CONSAGRAÇÃO À NOSSA SENHORA APARECIDA NA VOZ DO PADRE VITOR COELHO CSsR

Ó MARIA SANTÍSSIMA, PELOS MÉRITOS DO SENHOR JESUS CRISTO QUE EM VOSSA IMAGEM MILAGROSA DE APARECIDA ESPALHAIS INÚMEROS BENEFÍCIOS SOBRE O BRASIL, EU, EMBORA INDIGNO DE PERTENCER AO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS, MAS DESEJANDO PARTICIPAR DOS BENEFÍCIOS DA VOSSA MISERICÓRDIA, PROSTRADO A VOSSOS PÉS, CONSAGRO-VOS O ENTENDIMENTO, PARA QUE SEMPRE PENSE NO AMOR QUE MERECEIS. CONSAGRO-VOS A LÍNGUA, PARA QUE SEMPRE VOS LOUVE E PROPAGUE A VOSSA DEVOÇÃO.CONSAGRO-VOS O CORAÇÃO, PARA QUE, DEPOIS DE DEUS, VOS AME SOBRE TODAS AS COUSAS.RECEBEI-NOS, Ó RAINHA INCOMPARÁVEL, QUE NOSSO CRISTO CRUCIFICADO DEU-NOS POR MÃE, NO DITOSO NÚMERO DOS VOSSOS SERVOS. ACOLHEI-NOS DEBAIXO DA VOSSA PROTEÇÃO. SOCORREI-NOS EM NOSSAS NECESSIDADES ESPIRITUAIS E TEMPORAIS E, SOBRETUDO, NA HORA DA NOSSA MORTE. ABENÇOAI-NOS Ó MÃE CELESTIAL, E COM VOSSA PODEROSA INTERCESSÃO FORTALECEI-NOS EM NOSSA FRAQUEZA, A FIM DE QUE, SERVINDO-VOS FIELMENTE NESTA VIDA, POSSAMOS LOUVAR-VOS, AMAR-VOS E RENDER-VOS GRAÇAS NO CÉU, POR TODA A ETERNIDADE. ASSIM SEJA! ...PELA INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA APARECIDA, RAINHA E PADROEIRA DO BRASIL, A BÊNÇÃO DE DEUS ONIPOTENTE, PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO, DESÇA SOBRE VÓS E PERMANEÇA SEMPRE.AMÉM!

ATUALIZAÇÃO



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22 de fevereiro de 2015

A Palavra de Deus na vida - Homilia

1º Domingo da Quaresma – Ano B – Homilia
Posted: 21 Feb 2015 11:02 AM PST
Evangelho: Marcos 1,12-15

Naquele tempo:
12 O Espírito levou Jesus para o deserto.
13 E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.
14 Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo:
15 “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
EMPURRADOS PARA O DESERTO

Marcos apresenta a cena de Jesus no deserto como um resumo de sua vida. Destaco algumas pistas. Segundo o evangelista, o Espírito empurra Jesus para o deserto. Não é uma iniciativa sua. É o Espírito de Deus que o desloca até coloca-lo no deserto: a vida de Jesus não será um caminho de sucesso fácil; mas o aguardam provações, insegurança e ameaças.

Porém, o “deserto” é, ao mesmo tempo, o melhor lugar para escutar, em silêncio e solidão, a voz de Deus. O lugar ao qual se deve voltar, em tempos de crise, para abrir caminhos ao Senhor no coração do povo. Assim se pensava na época de Jesus.

No deserto, Jesus é tentado por Satanás. Nada se diz do conteúdo das tentações. Somente, que elas provêm de “Satanás”, o Adversárioque busca a ruína do ser humano destruindo o plano de Deus. Ele não voltará mais a aparecer em todo o evangelho de Marcos. Jesus o vê atuando em todos aqueles que desejam desviá-lo de sua missão, incluindo Pedro.

O breve relato termina com duas imagens em forte contraste: Jesus vive entre as feras, porém os anjos o servem. As “feras”, os seres mais violentos da criação, evocam os perigos que ameaçam sempre a Jesus e seu projeto. Os “anjos”, os seres melhores da criação, evocam a proximidade de Deus que abençoa, cuida e defenda Jesus e sua missão.

O cristianismo está vivendo momentos difíceis. De acordo com os estudos sociológicos, nós falamos de crise, secularização, rejeição por parte do mundo moderno... Porém, talvez, a partir de uma leitura de fé, temos de dizer algo mais:

·        Não será Deus que nos está empurrando para este “deserto”?
·        Não necessitávamos de algo assim para libertar-nos de tanta vanglória, poder mundano, vaidade e falsos êxitos acumulados inconscientemente durante tantos séculos?

Jamais nós teríamos escolhidos esses caminhos!

Esta experiência de deserto, que irá crescer nos próximos anos, é um tempo inesperado de graça e purificação que temos de agradecer a Deus. Ele seguirá cuidando de seu projeto. Somente nos pede para rejeitar, com lucidez, as tentações que nos podem desviar, mais uma vez, da conversão a Jesus Cristo.

CONVERTER-SE FAZ BEM

O chamado à conversão evoca em nós, quase sempre, a recordação do esforço exigente e o rasgão próprio de todo trabalho de renovação e purificação. No entanto, as palavras de Jesus: Convertei-vos e crede na Boa Notícia, nos convidam a descobrir a conversão como um passo em direção a uma vida mais plena e gratificante.

O evangelho de Jesus nos vem dizer algo que nunca devemos esquecer: “É bom converter-se, nos faz bem. Permite-nos experimentar um modo novo de viver, mais sadio, mais alegre”. Alguém se perguntará: Porém, como viver essa experiência? Que passos devemos dar?

A primeira coisa é parar. Não ter medo de ficarmos sozinhos conosco mesmos para fazermos as perguntas importantes da vida: Quem sou eu? O que estou fazendo com a minha vida? É isto a única coisa que quero viver?

Este encontro comigo mesmo exige sinceridade. O importante é não seguir enganando-se a si mesmo por mais tempo. Buscar a verdade do que estamos vivendo. Não se esforçar em ocultar o que somos e em parecer o que não somos.

É provável que experimentemos, então, o vazio e a mediocridade. Aparecem, diante de nós, atuações e posturas que estão arruinando nossa vida. Não é isso o que havíamos desejado. No fundo, queremos viver algo melhor e mais alegre.

Descobrir como estamos prejudicando nossa vida não tem porque afundarmos no pessimismo ou no desespero. Esta consciência do pecado é saudável. Dignifica-nos e nos ajuda a recuperar a autoestima pessoal. Não é mau e ruim em nós. Dentro de cada um está sempre operando uma força que nos atrai e empurra para o bem, o amor e a bondade.

A conversão exigirá de nós, sem dúvida, introduzir mudanças concretas em nossa maneira de atuar. Porém, a conversão não consiste nessas mudanças. Ela, mesma, é a mudança. Converter-se é mudar o coração, adotar uma postura nova na vida, tomar uma direção mais sadia.

Todos aqueles que creem e não creem podem dar os passos até aqui evocados. A sorte do crente é poder viver esta experiência, abrindo-se confiantemente a Deus. Um Deus que se interessa por mim mais que eu mesmo, para resolver não os meus problemas, mas “o problema”, essa vida minha medíocre e fracassada que parece não ter solução. Um Deus que me entende, me espera, me perdoa e quer ver-me viver de maneira mais plena, alegre e gratificante.

Por isso, aquele que crê vive sua conversão invocando Deus com as palavras do salmista: “Tem misericórdia de mim, ó Deus segundo a tua bondade. Lava-me completamente de minha culpa, limpa meu pecado. Cria em mim um coração puro. Renova-me por dentro. Devolve-me a alegria de tua salvação” (Salmo 50).

A Quaresma pode ser um tempo decisivo para iniciar uma vida nova.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías)

15 de fevereiro de 2015

A Palavra de Deus na Vida - Homilia

6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 1,40-45

Naquele tempo:
40 Um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres tens o poder de curar-me”.
41 Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!”.
42 No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado.
43 Então Jesus o mandou logo embora,
44 falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!”.
45 Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
DEUS ACOLHE OS “IMPUROS”

De forma inesperada, um leproso aproxima-se de Jesus. Segundo a lei, [o leproso] não pode entrar em contato com ninguém. É um “impuro” e deve ficar isolado. Tampouco, pode entrar no Templo. Como Deus pode acolher em sua presença um ser tão repugnante? Seu destino é viver excluído. Assim estabelece a lei.

Apesar de tudo isso, este leproso desesperado atreve-se a desafiar todas as normas. Sabe que está fazendo algo errado. Por isso, se põe de joelhos. Não se arrisca a falar com Jesus de frente. Do chão, lhe faz essa súplica: Se queres, podes limpar-me. Ele sabe que Jesus pode curá-lo, porém desejará limpá-lo? Jesus se atreverá tirá-lo da exclusão a qual está submetido em nome de Deus?

Surpreende a emoção que a aproximação do leproso produz em Jesus. Ele não fica horrorizado nem recua. Diante da situação daquele pobre homem, comove-se até as entranhas. A ternura transborda. Como não irá querer limpá-lo, uma vez que ele vive movido pela compaixão de Deus para seus filhos e filhas mais indefesos e desprezados?

Sem hesitar, estende a mão para aquele homem e toca sua pela desprezada pelos puros. Jesus sabe que está proibido pela lei e que, com este gesto, está reafirmando a transgressão iniciada pelo leproso. Somente a compaixão o move: Quero: fica limpo.

Isto é o que quer o Deus encarnado em Jesus: limpar o mundo de exclusões que vão contra sua compaixão de Pai. Não é Deus quem exclui, mas nossas leis e instituições. Não é Deus quem marginaliza, mas nós. Daqui em diante, todos deverão ter claro que não se deve excluir ninguém em nome de Jesus.

Seguir Jesus significa não nos horrorizarmos diante de nenhum impuro ou impura. Não recusar a nenhum “excluído” a nossa acolhida. Para Jesus, em primeiro lugar está a pessoa que sofre e não a norma [a lei]. Colocar, sempre, a norma à frente é a melhor maneira de ir perdendo a sensibilidade de Jesus pelos desprezados e rejeitados. A melhor maneira de viver sem compaixão.

Em poucos lugares é mais reconhecível o Espírito de Jesus do que nas pessoas que oferecem apoio e amizade gratuitos a prostitutas indefesas, que acompanham psicóticos esquecidos por todos, que defendem homossexuais que não podem viver, dignamente, sua condição... Essas pessoas nos recordam que no coração de Deus cabem todos.

EXPERIÊNCIA SADIA DA CULPA

Não há necessidade de ter lido muito Sigmund Freud para ver como uma falsa exaltação de culpa invadiu, deu a tonalidade e muitas vezes perverteu a experiência religiosa de não poucos fiéis. Basta nomear Deus a essas pessoas para que o associem, imediatamente, a sentimentos de culpa, remorso e temor de castigos eternos. A recordação de Deus lhes faz sentir-se mal.

Parece que Deus está sempre ali para recordar-nos a nossa indignidade. Não se pode apresentar-se diante dele se não se humilha, antes, a si mesmo. É o passo obrigatório. Essas pessoas somente se sentem seguras perante Deus, repetindo incessantemente: “Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa”.

Essa maneira de viver diante de Deus é pouco sadia. Essa “culpa perseguidora”, além de ser estéril, pode destruir a pessoa. O indivíduo, facilmente, acaba centrando tudo em sua culpa. É a culpa aquilo que mobiliza sua experiência religiosa, suas orações, ritos e sacrifícios. Uma tristeza e um mal-estar secreto se instalam, então, no centro de sua religião. Não é estranho que pessoas que tenham tido uma experiência tão negativa, um dia abandonem tudo.

Entretanto, não é esse o caminho mais correto para a cura. É um erro eliminar o sentimento de culpa. Carl Gustav Jung e Carlos Castilla del Pino, entre outros, nos advertiram dos perigos que encerra a negação da culpa. Viver “sem culpa” seria viver desorientado no mundo dos valores. O indivíduo que não sabe registrar o dano que está fazendo a si mesmo e aos outros nunca se transformará nem crescerá como pessoa.

Há um sentimento de culpa que é necessário para construir a vida, porque introduz uma autocrítica saudável e fecunda, põe em marcha uma dinâmica de transformação e leva a viver melhor e com mais dignidade.

Como sempre, o importante é saber em qual Deus alguém crê. Se Deus é um ser exigente e sempre insatisfeito, que tudo controla com olhos de juiz vigilante sem que nada lhe escape, a fé nesse Deus poderá gerar angústia e impotência diante da perfeição nunca alcançada. Se Deus, pelo contrário, é o Deus vivo de Jesus Cristo, o amigo da vida e aliado da felicidade humana, a fé nesse Deus produzirá um sentimento de culpa sadio e curador, que impulsionará a viver de forma mais digna e responsável.

A oração do leproso a Jesus pode ser estímulo para uma invocação confiante a Deus a partir da experiência de culpa: Se queres, podes limpar-me. Esta oração é reconhecimento de culpa, porém é, também, confiança na misericórdia de Deus e desejo de transformar a vida.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola

4 de janeiro de 2015

A Palavra de Deus na vida - Homilia

Epifania do Senhor – Ano B

Evangelho: Mateus 2,1-12

1Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém,
2 perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.”
3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém.
4 Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer.
5 Eles responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta:
6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo.”
7 Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido.
8 Depois os enviou a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo.”
9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino.
10 Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande.
11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.
12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
A QUEM ADORAMOS

Os magos vêm do "Oriente", um lugar que evoca nos judeus a pátria da astrologia e de outras ciências estranhas. São pagãos. Não conhecem as Escrituras Sagradas de Israel, porém a linguagem das estrelas. Buscam a verdade e se põem em marcha para descobri-la. Deixam-se guiar pelo mistério, sentem necessidade de "adorar".

A presença deles provoca um sobressalto em toda Jerusalém. Os magos viram brilhar uma estrela nova que lhes fez pensar que havia nascido "o rei dos judeus" e vêm para "adorá-lo". Este rei não é Augusto. Tampouco, Herodes.

Onde está? Esta é a pergunta deles e Herodes se "perturba". A notícia não lhe produz nenhuma alegria. Ele é quem foi designado por Roma como "rei dos judeus". Ele tem de acabar com o recém-nascido: onde está esse rival estranho? Os "sumos sacerdotes e letrados" conhecem as Escrituras e sabem que deve nascer em Belém, porém não se interessam pelo menino nem se colocam em marcha para adorá-lo.

Isto é o que encontrará Jesus ao longo de sua vida: hostilidade e rejeição nos representantes do poder político; indiferença e resistência nos dirigentes religiosos. Somente aqueles que buscam o reino de Deus e a sua justiça o acolherão.

Os magos prosseguem sua grande busca. Às vezes, a estrela que os guia desaparece, deixando-os na incerteza. Outras vezes, brilha novamente enchendo-os de "imensa alegria". Finalmente, encontram-se com o Menino, e "caindo de joelhos o adoram". Depois, colocam ao seu serviço as riquezas que têm e os tesouros mais valiosos que possuem. Este Menino pode contar com eles, pois o reconhecem como seu Rei e Senhor.

Em sua aparente ingenuidade, este relato nos põe perguntas decisivas:

·        Diante de quem nos ajoelhamos?
·        Como se chama o "deus" que adoramos no fundo de nosso ser?
·        Falamos que somos cristãos, porém vivemos adorando o Menino de Belém?
·        Colocamos aos seus pés nossas riquezas e nosso bem-estar?
·        Estamos dispostos a escutar seu chamado para entrar no Reino de Deus e sua justiça?

Em nossa vida, sempre há alguma estrela que nos guia para Belém.

MATAR OU ADORAR

Herodes e sua corte de Jerusalém representam o mundo dos poderosos. Tudo vale, neste mundo, a fim de assegurar o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale, inclusive, a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição dos inocentes. É um mundo que conhecemos bem, pois respiramos sua atmosfera até a náusea. Parece um mundo grande e poderoso, se nos apresenta como defensor da ordem e da justiça, porém é fraco e mesquinho, pois termina sempre buscando o menino “para matá-lo”.

Segundo o relato de Mateus, uns magos vindos do Oriente irrompem neste mundo de trevas. Alguns estudiosos da Bíblia interpretam, atualmente, a legenda evangélica lançando mão da psicologia do profundo:

·        Os magos representam o caminho que seguem aqueles que escutam os anseios mais nobres do coração humano;
·        a estrela que os guia é a saudade do divino;
·        o caminho que percorrem é o desejo.
Para descobrir o divino no humano, para adorar o menino em vez de buscar a sua morte, para reconhecer a dignidade do ser humano ao invés de destruí-la, deve-se percorrer um caminho muito diferente daquele que segue Herodes.

Não é um caminho fácil. Não basta escutar o apelo do coração; deve-se colocar-se em marcha, expor-se, correr riscos. O gesto final dos magos é sublime. Não matam o menino, mas o adoram. Inclinam-se, respeitosamente, diante de sua dignidade; veem resplandecer nele a estrela de Deus; descobrem o divino no humano. É a mensagem central do Filho de Deus encarnado no menino de Belém.

Podemos vislumbrar, também, o significado simbólico dos presentes que oferecem:

·        Com o ouro reconhecem a dignidade e o valor inestimável do ser humano; tudo deve ficar subordinado à sua felicidade. Uma criança merece que se ponham a seus pés todas as riquezas do mundo.
·        O incenso recolhe o desejo de que a vida da criança se desapegue e sua dignidade se eleve até o céu. Todo ser humano é chamado a participar da vida mesma de Deus.
·        A mirra é remédio para curar a enfermidade e aliviar o sofrimento. O ser humano necessita de cuidados e consolo, não de violência e agressão.

Com sua atenção ao fraco e sua ternura para com o humilhado, este Menino introduzirá no mundo a magia do amor, única força de salvação, que até hoje faz tremer o poderoso Herodes.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelan – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B [Homilías]

28 de dezembro de 2014

A Palavra de Deus na vida - Homilia

Sagrada Família de Jesus - Ano B - Homilia

Evangelho: Lucas 2,22-40

22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor.
23 Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor.”
24 Foram também oferecer o sacrifício - um par de rolas ou dois pombinhos - como está ordenado na Lei do Senhor.
25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele
26 e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor.
27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava,
28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus:
29 “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz;
30 porque meus olhos viram a tua salvação,
31 que preparaste diante de todos os povos:
32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel.”
33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele.
34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição.
35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma.”
36 Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido.
37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações.
38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade.
40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
SINAL DE CONTRADIÇÃO

Simeão é um personagem cativante. Nós o imaginamos, quase sempre, como um sacerdote ancião do Templo, porém nada disto nos é dito pelo texto. Simeão é um homem bom do povo que conserva em seu coração a esperança de ver, um dia, “a consolação” que tanto necessitam. “Impulsionado pelo Espírito de Deus”, sobe ao templo no momento em que estão entrando Maria, José e seu menino Jesus.

O encontro é comovedor. Simeão reconhece no menino que aquele casal pobre de judeus piedosos traz consigo o Salvador que há tantos anos passou esperando. O homem se sente feliz. Em um gesto atrevido e maternal, “toma o menino em seus braços” com grande amor e carinho. Bendiz a Deus e abençoa os pais. Sem dúvida, o evangelista apresenta-o como modelo. Assim devemos acolher o Salvador.

No entanto, de repente, dirige-se a Maria e seu rosto muda. Suas palavras não prenunciam nada tranquilizador: “Uma espada transpassará tua alma”. Este menino que tens em teus braços será um “sinal de contradição”: fonte de conflitos e enfrentamentos. Jesus fará que “uns caiam e outros se levantem”. Alguns o acolherão e sua vida adquirirá uma dignidade nova: sua existência se encherá de luz e de esperança. Outros o rejeitarão e sua vida se arruinará. A rejeição a Jesus será sua ruína.

Ao posicionar-se perante Jesus, “ficará clara a atitude de muitos corações”. Ele porá a descoberto o que há de mais profundo nas pessoas. A acolhida deste menino pede uma mudança profunda. Jesus não vem trazer tranquilidade, mas dar início a um processo doloroso e conflitivo de conversão radical.

Sempre é assim. Também hoje. Uma Igreja que leve a sério sua conversão a Jesus Cristo, não será jamais um espaço de tranquilidade, mas de conflito. Não é possível uma relação mais vital com Jesus sem dar passos para maiores níveis de verdade. E isso é sempre doloroso para todos.

Quanto mais nos aproximamos de Jesus, melhor vemos nossas incoerências e desvios; o que há de verdade ou de mentira em nosso cristianismo; o que há de pecado em nossos corações e nossas estruturas, em nossas vidas e nossas teologias [modos de compreender e falar de Deus].

QUE FAMÍLIA!

Hoje se fala muito de crise da instituição familiar. Certamente, a crise é grave. Porém, não é lícito sermos catastróficos. Mesmo que estejamos sendo testemunhas de uma verdadeira revolução na conduta familiar, e muitos pregaram a morte de diversas formas tradicionais de família, ninguém anuncia hoje, seriamente, o desaparecimento da família.

Ao contrário, a história parece ensinar-nos que, nos tempos difíceis, se estreitam ainda mais os laços familiares. A abundância separa os homens. A crise e a penúria os unem. Diante do pressentimento de que vamos viver tempos difíceis, são muitos que prenunciam um novo renascer da família.

Frequentemente, o desejo sincero de muitos cristãos em imitar a sagrada família de Nazaré favoreceu o ideal de uma família fundamentada na harmonia e na felicidade do próprio lar. Sem dúvida, é necessário também hoje promover a autoridade e responsabilidade dos pais, a obediência dos filhos, o diálogo e a solidariedade familiar. Sem estes valores, a família fracassará.

Porém, nem toda família corresponde às exigências do Reino de Deus colocadas por Jesus. Há famílias abertas ao serviço da sociedade, e famílias egoisticamente voltadas para si mesmas. Famílias autoritárias e famílias de espírito dialogal. Famílias que educam no egoísmo e famílias que ensinam solidariedade.

Concretamente, no contexto da grave crise econômica que estamos padecendo, a família pode ser uma escola de dessolidarização na qual o egoísmo familiar se converte em virtude e critério de atuação que configurará o comportamento social dos filhos. E pode ser, por outro lado, um lugar em que o filho ou a filha possa recordar-se que todos temos um Pai comum, e que o mundo não termina nas paredes da própria casa.

Por isso, não podemos celebrar, de modo responsável, a festa da Sagrada Família, sem escutar o desafio à nossa fé. Nossos lares serão um lugar onde as novas gerações escutarão o chamado do evangelho à fraternidade universal, à defesa dos abandonados, e à busca de uma sociedade mais justa, ou se converterão na escola mais eficaz de dessolidariedade, inibição e passividade egoísta diante dos problemas alheios?

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana (Bizkaia) – Espanha – J. A. Pagola Ciclo B [Homilías]

7 de dezembro de 2014

A Palavra de Deus na Vida - Homilia

2º Domingo do Advento – Ano B – Homilia
 
Evangelho: Marcos 1,1-8



1 Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
2 Está escrito no livro do profeta Isaías: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho.
3 Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’''
4 Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados.
5 Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão.
6 João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo.
7 E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias.
8 Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo.”

JOSÉ ANTONIO PAGOLA


CONFESSAR NOSSOS PECADOS


Início da Boa Notícia de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Este é o início solene e alegre do evangelho segundo Marcos. Porém, em seguida, de maneira abrupta e sem advertência alguma, começa a falar da urgente conversão que necessita viver todo o povo para acolher seu Messias e Senhor.

No deserto aparece um profeta diferente. Vem para “preparar o caminho do Senhor”. Este é o seu grande serviço a Jesus. Seu apelo não se dirige, somente, à consciência individual de cada um. Aquilo que João busca vai mais além da conversão moral de cada pessoa. Trata-se de “preparar o caminho do Senhor”, um caminho concreto e bem definido, o caminho que Jesus seguirá frustrando as expectativas convencionais de muitos.

A reação do povo é comovedora. Segundo o evangelista, deixam a Judeia e Jerusalém e caminham para o “deserto” a fim de escutar a voz que os chama. O deserto recorda-lhes sua antiga fidelidade a Deus, seu amigo e aliado, porém, sobretudo, é o melhor lugar para escutar o apelo à conversão.

Ali o povo toma consciência da situação em que vive; experimenta a necessidade de mudar; reconhece seus pecados sem jogar a culpa uns nos outros; sente necessidade de salvação. Segundo Marcos, “confessavam seus pecados e João os batizava”.

A conversão que necessita nosso modo de viver o cristianismo não pode ser improvisada. Requer um longo tempo de recolhimento e trabalho interior. Passarão anos até que sejamos mais verdadeiros na Igreja e reconheçamos a conversão que necessitamos para acolher, mais fielmente, Jesus Cristo no centro de nosso cristianismo.

Esta pode ser hoje a nossa tentação. Não ir ao “deserto”. Burlar a necessidade de conversão. Não escutar nenhuma voz que nos convide a mudar. Distrair-nos com qualquer coisa para esquecer nossos medos e disfarçar nossa falta de coragem para acolher a verdade de Jesus Cristo.

A imagem do povo judeu “confessando seus pecados” é admirável. Os cristãos não necessitam, hoje, fazer um exame de consciência coletivo, em todos os níveis, para reconhecer erros e pecados? Sem este reconhecimento é possível “preparar o caminho do Senhor”?

O CAMINHO ABERTO POR JESUS

Não poucos cristãos praticantes compreendem sua fé como uma “obrigação”. Há um conjunto de crenças que se “devem” aceitar, ainda que alguém não conheça seu conteúdo nem saiba o interesse que possam ter para sua vida; há, também, um código de leis que se “deve” observar, ainda que não se entenda bem tanta exigência de Deus; há, por último, umas práticas religiosas que se “devem” cumprir, ainda que de maneira rotineira.

Esta maneira de entender e viver a fé gera um tipo de cristão aborrecido, sem desejo de Deus e sem criatividade nem paixão alguma por difundir sua fé. Basta “cumprir”. Esta religião não tem atração alguma; converte-se em um peso difícil de suportar; a não poucos causa alergia. Não estava equivocada Simone Weil* quando escrevia que “onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres criaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”.

Nas primeiras comunidades cristãs as coisas foram vividas de outra maneira. A fé cristã não era entendida como um “sistema religioso”. Chamavam-na “caminho” e o propunham como a vida mais correta para viver com sentido e esperança. Dizia-se que era um “caminho novo e vivo” que “foi inaugurado por Jesus para nós”, um caminho que se percorre “com os olhos fixos nele” (Hebreus 10,20; 12,2).

É de grande importância, tomar consciência de que a fé é um caminho e não um sistema religioso. E no caminho há de tudo: caminhada alegre e momentos de busca, provas que se deve superar e retrocessos, decisões inevitáveis, dúvidas e interrogações. Tudo é parte do caminho: também as dúvidas, que podem ser mais estimulantes que não poucas certezas e seguranças possuídas de forma rotineira e simplista.

Cada um deve fazer seu próprio caminho. Cada um é responsável pela “aventura” de sua vida. Cada um tem seu próprio ritmo. Não há de se forçar nada. No caminho cristão há etapas: as pessoas podem viver momentos e situações diferentes. O importante é “caminhar”, não deter-se, escutar o chamado que a todos é feito para viver de maneira mais digna e feliz. Este pode ser o melhor modo de “preparar o caminho do Senhor” [Mc 1,3].

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

* Simone Adolphine Weil (Paris, 3 de fevereiro de 1909 — Ashford, 24 de agosto de 1943) foi uma escritora, mística e filósofa francesa, tornou-se operária da Renault para escrever sobre o cotidiano dentro das fábricas (para saber mais, clique aqui).

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana (Bizkaia – Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B

30 de novembro de 2014

A Palavra de Deus na vida - Homilia

1º Domingo do Advento – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 13,33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
33 “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento.
34 É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando.
35 Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer.
36 Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo.
37 O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

SEMPRE É POSSÍVEL REAGIR

Nem sempre é o desespero que destrói em nós a esperança e o desejo de seguir caminhando, dia a dia, cheios de vida. Ao contrário, pode-se dizer que a esperança vai se diluindo em nós, quase sempre, de modo silencioso e imperceptível.
Talvez, sem nos darmos conta, nossa vida vai perdendo cor e intensidade. Pouco a pouco parece que tudo começa a ser pesado e aborrecido. Vamos fazendo, mais ou menos, o que temos de fazer, porém a vida não nos “preenche”.

Um dia comprovamos que a verdadeira alegria foi desaparecendo de nosso coração. Não somos mais capazes de saborear o bom, o belo e a grandeza que há na existência.

Pouco a pouco, tudo foi se complicando. Talvez, já não mais esperamos grande coisa da vida nem de ninguém. Não cremos mais, sequer, em nós mesmos. Tudo nos parece inútil e sem mais sentido.

A amargura e o mau humor se apoderam de nós cada vez com mais facilidade. Não mais cantamos. De nossos lábios não saem que sorrisos forçados. Há algum tempo deixamos de rezar.

Talvez, comprovamos com tristeza que o nosso coração foi se endurecendo e, hoje, não queremos bem a mais ninguém de verdade. Incapazes de acolher e escutar a quem encontramos, cotidianamente, em nosso caminho, somente sabemos nos queixar, condenar e desqualificar.

Aos poucos, caímos no ceticismo, na indiferença ou na “preguiça total”. Cada vez com menos forças para tudo aquilo que exija esforço e superação, não mais queremos correr novos riscos. Não vale a pena. Preocupados com muitas coisas que nos pareciam importantes, a vida nos foi escapando. Envelhecemos interiormente e algo está a ponto de morrer dentro de nós. O que podemos fazer?

Primeiramente, despertar e abrir os olhos. Todos esses sintomas são indício claro de que temos a vida mal colocada. Esse mal-estar que sentimos é o sinal de alerta que começou a tocar dentro de nós.

Nada está perdido. Não podemos, imediatamente, sentir-nos bem conosco mesmos, porém podemos reagir. Devemos nos perguntar sobre o que descuidamos até agora, o que temos de mudar, ao que devemos dedicar mais atenção e mais tempo. As palavras de Jesus são dirigidas a todos: “Vigiai”. Talvez, hoje mesmo, temos de tomar alguma decisão.


UMA IGREJA ACORDADA


As primeiras gerações cristãs viveram obcecadas pela imediata vinda de Jesus. O ressuscitado não poderia tardar. Viviam tão atraídos por ele que desejavam encontrar-se de novo o quanto antes. Os problemas começaram quando viram que o tempo passava e a vinda do Senhor demorava.

Logo se deram conta de que esta demora continha um perigo mortal. Podia-se apagar o primeiro ardor. Com o tempo, aquelas pequenas comunidades podiam cair, pouco a pouco, na indiferença e no esquecimento. Preocupava-lhes uma coisa: “Que, ao chegar, Cristo não os encontrasse adormecidos”.

A vigilância se converteu na palavra chave. Os evangelhos a repetem constantemente: “vigiai, estais alertas”, vivei despertos. Segundo Marcos, a ordem de Jesus não é somente para os discípulos que lhe estão escutando. O que vos digo, digo a todos: “Vigiai”. Não é um apelo a mais. A ordem é para todos seus seguidores de todos os tempos.

Passaram-se mais de vinte séculos de cristianismo. O que houve com este apelo de Jesus? Como os cristãos de hoje vivem? Seguimos acordados? Mantém-se viva a nossa fé ou se foi apagando na indiferença e mediocridade?

Não vemos que a Igreja necessita de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudirmos a apatia e o autoengano?

Não despertaremos o melhor que existe na Igreja? Não reavivaremos essa fé humilde e pura de tantos crentes simples?

Não recuperaremos o rosto vivo de Jesus, que atrai, chama, interpela e desperta? Como podemos seguir falando, escrevendo e discutindo tanto sobre Cristo, sem que a sua pessoa nos enamore e nos transforme um pouco mais? Não nos damos conta de que uma Igreja “adormecida” à Jesus Cristo não seduz nem toca o coração, é uma Igreja sem futuro, que irá se apagar e envelhecer por falta de vida?

Não sentimos necessidade de despertar e intensificar nossa relação com Jesus Cristo? Quem, como ele, pode despertar nosso cristianismo da imobilidade, da inércia, do peso do passado, da falta de criatividade? Quem poderá contagiar-nos com sua alegria? Quem nos dará sua força criadora e sua vitalidade?

A Igreja não pode esquecer hoje “a responsabilidade da esperança”, pois essa é a missão que recebeu de Cristo. Antes que “lugar de culto” ou “instância moral”, a Igreja há de se compreender e viver como “comunidade da esperança”.

Uma esperança que não é uma utopia a mais, nem uma reação desesperada diante das crises e incertezas do momento.

Uma esperança que se fundamenta em Cristo ressuscitado, nele aqueles que acreditam descobrem o futuro último que espera a humanidade, o caminho que podemos e devemos percorrer para sua plena humanização e a garantia última diante dos fracassos, da injustiça e da morte. “Velai, vigiai”.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola