ADRIANA DIAS LOPES
Aparecida - SP
A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprova um documento pioneiro com
propostas de mudanças drásticas em um dos pilares da religião católica, as paróquias
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BASÍLICA DE APARECIDA (SP) Celebração durante a 51ª Assembleia Geral da CNBB |
O clero
brasileiro acaba de tomar uma medida exemplar na Igreja Católica. Em
reunião a portas fechadas ocorrida no último dia 16 durante a 51ª
Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 361
bispos aprovaram um documento com propostas contundentes de mudanças no
exercício do catolicismo e no perfil de um dos pilares mais sólidos da
religião - as paróquias.
Intitulado “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”,
o texto sugere alterações dos mais diferentes aspectos. Do tempo de
duração das homilias ao horário das missas. De como receber bem aqueles
que não se encaixam nos sacramentos à maneira como o padre deve
evangelizar. Afirma dom Sérgio Castriani, arcebispo de Manaus e presidente da comissão que elaborou o tema: “As
paróquias precisam de uma renovação urgente. Elas devem ser um lugar de
acolhida, orientação e ajuda espiritual. Para muitos, no entanto, são
vistas apenas como prestadoras de serviços religiosos ou um lugar para
cumprir preceitos”.
Das práticas às subjetivas, as questões tratadas pela CNBB têm um fio condutor- a tentativa de a Igreja Católica voltar à sua essência. Um dos pontos mais emblemáticos refere-se à catequese. Diz o texto que a iniciação cristã deve ser autêntica, vivida de forma prática e não restrita a instruções.
Outro exemplo é a formação de novas comunidades.
Em vez de grandes paróquias, pede-se o incentivo à constituição de
pequenos grupos, nos quais as pessoas criem vínculos e se sintam
estimadas a exercitar a sua fé.
"O documento foi todo inspirado nos moldes da evangelização praticada nos primórdios do cristianismo",
declara monsenhor Antônio Luís Catelan, da Comissão Episcopal Pastoral
para a Doutrina da Fé, da CNBB. Pelos relatos bíblicos, Jesus e seus
apóstolos se aproximavam e conquistavam discípulos com uma pregação genuína e calorosa, no contato corpo a corpo, muitas vezes na casa dos fiéis.
E não por meio de cerimônias burocráticas e gélidas ou de padres
distantes da realidade das pessoas que frequentam suas igrejas, como
ocorre em muitas paróquias hoje em dia.
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| PAPA FRANCISCO beija uma criança na Praça de São Pedro - Vaticano |
Tal corrente de pensamento segue à risca os exemplos e o discurso que o papa Francisco tem mostrado em seu pontificado.
Seja na abdicação do anel de ouro (Francisco substituiu o tradicional
anel de ouro usado pelos pontífices por outro de material mais simples, a
prata dourada), seja na forma de transitar pela multidão na Praça de
São Pedro (Francisco se nega a usar o papamóvel com vidro blindado para
se aproximar dos fiéis, abraçando-os e beijando-os), seja em seus
discursos. "O sacerdote tem de ser um pastor com cheiro de suas ovelhas",
foram as palavras do papa em uma de suas homilias mais contundentes,
proferida durante missa realizada para 1600 párocos pouco antes da
Páscoa.
A Igreja há muito exige medidas eficazes de evangelização. Há trinta anos, de acordo com os dados do Censo, 89% da população brasileira se declarava católica. Agora, esse índice é de 65%. O papel da paróquia é fundamental na conquista de novos fiéis e na manutenção dos já praticantes. "Ela é a principal porta de entrada da religião católica", diz a irmã Maria Eugênia Lloris, do Setor Universidades da CNBB, que participou da elaboração do novo texto.
A atenção da Igreja para com o estilo das paróquias surgiu no Concílio Vaticano II
(1962-1965). Desde então, o assunto apareceu pelo menos uma dezena de
vezes como resultado de reuniões dos bispos nacionais e internacionais. O texto da CNBB, no entanto, é o primeiro no mundo a propor questões de forma tão concreta e detalhada. O relatório não se configura como diretriz. Mas, como tudo o que é validado pela CNBB, tem muita força moral.
Em poucas semanas, o documentos deve ser distribuído às 12000 paróquias do Brasil, para que seja estudado pelos padres. Durante um ano, o conteúdo poderá receber sugestões. Em maio de 2014, ele será publicado como documento oficial da Igreja brasileira. Mesmo sem a obrigatoriedade de seguir os ditos da publicação, o trabalho dos párocos brasileiros nunca mais será o mesmo.
AS NOVAS PROPOSTAS PARA AS PARÓQUIAS
HOMILIA
O que diz o documento:
"Especial importância adquire a homilia, centrada nas leituras da Bíblia,
proclamada na celebração e comprometida com a realidade. Ela precisa
ser breve e capaz de falar com a linguagem dos homens e das mulheres da
cultura atual."
Comentário:
A Igreja quer se comunicar de forma mais direta e eficiente com o fiel.
Isso implica discursos com conteúdos que prendam a atenção da plateia, com linguagem clara e envolvente.
PEQUENAS COMUNIDADES
O que diz o documento:
"Procurar
criar pequenas comunidades a partir de grupos que se reúnem para viver a
sua fé (...). A setorização pode ser estabelecida pela vizinhança ou
por afinidades sem delimitação territorial, como grupos de jovens,
idosos, casais etc."
Comentário:
A criação de pequenos grupos facilita a aproximação dos fiéis e a formação de vínculos entre eles.
As comunidades devem se reunir tanto em torno de leituras da Bíblia e para orações quanto para praticar a fé, fazer caridade e evangelizar.
CATEQUESE
O que diz o documento:
"Para que as
comunidades sejam renovadas, a catequese há de ser uma prioridade. Um
novo olhar permitirá uma nova prática. Isso implica adotar a metodologia
catecumenal."
Comentário:
O
catecumenato, do grego "escuta da mensagem", era comum nos primeiros
séculos do cristianismo. Aprende-se a partir da experiência da fé e da
observação da celebração dos sacramentos, em vez de simplesmente decorar
os princípios cristãos.
NOVAS SITUAÇÕES FAMILIARES
O que diz o documento:
"De nossas
paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo sacramental, outras
estão numa segunda união, e há aquelas que vivem sozinhas sustentando os
filhos (...).
Crianças são
adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do mesmo sexo que vivem
em união estável. A Igreja, família de Cristo, precisa acolher com amor
todos os seus filhos."
Comentário:
A Igreja não
passará a aceitar outras formações familiares além da convencional. Mas
todos os fiéis evem ser incentivados a conhecer a fé e o Evangelho. O
acolhimento pode contemplar, inclusive, o batismo de filhos de casais
homossexuais e de mães solteiras.
ADAPTAÇÃO DE HORÁRIOS
O que diz o documento:
"Usar a
criatividade para atender melhor as pessoas que vivem em diferentes
ritmos da vida diária. Adaptar-se aos horários do movimento urbano:
missas ao meio-dia, atendimento do padre à noite, catequese em horários
alternativos."
Comentário:
As Igrejas
devem criar alternativas para favorecer a chegada e o envolvimento do
fiel. Isso implica mudanças na vida prática, como as citadas acima.
Fonte: Revista VEJA - edição 2319 - ano 46 - nº 18 - 1º de maio de 2013 - Páginas 116-118 - Edição impressa.