para o Sínodo. 
  • Onde há desacordo, ele deveria permitir e suscitar um livre debate na Igreja. 
  • Onde ele mesmo é de outra opinião com relação à maioria dos católicos, como sobre o sacerdócio para as mulheres, ele deveria nomear uma força-tarefa de teólogos e de outros cientistas, de homens e mulheres, para abordar o tema.
Tradução de  Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Terça-feira, 11 de fevereiro de 2014 

17 de dezembro de 2013

''Nunca tenham medo da ternura''


Entrevista com Papa Francisco

Andrea Tornielli
La Stampa
15-12-2013

"O Natal para mim é esperança e ternura..."
Papa Francisco com crianças do Dispensário "Santa Marta" - Vaticano

Casa Santa Marta, terça-feira, 10 de dezembro, 12h50min. O papa nos acolhe em uma sala ao lado do refeitório. O encontro duraria uma hora e meia. Por duas vezes, durante a conversa, desaparece do rosto de Francisco a serenidade que todo o mundo aprendeu a conhecer, quando ele se refere ao sofrimento inocente das crianças e fala da tragédia da fome no mundo.

Na entrevista, o papa também fala das relações com as outras confissões cristãs e do "ecumenismo de sangue" que as une na perseguição. Ele se refere às questões do casamento e da família que serão abordadas pelo próximo Sínodo, responde aos que o criticaram nos EUA definindo-o como "um marxista" e fala da relação entre Igreja e política.


Eis a entrevista.

O que significa o Natal para o senhor?

Papa Francisco: É o encontro com Jesus. Deus sempre procurou o seu povo, conduziu-o, conservou-o, prometeu estar sempre perto dele. No livro do Deuteronômio, lemos que Deus caminha conosco, nos conduz pela mão como um pai faz com o filho. Isso é bonito. O Natal é o encontro de Deus com o seu povo. E é também uma consolação, um mistério de consolação. Muitas vezes, depois da missa da meia-noite, eu passei algumas horas sozinho, na capela, antes de celebrar a missa da aurora. Com esse sentimento de profunda consolação e paz. Lembro uma vez aqui em Roma, acho que era o Natal de 1974, uma noite de oração depois da missa na residência do Centro Astalli. Para mim, o Natal sempre foi isto: contemplar a visita de Deus ao seu povo.

O que o Natal diz ao homem de hoje?

Papa Francisco: Ele nos fala da ternura e da esperança. Deus, encontrando-nos, nos diz duas coisas. A primeira é: tenham esperança. Deus sempre abre as portas, nunca as fecha. Ele é o pai que abre as portas. Segundo: não tenham medo da ternura. Quando os cristãos se esquecem da esperança e da ternura, tornam-se uma Igreja fria, que não sabe para onde ir e se refreia nas ideologias, nas atitudes mundanas. Enquanto a simplicidade de Deus te diz: segue em frente, eu sou um Pai que te acaricia. Tenho medo quando os cristãos perdem a esperança e a capacidade de abraçar e acariciar. Talvez por isso, olhando para o futuro, eu falo muitas vezes das crianças e dos idosos, isto é, dos mais indefesos. Na minha vida de padre, indo à paróquia, eu sempre tentei transmitir essa ternura, especialmente às crianças e aos idosos. Me faz bem e me faz pensar na ternura que Deus tem por nós.

Como se pode acreditar que Deus, considerado pelas religiões como infinito e onipotente, se faz tão pequeno?

Papa Francisco: Os Padres gregos chamavam isso de synkatabasis, condescendência divina. Deus que desce e está conosco. É um dos mistérios de Deus. Em Belém, no ano 2000, João Paulo II disse que Deus se tornou uma criança totalmente dependente dos cuidados de um pai e de uma mãe. Por isso, o Natal nos dá tanta alegria. Não nos sentimos mais sozinhos, Deus desceu para estar conosco. Jesus se fez um de nós e sofreu por nós na cruz, o fim mais horrível, o de um criminoso.

O Natal é apresentado muitas vezes como uma fábula açucarada. Mas Deus nasce em um mundo onde há também muito sofrimento e miséria.

Papa Francisco: O que lemos nos Evangelhos é um anúncio de alegria. Os evangelistas descreveram uma alegria. Não se fazem considerações sobre o mundo injusto, sobre como Deus faz para nascer em um mundo assim. Tudo isso é fruto de uma contemplação nossa: os pobres, a criança que deve nascer na precariedade. O Natal não foi a denúncia da desigualdade social, da pobreza, mas sim um anúncio de alegria. Todo o resto são consequências que nós tiramos. Algumas certas, algumas menos certas, outras ainda ideologizadas. O Natal é alegria, alegria religiosa, alegria de Deus, interior, de luz e de paz. Quando não se tem a capacidade ou se está em uma situação humana que não permite compreender essa alegria, vive-se a festa com a alegria mundana. Mas, entre a alegria profunda e a alegria mundana, há diferença.

É o seu primeiro Natal [como papa], em um mundo onde não faltam conflitos e guerras...

Papa Francisco: Deus nunca dá um dom a quem não é capaz de recebê-lo. Se Ele nos oferece o dom do Natal é porque todos nós temos a capacidade de compreendê-lo e recebê-lo. Todos, desde o mais santo ao mais pecador, do mais limpo ao mais corrupto. O corrupto também tem essa capacidade: pobrezinho, talvez a tenha um pouco enferrujada, mas a tem. O Natal, neste tempo de conflitos, é um chamado de Deus, que nos dá esse dom. Queremos recebê-lo ou preferimos outros presentes? Este Natal, em um mundo conturbado pelas guerras, me faz pensar na paciência de Deus. A principal virtude de Deus explicitada na Bíblia é que Ele é amor. Ele nos espera, nunca se cansa de nos esperar. Ele dá o dom e depois nos espera. Isso também acontece na vida de cada um de nós. Há aqueles que o ignoram. Mas Deus é paciente, e a paz, a serenidade da noite de Natal é um reflexo da paciência de Deus conosco.

Em janeiro, serão 50 anos da histórica viagem de Paulo VI à Terra Santa. O senhor também irá?

Papa Francisco: O Natal sempre nos faz pensar em Belém, e Belém está num ponto preciso, na Terra Santa, onde Jesus viveu. Na noite de Natal, eu penso acima de tudo nos cristãos que vivem lá, naqueles que têm dificuldades, em muitos deles que tiveram de deixar aquela terra por vários problemas. Mas Belém continua sendo Belém. Deus veio em um ponto determinado, em uma terra determinada, lá apareceu a ternura de Deus, a graça de Deus. Não podemos pensar no Natal sem pensar na Terra Santa. Cinquenta anos atrás, Paulo VI teve a coragem de sair para ir lá, e assim começou a época das viagens papais. Eu também desejo ir até lá, para encontrar o meu irmão Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, e com ele comemorar esse cinquentenário, renovando o abraço entre o Papa Montini e Atenágoras, ocorrido em Jerusalém em 1964. Estamos nos preparando para isso.

O senhor encontrou-se várias vezes com crianças gravemente doentes. O que se pode dizer diante desse sofrimento inocente?

Papa Francisco: Um mestre de vida para mim foi Dostoiévski, e aquela sua pergunta, explícita e implícita, sempre girou no meu coração: por que as crianças sofrem? Não há explicação. Vem-me esta imagem: em um certo ponto da sua vida, a criança se "desperta", não entende muitas coisas, se sente ameaçada, começa a fazer perguntas ao pai ou à mãe. É a idade dos "porquês". Mas, quando o filho pergunta, ele não ouve tudo o que você tem a dizer. Ele logo pressiona você com novos "porquês". O que ele busca, mais do que a explicação, é o olhar do pai que dá segurança. Diante de uma criança sofredora, a única oração que me vem é a oração do porquê. "Senhor, por quê?" Ele não me explica nada. Mas eu sinto que Ele me olha. E assim eu posso dizer: "Tu sabes o porquê, eu não sei, e Tu não me o dizes. Mas Tu me olhas, e eu confio em Ti, Senhor, confio no teu olhar".

Falando do sofrimento das crianças, não podemos esquecer a tragédia daqueles que passam fome.

Papa Francisco: Com a comida que sobra e jogamos fora, poderíamos dar de comer a muitos. Se conseguíssemos não desperdiçar, reciclar a comida, a fome no mundo diminuiria muito. Fiquei impressionado ao ler uma estatística que fala de 10 mil crianças mortas de fome a cada dia no mundo. Há muitas crianças que choram porque têm fome. Outro dia, na audiência da quarta-feira, atrás de uma barreira, havia uma jovem mãe com o seu bebê de poucos meses. Quando eu passei, a criança chorava muito. A mãe o acariciava. Eu lhe disse: "Senhora, acho que o pequeno tem fome". Ela respondeu: "Sim, já está na hora"... Eu respondi: "Mas dê-lhe de comer, por favor!" Ela tinha pudor, não queria amamentá-lo em público, enquanto o papa passava. Eis, eu gostaria de dizer o mesmo para a humanidade: deem de comer! Aquela mulher tinha leite para o seu bebê. No mundo, temos comida suficiente para saciar a todos. Se trabalharmos com as organizações humanitárias e conseguirmos estar todos de acordo em não desperdiçar comida, fazendo com que ela chegue a quem dela precisa, daremos uma grande contribuição para resolver a tragédia da fome no mundo. Gostaria de repetir à humanidade o que eu disse àquela mãe: deem de comer a quem tem fome! Que a esperança e a ternura do Natal do Senhor nos sacudam da indiferença.
Árvore de Natal na Praça São Pedro tendo a Basílica ao fundo - Vaticano

Alguns trechos da [Exortação Apostólica] Evangelii gaudium atraíram-lhe as acusações dos ultraconservadores norte-americanos. Qual é a sensação de um papa ao ouvir que é definido como "marxista"?

Papa Francisco: A ideologia marxista é equivocada. Mas, na minha vida, eu conheci muitos marxistas bons como pessoas, e por isso eu não me sinto ofendido.

As palavras que mais chamaram a atenção são aquelas sobre a economia que "mata"...

Papa Francisco: Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a Doutrina Social da Igreja. E isso não significa ser marxista.

O senhor anunciou uma "conversão do papado". Os encontros com os patriarcas ortodoxos lhe sugeriram algum caminho concreto?

Papa Francisco: João Paulo II falara de modo ainda mais explícito de uma forma de exercício do primado que se abra a uma situação nova. Mas não só do ponto de vista das relações ecumênicas, mas também nas relações com a Cúria e com as Igrejas locais. Nesses primeiros nove meses, eu recebi a visita de muitos irmãos ortodoxos, Bartolomeu, Hilarion, o teólogo Zizioulas, o copta Tawadros: este último é um místico, entrava na capela, tirava os sapatos e ia rezar. Senti-me seu irmão. Eles têm a sucessão apostólica. Eu os recebi como irmãos bispos. É uma dor ainda não poder celebrar a Eucaristia juntos, mas a amizade existe. Acredito que o caminho é este: amizade, trabalho comum e rezar pela unidade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro, um irmão se chama Pedro, e o outro se chama André, Marcos, Tomás...

A unidade dos cristãos é uma prioridade para o senhor?

Papa Francisco: Sim, para mim o ecumenismo é prioritário. Hoje, existe o ecumenismo do sangue. Em alguns países, matam os cristãos porque carregam uma cruz ou têm uma Bíblia, e, antes de matá-los, não lhes perguntam se são anglicanos, luteranos, católicos ou ortodoxos. O sangue é misturado. Para aqueles que matam, somos cristãos. Unidos no sangue, embora entre nós ainda não consigamos dar os passos necessários rumo à unidade, e talvez o tempo ainda não chegou. A unidade é uma graça, que deve ser pedida. Eu conhecia um pároco em Hamburgo que acompanhava a causa de beatificação de um padre católico guilhotinado pelos nazistas porque ensinava o catecismo às crianças. Depois dele, nas filas dos condenados, havia um pastor luterano, morto pelo mesmo motivo. O sangue deles se misturou. Aquele pároco me contava que tinha ido ao encontro do bispo e lhe dissera: "Eu continuo acompanhando a causa, mas de todos os dois, e não só do católico". Esse é o ecumenismo do sangue. Ele também existe hoje, basta ler os jornais. Aqueles que matam os cristãos não pedem para você a carteira de identidade para saber em qual Igreja você foi batizado. Devemos levar em consideração essa realidade.

Na exortação, o senhor convidou a escolhas pastorais prudentes e audazes com relação aos sacramentos. A que o senhor se referia?

Papa Francisco: Quando eu falo de prudência, não penso em uma atitude paralisante, mas sim em uma virtude de quem governa. A prudência é uma virtude de governo. A audácia também é. Deve-se governar com audácia e com prudência. Eu falei do batismo e da comunhão como alimento espiritual para seguir em frente, a serem considerados como um remédio, e não como um prêmio. Alguns logo pensaram nos sacramentos para os divorciados em segunda união, mas eu não entrei em casos particulares: eu só queria indicar um princípio. Devemos buscar facilitar a fé das pessoas, mais do que controlá-la. No ano passado, na Argentina, eu havia denunciado a atitude de alguns padres que não batizavam os filhos das mães solteiras. É uma mentalidade doente.

E quanto aos divorciados em segunda união?

Papa Francisco: A exclusão da comunhão para os divorciados que vivem uma segunda união não é uma sanção. É bom lembrar disso. Mas eu não falei disso na exortação.

O próximo Sínodo dos Bispos irá tratar disso?

Papa Francisco: A sinodalidade na Igreja é importante: falaremos sobre o matrimônio em seu conjunto nas reuniões do consistório em fevereiro. Depois, o tema será abordado no Sínodo Extraordinário de outubro de 2014 e, novamente, durante o Sínodo Ordinário do ano seguinte. Nesses âmbitos, muitas coisas serão aprofundadas e se esclarecerão.

Como procede o trabalho dos seus oito "conselheiros" para a reforma da Cúria?

Papa Francisco: O trabalho é longo. Quem queria fazer propostas ou enviar ideias o fez. O cardeal Bertello recolheu os pareceres de todos os dicastérios vaticanos. Recebemos sugestões dos bispos de todo o mundo. Na última reunião, os oito cardeais disseram que chegamos ao momento de fazer propostas concretas, e no próximo encontro, em fevereiro, eles me entregarão as suas primeiras sugestões. Eu sempre estou presente nos encontros, exceto na manhã da quarta-feira, por causa da audiência. Mas eu não falo, apenas ouço, e isso me faz bem. Um cardeal idoso, há alguns meses, me disse: "O senhor já começou a reforma da Cúria com a missa cotidiana em Santa Marta". Isso me fez pensar: a reforma começa sempre com iniciativas espirituais e pastorais, antes que com mudanças estruturais.

Qual é a relação certa entre a Igreja e a política?

Papa Francisco: A relação deve ser ao mesmo tempo paralela e convergente. Paralela, porque cada um tem o seu caminho e as suas diversas tarefas. Convergente, apenas em ajudar o povo. Quando as relações convergem primeiro, sem o povo, ou não se importando com o povo, começa aquele conúbio com o poder político que acaba apodrecendo a Igreja: os negócios, os compromissos... É preciso prosseguir paralelamente, cada um com o seu próprio método, as suas próprias tarefas, a sua própria vocação. Convergentes só no bem comum. A política é nobre, é uma das formas mais altas de caridade, como dizia Paulo VI. Nós a sujamos quando a usamos para os negócios. A  relação entre a Igreja e o poder político também pode ser corrupta, se não converge no bem comum.

Posso perguntar-lhe se teremos mulheres cardeais?

Papa Francisco: É uma brincadeira que saiu não sei de onde. As mulheres na Igreja devem ser valorizadas, e não "clericalizadas". Quem pensa nas mulheres cardeais sofre um pouco de clericalismo.

Como está o trabalho de limpeza do IOR?

Papa Francisco: As comissões referentes estão trabalhando bem. O Moneyval nos deu um relatório bom, estamos no caminho certo. Sobre o futuro do IOR, veremos. Por exemplo, o "banco central" do Vaticano seria a APSA [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica]. O IOR foi instituído para ajudar as obras de religião, missões, as Igrejas pobres. Depois se tornou como é agora.

Há um ano, o senhor podia imaginar que celebraria o Natal de 2013 em São Pedro?

Papa Francisco: Absolutamente não.

Esperava ser eleito?

Papa Francisco: Não esperava. Eu não perdi a paz enquanto os votos aumentavam. Permaneci tranquilo. E essa paz ainda existe agora, eu a considero um dom do Senhor. Terminado o último escrutínio, levaram-me ao centro da Capela Sistina e me perguntaram se eu aceitava. Eu respondi que sim, disse que me chamaria Francisco. Apenas então me afastei. Eles me levaram para a sala adjacente para trocar de hábito. Depois, pouco antes de me assomar, me ajoelhei para rezar por alguns minutos, juntamente com os cardeais Vallini e Hummes, na Capela Paulina.

Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Segunda-feira, 16 de dezembro de 2013 - Internet: clique aqui.

Contribuição do site do Pe. Telmo Figueiredo

19 de novembro de 2013

REDENTORISTAS EM NOTÍCIAS:


A experiência de ser bispo redentorista

Entrevista com Dom Darci Nicioli, bispo de auxiliar de Aparecida, no Brasil, nomeado por Bento XVI em 14 de novembro de 2012. Ele escolheu como lema: “Que a Tua luz brilhe!”.



Como o senhor vive os primeiros meses como bispo?

Eu tive o privilegio de permanecer como bispo numa Igreja onde eu já estava inserido. Eu fui para Aparecida com 13 anos de idade. Vivi muito tempo da minha vida naquele lugar. É bem verdade, depois de padre, fui transferido para outros lugares, com outras missões, inclusive até para fora do país, mas a maior parte do meu ministério sacerdotal, eu vivi em Aparecida, servindo a Igreja no Brasil, naquela Igreja Particular de Aparecida, como missionário redentorista. Claro que agora é diferente por eu ser bispo, mesmo porque a expectativa das pessoas é outra. Tanto dos confrades, como também do povo, em geral. E uma coisa nova que eu noto e que destaco é a de viver sozinho. É um aprendizado. Depois de um dia de trabalho, por exemplo, havia a vida da comunidade para organizar. Agora, eu volto para casa e estou sozinho. Passei a descobrir um tempo novo para rezar.

O que se poderia falar do que é a missão de um bispo auxiliar?

Para entender: eu sou o bispo titular de Fico, na Argeria. É um costume da Igreja. Uma Igreja Particular que não está mais em atividade é entregue a um bispo que não tem, diretamente, uma Igreja para governar. Agora, no concreto, eu estou ali, ao lado do Cardeal arcebispo de Aparecida, dom Damasceno, naquilo que ele precisa. Eu sou bispo auxiliar dele. E, como ele é presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tem muitos compromissos fora da arquidiocese, e, por isso, posso auxiliá-lo. Dom Damasceno, conforme o Direito Canônico, nomeou-me Vigário Geral. É outro aprendizado. Dom Damasceno me ensina muito.

Como o senhor pode continuar a ser redentorista depois da nomeação episcopal?

É certo que sob o aspecto canônico, eu não sou mais redentorista por não ter mais voz passiva e ativa na Congregação, mas eu não deixo de ser redentorista porque isto está enfronhado, está dentro de mim. É o jeito de ser ministro, o jeito de ser Igreja que é o jeito redentorista. Então, agora, eu sou um bispo redentorista e não há dúvida com respeito a isso. Eu tenho ainda um outro privilégio: tenho um púlpito maravilhoso que é o Santuário de Aparecida. E nós, redentoristas, temos como missão a pregação explícita da Palavra de Deus. Eu procuro e não renuncio, de maneira alguma, fazer uma pregação, pregar um retiro, pregar uma novena, uma festa. Eu estou sempre disponível porque entendo que é o jeito de ser redentorista. Portanto, como bispo, continuo no anúncio da Palavra de Deus bem do nosso jeito: anunciar Jesus Cristo como Deus misericordioso, como Deus bondade, como Deus parceiro de todo homem na sua história. É isto que eu faço como bispo redentorista. E, depois, Santo Afonso foi um grande devoto de Nossa Senhora. Mais um privilégio meu: estou em Aparecida para anunciar a bondade de Deus pelas mãos carinhosas de nossa Senhora Aparecida, não somente no Santuário, mas através dos meios de comunicação para todo o Brasil. E um detalhe importante: Santo Afonso foi bispo também. E foi um bispo muito próximo do povo. Um missionário em sua essência. Então, eu procuro ser um bispo missionário, disponível para o povo.

Uma palavra do senhor sobre o Ano para a Promoção da Vocação Missionária Redentorista.

Quero falar sobre um sonho meu. Eu vejo que temos todos os instrumentos para propor a beleza do ser redentorista e a grandiosidade de nossa missão alfonsiana. E vejo que, muitas vezes, não utilizamos desses instrumentos. Há um sonho que tenho coração: investir mais naqueles que estão onde, um tempo, chamávamos de Seminário Menor. Eu estou convencido de que não podemos esperar os meninos na idade mais madura. O mundo mudou e, em muitos ambientes familiares, chega a ser difícil cultivar a vocação. Infelizmente, é assim a dinâmica do mundo hoje. É preciso trazer esses rapazes para o Seminário e ajuda-los a discernir a vontade de Deus. Acompanhá-los no crescimento intelectual, afetivo, espiritual. E nós não estamos fazendo isso com competência. Isso me provoca há muito tempo. Fui formador por dez anos. Essa situação sempre foi, para mim, um desafio. Nós temos uma proposta maravilhosa, convidativa e atualíssima para a Igreja de hoje. Eu tenho absoluta certeza: essa proposta feita de um modo especial, todo jovem iria se enamorar. E nós estamos perdendo muitos jovens por dois motivos: primeiro, por não convidar ou por não convidar de modo encantado e segundo, se eles se aproximam, não cuidamos do melhor modo. É preciso cuidar melhor dos nossos jovens.

O Ano Vocacional está aí e é um desafio maior é para aqueles que já fizeram a sua primeira profissão, para aqueles que já são redentoristas. O maior desafio é para nós. Quando o encanto e força saírem do nosso coração, poderemos espelhar naqueles que ainda não descobriram a beleza de ser redentorista.

Fonte: Scala - Boletim Redentorista (Novembro)

18 de setembro de 2013

Ano Vocacional Redentorista - Rio





Pároco da Igreja de Santo Afonso no Rio de Janeiro (RJ), Pe. Luís Carlos de Carvalho Silva revela a emoção de viver a JMJ e a abertura do Ano da Promoção Vocacional Redentorista.

A Igreja de Santo Afonso contou com o apoio de centenas de voluntários e famílias acolhedoras dos peregrinos durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), além da ajuda efetiva dos padres e irmãos da comunidade redentorista carioca. Um trabalho competente e indispensável para o sucesso do evento.

Como foi a participação desse grupo nas atividades?
No processo de preparação para a Jornada, tivemos na Paróquia o simulado do que seria a JMJ, o que nos possibilitou entender a estrutura necessária para todos os eventos que aconteceriam pela cidade do Rio de Janeiro. A Igreja de Santo Afonso foi um dos centros de referência para os peregrinos de língua inglesa. Por isso, haviam vários jovens voluntários auxiliando na comunicação com aqueles que vinham para a nossa região paroquial. Aqui ficaram irmãos da Zâmbia, Austrália, Filipinas, Canadá, Arábia Saudita, Iraque, Estados Unidos, etc. Eles chegavam e eram encaminhados para os locais de hospedagem. Graças a Deus contamos com a generosidade de muitas pessoas para que o trabalho na JMJ transcorresse da melhor forma possível na paróquia. Os nossos jovens paroquianos estiveram engajados em várias outras atividades da JMJ, o que muito nos alegra por vermos a vitalidade de nossa juventude. A JMJ e a visita do Papa no Rio de Janeiro foram momentos marcantes para toda a Igreja.

Além de participar da programação da jornada, o senhor teve a oportunidade de concelebrar a missa de envio. Como foi essa experiência?
A experiência foi de um realismo muito grande. O Papa Francisco nos trouxe para a concretude da vida e a história, da qual somos responsáveis. A sua frase, “Ide sem medo para servir”, foi uma exortação para o  alargamento de nosso horizonte existencial. Isso possibilitou vermos a vida com ternura e, ao mesmo tempo, nos deparar com o desejo de transformá-la em vida digna para todo ser humano. A missa foi de muita emoção, bem conduzida. Lindo era estar ao lado de padres de várias nacionalidades e todos celebrando o mesmo mistério eucarístico, através da linguagem do amor. A despedida foi muito emocionante, bem como o encontro com o povo exultante pela benção de termos tido uma Jornada tão pacífica e iluminadora. Na verdade foi um verdadeiro Kairós e graças a Deus estamos colhendo os frutos, graças a mobilização que a JMJ e a presença do Papa trouxeram ao coração de muitas pessoas que, até então, estavam afastadas da Igreja.

No dia 1º de agosto, data em que celebramos Afonso Maria de Liguório, fundador dos Redentoristas, o Superior Geral da Congregação presidiu,na Igreja de Santo Afonso, a missa que marcou a abertura oficial do Ano de Promoção da Vocação Missionária Redentorista em todo o mundo. Como foi receber essa celebração tão importante, com a participação do Governo Geral?
Vejo como uma coroação a abertura do Ano Vocacional em nossa Paróquia, pois há mais de um ano estamos vivendo os preparativos da JMJ e terminar os eventos da Jornada no momento em que se abre o Ano Vocacional é uma dádiva de Deus para nós. Um verdadeiro coroamento dos trabalhos já realizados e o desdobramento daquilo que mais sonhamos: um tempo fecundo, onde poderemos semear e, ao mesmo tempo, colher as pessoas com seus dons, encaminhando--as a trabalhar na Messe de Cristo. A participação do Governo Geral, nas pessoas do Padre Michael Brehl, C.Ss.R. e Padre Alberto, C.Ss.R., sinaliza a íntima unidade da Paróquia Santo Afonso no seio da Congregação do Santíssimo Redentor. A presença de nosso Provincial nos coloca no coração da Província do Rio, Minas e Espírito Santo por termos Santo Afonso como padroeiro, o que evoca em toda a Província a responsabilidade de trabalharmos em prol da continuidade do carisma desta Congregação, fundada por Afonso, em benefício do povo mais abandonado. Os confrades das outras unidades da Congregação que estiveram presentes confirmam a comunhão que deve existir entre os redentoristas de todo o mundo. A presença maciça dos paroquianos e devotos de Santo Afonso nos faz acreditar que Afonso é muito amado e que a sua obra tem ressonância na alma de nossa gente, por isso, ela deve continuar. É nesse sentido que o Ano Vocacional Redentorista abre para nós novas perspectivas de um futuro abençoado.

Brenda Melo
Juiz de Fora, MG
Fonte: Informativo Akikoláde Setembro/13

13 de junho de 2013

''Papa Francisco, faça-nos sonhar que outra Igreja é possível''




Posted: 12 Jun 2013 06:55 PM PDT
Enzo Bianchi
La Stampa
09-06-2013

“Francisco nos autoriza a sonhar ou, melhor, a invocar que a Igreja, que nós, cristãos, sejamos mais conformes ao Evangelho, 
à vida humana vivida por Jesus, à vida em que ele deixou os rastros para chegar a Deus”.

O texto que publicamos é uma síntese da lectio magistralis que o monge italiano Enzo Bianchi, prior de Bose, 
proferiu nesse domingo no 
Palazzo del Collegio di Asti, inaugurando o festival Passepartout
(http://www.passepartoutfestival.it/2013/passepartout.php?sez=Passepartout),
 dedicado este ano ao tema "1963-2013: I have a dream".
Palazzo del Collegio - Asti (Itália): local do Festival Passepartout
Eis o texto.

Há quase 100 dias ressoa a expressão "Papa Francisco", uma expressão que acende uma serenidade e às vezes também uma alegria em quem a pronuncia e em quem a escuta. Eu tenho a clara memória de que isso já acontecia há mais de 50 anos quando se evocava o Papa João (simplesmente, sem a indicação do número que o seguia).

Deve-se reconhecer: na Igreja Católica "mudou o ar", "há um novo fôlego". Essas são palavras muito significativas que se ouvem dos lábios de bispos, presbíteros e simples fiéis. Negar a mudança que se verificou seria não querer aderir à realidade nova que se configurou. Agora, muitos temem que afirmar a mudança, a novidade desse pontificado pode coincidir com uma crítica ou até mesmo com uma contraposição com relação ao papa anterior, mas isso se deve a uma "mitologia" persistente com relação ao papado, que se gostaria que fosse marcado por uma absoluta continuidade. A continuidade diz respeito, na verdade, à fé professada, mas os estilos, os modos de presidir e de ser pastor devem ser muito diferentes, porque os dons do Senhor são diferentes entre si e não apenas abundantes.

É hora de os católicos compreenderem que o ministério de Pedro assumido pelos bispos de Roma é no seu conteúdo sempre o mesmo – confirmar na fé os irmãos e estar a serviço da comunhão entre as Igrejas –, enquanto a forma desse ministério, assim como mudou nos 20 séculos da história da Igreja, ainda muda ou, melhor, deverá mudar se entre as Igrejas se realizar uma convergência ecumênica rumo a uma comunhão visível.

Houve uma mudança palpável, que a Igreja acolheu com espanto, por causa da novidade trazida pelo Papa Francisco no estilo da vida cotidiana; houve uma mudança no modo de ensinar por parte do papa; houve a promessa de uma renovação do exercício do ministério petrino, através do início de uma reforma da Cúria Romana, que, justamente na vigília da renúncia de Bento XVI, se encontrava em contradição com a evangelicidade que lhe é exigida no seu estar a serviço do sucessor de Pedro.

Francisco não é um papa "teólogo", isto é, exercitado na teologia especulativa e doutrinal, nem é exercitado na arte exegética da interpretação das Escrituras, mas é exercitado no conhecimento e na assunção dos "pensamentos e atitudes que havia em Cristo Jesus" (cf. Fil 2, 5). Isso emerge de toda a sua pessoa e do seu ministério. Mas não se pense que isso não revele a sua qualidade de teólogo: "teólogo porque reza" – segundo a definição de Evágrio do Ponto – teólogo porque conhece Cristo na escuta das Escrituras e na sua busca no rosto das pessoas, nas "periferias do mundo", nas ruas que estão sempre abertas por quem inicia caminhos, nas regiões infernais em que as pessoas às vezes caem e habitam...

Não sendo de língua italiana, a sua linguagem é pouco nuançada, às vezes dura, às vezes ele também pode parecer rude a alguns, mas é uma linguagem do coração, é a linguagem do pastor que conhece as suas ovelhas, as ama e compartilha a sua vida. O Papa Francisco está "in medio ecclesiae", não acima, sem isenções nem imunidade. Por isso, ele nos autoriza a sonhar ou, melhor, a invocar que a Igreja, que nós, cristãos, sejamos mais conformes ao Evangelho, à vida humana vivida por Jesus, à vida em que ele deixou os rastros para chegar a Deus

Quais expectativas, portanto, desperta o ministério petrino exercido pelo Papa Francisco? 

[1º] Acima de tudo, ele anunciou "uma Igreja pobre e para os pobres". Não só uma Igreja que leva os pobres no coração, que "faz o bem" para eles, mas que se faz pobre à imagem do Senhor, que "sendo rico se fez pobre por nós" (2Cor 8, 9), para ser solidária em tudo com as pessoas.

A expressão "Igreja serva e pobre", forjada pelo teólogo Yves Congar nos anos 1960, assumida pelo Concílio, não conheceu no pós-Concílio a atenção que merecia. Porém, esse é o primeiro ponto decisivo para a reforma da Igreja. O Papa Francisco vem de uma Igreja que elaborou "a necessidade da opção preferencial pelos pobres", primeiros destinatários de direito da Palavra de Deus, e, portanto, está habilitado a fazer com que a Igreja volte à pobreza evangélica. Nenhum pauperismo ideológico, mas ou a Igreja é pobre, ou não é conforme ao seu Senhor e, portanto, está em contradição com a encarnação do Senhor, com o Deus-homem que é Jesus Cristo, o único Senhor de todos.

[2º] Mas também precisamos de uma Igreja sinodal, isto é, na qual se caminha juntos, papa, bispos, presbíteros, povo de Deus. O Vaticano II expressou linhas que, depois desenvolvidas, deram origem à chamada "eclesiologia de comunhão"; mas a comunhão verdadeira, ordenada, eficaz requer que o ministério de quem preside seja exercido em uma sinodalidade em que todos são ouvidos naquilo que lhes diz respeito, todos são sujeitos que têm direitos a tomar a palavra, todos são chamados à unidade, à comunhão que pode ser doada pelo Espírito Santo, que compagina a pluralidade em unidade.

É nessa sinodalidade que as Igrejas das periferias poderão fazer ouvir a sua voz no centro e poderão confiar as suas aquisições e o seu testemunho àqueles que estão encarregados do serviço da comunhão entre as Igrejas e da confirmação delas na unidade. Na sinodalidade também poderão ser abertos caminhos de subsidiariedade, esta também tão necessária para uma unidade respeitosa das diferenças, dos dons e dos carismas plurais que o Senhor concede à Igreja.

[3º] Enfim, a minha expectativa pessoal é a da unidade de todos aqueles que confessam Jesus Cristo como Senhor e Filho de Deus, exegese do Deus que ninguém jamais viu nem pode ver, senão no além da vida terrena. O ecumenismo deve ser não uma opção na Igreja, mas simplesmente a condição para ser cristão: essa foi a vontade do Senhor, e, portanto, o reconhecimento de quem é batizado como membro do único corpo de Cristo deve encontrar formas de manifestação concreta e ser dinamismo de uma comunhão que "o amor", que "é a primeira verdade", deve confirmar.

Sim, vêm tempos em que "a Palavra de Deus não é rara" (cf. 1Sm 3, 1), em que "reina a paz na Igreja" (At 9, 31), tempos em que se busca a comunhão dentro da Igreja e a solidariedade com todas as pessoas. Que a Igreja saia de si mesma, que seja "extrovertida", porque olha não para si mesma, mas para o seu Senhor e para os rostos do Senhor na história: os homens e as mulheres e, entre eles, os últimos, sobretudo os pobres.

Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quarta-feira, 12 de junho de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520916-papa-francisco-faca-nos-sonhar-que-outra-igreja-e-possivel-artigo-de-enzo-bianchi
 
Contribuição: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo

28 de maio de 2013

Para além de uma visão da Igreja a partir da Europa

Excelente entrevista postada pelo Pe. Telmo em seu blog. Vale a pena ler.



Entrevista com Timothy Radcliffe*

Maria Teresa Pontara Pederiva
Blog da Editora Queriniana
24-05-2013

"Precisamos mais do que nunca da vitalidade dos católicos de outros continentes, onde as comunidades muitas vezes são mais jovens e cheias de vitalidade. Eu espero vivamente que um papa latino-americano dê confiança aos católicos daquelas terras, para que encontrem a força para viver sua fé com alegria e criatividade."
TIMOTHY RADCLIFFE - teólogo dominicano inglês
Eis a entrevista.

O que o senhor pensa desta nova estação da Igreja? O novo Papa Francisco deu alguns sinais, mas mais uma vez os conservadores insistem no fato de que nada mudou, os progressistas já o veem dando passos até muito para a frente... É um pouco sempre a mesma história que se repete ou não?

Timothy Radcliffe: Naturalmente, cada um examina cada palavra do novo papa para ver se é do "nosso lado" ou não. Isso é profundamente injusto. Francisco precisa de tempo para descobrir o caminho à sua frente, ouvindo o parecer dos seus conselheiros e confiando na oração. Ele vai descobrir lentamente nos meses quão grande é a necessidade de uma mudança.

Espero vivamente que seja um momento de mudança radical. O Papa Francisco sempre enfatiza que ele é acima de tudo o bispo de Roma e desde a primeira noite, na sacada da Basílica de São Pedro, ele logo definiu o seu antecessor de bispo emérito. Eu acho que ele está tentando se afastar da ideia que governou a Igreja durante séculos de que o papado é uma espécie de monarquia. Ele está tentando posicionar o novo papado dentro do colégio universal dos bispos. Ele quer uma Igreja – pelo menos esta é a minha opinião – que seja mais dialógica entre os seus componentes.

Mas não devemos exagerar ao enfatizar as diferenças entre o Papa Francisco e o seu antecessor, Bento XVI. O Papa Bento XVI acreditava firmemente na importância do diálogo e na necessidade de relações de reciprocidade dentro da Igreja. Ele falou muitas vezes de uma Igreja que deveria refletir o amor da Trindade, que é igual e recíproco entre os seus membros. Algumas escolhas que o Papa Francisco está fazendo poderiam ser justamente a implementação da visão teológica do seu antecessor. É como se considerássemos que cada um tem o seu próprio dom: um para formular a visão teológica, outro para encarná-la.

O senhor viveu em Roma por nove anos (1992-2001) como mestre da Ordem dos Pregadores e conhece bem o centro da Igreja, mas também é de origem inglesa, vive em Oxford e também conhece muito bem o mundo: o que um papa latino-americano pode significar para a Igreja?

Timothy Radcliffe: Das minhas viagens em todo o mundo, eu aprendi que a Igreja é a instituição mais global do mundo. E assim, para mim, é perfeitamente natural ter um papa que provém da América Latina. O mestre anterior da Ordem Dominicana vinha da Argentina, e o atual é o primeiro da história a ser de origem africana. Certamente isso poderia ser uma surpresa para os europeus que não conhecem a Igreja tão bem.

Mas estou convencido de que a eleição do Papa Francisco realmente irá desafiar uma visão eurocêntrica da Igreja. E esse é um fato formidável. Precisamos mais do que nunca da vitalidade dos católicos de outros continentes, onde as comunidades muitas vezes são mais jovens e cheias de vitalidade. A Igreja Católica na Inglaterra, por exemplo, obteve novas forças dos católicos provenientes da Polônia e da Nigéria. Eles são uma bênção para nós.

Mas espero que a eleição desse papa tenha uma consequência positiva também na América Latina, onde vive hoje o maior número de católicos. Muitas vezes, a Igreja foi ameaçada pelo crescimento das Igrejas pentecostais, que atacam o catolicismo como seitas, pois se baseiam muito em uma forte experiência religiosa. No entanto, muitos convertidos ao movimento pentecostal não duram muito tempo e muitas vezes acabam renunciando totalmente a uma escolha religiosa depois de poucos anos.

E assim acontece que a conversão a uma Igreja pentecostal representa muitas vezes o primeiro passo para a perda total da fé. Portanto, eu espero vivamente que um papa latino-americano dê confiança aos católicos daquelas terras, para que encontrem a força para viver sua fé com alegria e criatividade.
Rabino-chefe SACKS

O rabino-chefe, Sacks, disse que a Europa está morta, no sentido de que ela não é mais o centro da cultura e da religião no mundo. O senhor acha que os europeus estão conscientes da perda de centralidade das nações europeias? Que papel as populações europeias e cristãs do mundo deveriam adotar? Não nos esqueçamos de que os europeus têm uma longa história e têm familiaridade com as guerras religiosas, o que poderia nos ensinar a não repetir os erros...

Timothy Radcliffe: Eu conheço e admiro o rabino-chefe, que é um amigo. Mas se ele realmente disse que a Europa está morta, então eu não concordo. É verdade: somos afetados por uma crise econômica e estamos assistindo à ascensão de outras potências econômicas, Brasil, Índia e China (Bric), mas isso não significa que estamos mortos de fato! A Europa ainda é o lugar de encontro de culturas muito diferentes.

Nesta área relativamente pequena do mundo, dispõe-se de uma extraordinária diversidade de culturas, das ricas tradições latinas da Itália e da Espanha, herdeiros da cultura romana, às tradições germânicas, com a sua música e filosofia, às culturas celtas, com sua espiritualidade e arte, às culturas escandinavas, com as suas antigas mitologias e as suas tradições de extrema tolerância. E também a cultura britânica, que eu diria que é maravilhosamente diversificada!

Os Estados Unidos, obviamente, ainda são a superpotência dominante. É difícil dizer se isso vai continuar no futuro, como alguns preveem, ou vai diminuir, como outros pensam. Mas a Europa certamente tem muito a dar, justamente porque é um lugar de encontro de tantas culturas. As nossas cidades estão cheias de pessoas provenientes de todo o mundo, até mesmo da China. A metade das pessoas que estudam para o seu doutorado em matemática em Oxford provêm da China!

E assim, mesmo que talvez tenhamos perdido o primado do poder econômico, ainda temos um papel vital no fato de ajudar as culturas a se compreenderem. Isso também pode enriquecer o cristianismo, porque Cristo é aquele que reúne toda a humanidade em si mesmo e no qual "não há mais judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher". Aprendemos assim tanto sobre a tolerância e a convivência recíprocas que devemos ser capazes de ensiná-las aos outros.

Além disso, como o Papa Bento XVI explicou em várias ocasiões tão bem, temos uma rica tradição filosófica que penetrou profundamente no cristianismo e ele o fez desde o início. A Igreja é herdeira de duas grandes tradições, a fé judaica e a filosofia grega. Eu espero que os cristãos europeus possam compartilhar essa riqueza filosófica com pessoas que vivem no nosso planeta cada vez menor e se comprometam a compreender os desafios do futuro e o que significa ser humano.

Em 2017, ocorre o 500º aniversário da Reforma de Lutero. Nos últimos meses, falou-se da hipótese de admissão de erros de ambas as partes, mas as dificuldades a serem superadas serão enormes. O senhor considera que algo deva ser feito para testemunhar a unidade dos cristãos?

Timothy Radcliffe: Essa é uma oportunidade maravilhosa para trabalhar pela unidade de todos os cristãos. Para nós, como católicos, essa deve ser considerada uma prioridade especial. O catolicismo dá uma grande importância à unidade da Igreja como sinal e sacramento de unidade de toda a humanidade em Cristo no Reino, como está expressado na Lumen Gentium.

Já fizemos muito admitindo os erros de ambas as partes e para redescobrir a nossa unidade fundamental da fé. Luteranos e católicos chegaram ao acordo de que não existem divisões de fato sobre a questão da salvação somente pela fé. O grande desafio para nós será, então, o de entender o sentido de unidade. Para os católicos, precisamos encontrar um modo para que a figura do papa possa servir à unidade de todos os cristãos, em vez de ser vista como um obstáculo.

O Papa João Paulo II era profundamente consciente desse desafio e nos pediu para refletir sobre ele. O papado não pode nos levar juntos para a unidade se for visto como uma espécie de monarquia. Como eu disse antes, eu acredito que o Papa Francisco está tentando nos levar para além da concepção de uma monarquia papal. E isso poderia realmente se tornar um sinal de esperança ecumênica pela unidade dos cristãos.

Por outro lado, eu penso que as outras Igrejas cristãs precisam entender a importância da unidade doutrinal. Em muitas Igrejas ainda vigora o pressuposto equivocado segundo o qual doutrinas e dogmas são arrogantes e intolerantes. Ao invés, precisamos mostrar a beleza da nossa doutrina, como libertadora das nossas mentes sempre para a busca contínua de uma maior compreensão do mistério de Deus e da salvação.

Se o senhor tivesse que redigir a agenda do papa sobre as ações a serem tomadas para revitalizar a Igreja, o que o senhor colocaria nos três primeiros lugares?

Timothy Radcliffe: 
[1º] Acho que é preciso deslocar o centro de gravidade da Igreja para mais perto das Igrejas locais [as dioceses]. Os bispos precisam ver reconhecida a confiança para tomar decisões sem se sentirem sempre observados de cima por parte de Roma.

[2º] Em segundo lugar, na Igreja antiga, havia uma sensação muito forte de que o bispo devia vir da Igreja local: escolhido pela Igreja local e aceito por ela. Com efeito, por muitos séculos, seria totalmente impensável que os bispos pudessem ser simplesmente nomeados por Roma sem o consentimento da Igreja local. Certamente, eu sei bem que o abandono dessa tradição, em certa medida, foi causado pela luta da Igreja para manter a sua liberdade diante do desejo de reis e imperadores e, nas últimas décadas do século passado, dos governos comunistas, todos com a intenção de obter o controle sobre a Igreja e de privá-la da sua liberdade. Uma certa centralização era necessária para que a Igreja permanecesse livre.

Mas agora eu acredito justamente que chegou o momento de voltar para o papel determinante da Igreja local na escolha do próprio bispo. Eu também me pergunto se é bom para os bispos ser transferidos de uma diocese para a outra. Eles usam um anel que é um sinal do seu ser "casados" com a diocese, mas muitas vezes são separados das suas dioceses originais e casados com outras dioceses. Se eles soubessem, ao invés, que permaneceriam em suas dioceses, então poderiam prestar toda a sua atenção. É realmente estranho que se permita que os bispos se divorciem das suas dioceses, mas não se permita às pessoas unidas em matrimônio!

[3º] E, em terceiro lugar, precisamos recuperar a forma de governo que era típica dos primeiros séculos do catolicismo, que era uma forma tipicamente sinodal. Por séculos, as decisões importantes foram tomadas dentro de sínodos. Sim, devemos redescobrir uma gestão sinodal da Igreja.
JOHN HENRY NEWMAN (1801-1890)

O que poderia trazer uma maior colegialidade dentro da Igreja? Entre papa e bispos, mas também com os leigos, que também têm o direito de se expressar como batizados e filhos de Deus...

Timothy Radcliffe: A Igreja não é uma monarquia e não é uma democracia. É a comunhão daqueles que são convocados em comunidade pela Palavra do Senhor. Precisamos identificar modalidades de escuta comunitária da Palavra de Deus: ouvindo o Senhor e ouvindo reciprocamente uns aos outros. O beato John Henry Newman, um dos teólogos preferidos do Papa Bento XVI, falou das várias autoridades na Igreja, a da hierarquia, a da razão e da experiência de Deus na oração. Tudo isso nos guia quando ouvimos juntos a Palavra do Senhor. Portanto, precisamos reviver a antiga tradição dos sínodos, em que todo o povo de Deus se reunia para ouvir uns aos outros, assim como se buscava juntos discernir a vontade de Deus.

Se o senhor pudesse formular um pedido a cada uma dessas pessoas, o que o senhor diria: ao papa, aos bispos, aos religiosos e religiosas, aos sacerdotes, aos teólogos e teólogas, aos leigos e leigas (famílias, mulheres, jovens...)?

Timothy Radcliffe: Eu certamente não pretendo fazer pedidos, mas só expressar a minha esperança. O Papa Francisco é um homem maravilhoso, e todos nós fomos abençoados pela sua eleição. A minha esperança é que ele continue assim como começou e que mantenha viva a sua alegria.

A minha esperança é que os bispos ouçam o Espírito Santo, que se derrama sobre todo o povo de Deus. Os bispos são ordenados para ensinar, e um bom ensinamento sempre envolve uma escuta profunda, tanto com relação a Deus, quanto com o seu povo.

Para os padres, a minha esperança é que se deem conta dia após dia de serem ministros da vida plena de Cristo, e que, portanto, precisamos nos deixar tocar pelos dramas da vida cotidiana das pessoas. Devemos, como disse o papa, sentir o cheiro das nossas ovelhas.

A minha esperança é que os teólogos e teólogas permaneçam sempre abertos com relação àqueles com os quais não compartilham as opiniões, mostrando a grandeza dos seus corações e das suas mentes. Não há verdade sem caridade, nem caridade sem verdade.

A minha esperança é que os leigos e leigas cresçam na consciência da beleza da sua vocação de batizados e batizadas. Não há vocação maior. É por isso que eu escrevi o meu último livro, Prendi il largo! [Avancem para águas mais profundas].

O que o senhor acha que deveria ser feito para relançar a Igreja e o cristianismo em uma época de pluralismo cultural e religioso que quase se configura como um supermercado de crenças?

Timothy Radcliffe: No centro da nossa fé, não há uma escolha de consumidores, mas sim a surpreendente descoberta de que fomos "escolhidos". São João escreve: "Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados" (1Jo 4,10).

O papel dos pobres, a Igreja dos pobres são palavras do papa, mas também nada mais são do que o ensinamento do Evangelho e de todo o magistério. Como é possível que agora tudo pareça tão novo e empolgante?

Timothy Radcliffe: Pela primeira vez em décadas, estamos diante da autêntica pobreza na Europa. Na Grã-Bretanha, um país economicamente bom, meio milhão de pessoas têm que contar em bancos solidários de alimentos para sobreviver. E mesmo assim se assiste a uma crescente tendência a desprezar os pobres. Diante da efetiva escassez de postos de trabalho, a opinião pública tem a impressão de que não é culpa deles, que não querem trabalhar ou que são preguiçosos.

E assim a Igreja tem a extraordinária missão de abrir os olhos de todos sobre a dignidade dos pobres, que são a nossa carne e o nosso sangue, e abrir os nossos ouvidos para ouvir o que eles dizem e como vivem. Caso contrário, a sociedade europeia poderia realmente acabar se despedaçando, e as consequências seriam terríveis.

A Igreja muitas vezes é vista como uma organização que promove batalhas morais ou políticas: como restituir ao testemunho evangélico o fato de ser fermento na sociedade? As pessoas se perguntam se é tão importante combater o casamento gay: se alguém não o aprova, que não o peça... parece tão simples!

Timothy Radcliffe: A Igreja deve manter uma visão moral específica, mas precisa encontrar um modo de não parecer para a maioria que está na defensiva contra a modernidade e, de certo modo, "excludente" a toda modernidade para o ser humano. Isso é difícil de se alcançar. Só se formos vistos fazendo amizade com as pessoas, estando abertos a tudo o que elas vivem, às suas esperanças e às suas lutas, seremos capazes de encontrar uma palavra de novidade e seremos capazes de falar de Deus às pessoas.

Por exemplo, podemos falar de homossexualidade e de casamento gay só na medida em que formos vistos como acolhedores com relação às pessoas homossexuais, ouvindo e apreciando a sua profunda amizade. Só em um momento posterior, teremos assim a oportunidade de ir em busca de palavras que, ao mesmo tempo, sejam fiéis ao Evangelho e autênticas para a vida das pessoas, que então as sentirão como próprias.

* Timothy Radcliffe foi Mestre Geral da Ordem Dominicana de 1992 a 2001. É doutor honoris causa em teologia pela Universidade de Oxford e renomado estudioso da Igreja e da sociedade contemporânea.

Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Segunda-feira, 27 de maior de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520458-para-alem-de-uma-visao-eurocentrica-da-igreja-entrevista-com-timothy-radcliffe