Ficha 8: O Mistério da Igreja (1ª LG)
Constituição Dogmática LUMEN GENTIUM – Sobre a Igreja
A Luz dos Povos, a luz das gentes!
Introdução e o Mistério da Igreja (LG 01)
Introdução
Sem sombra de dúvidas, a Lumen Gentium (LG) é
um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II, pois trouxe
aos leigos e leigas, e à própria Igreja enquanto Instituição
hierárquica – conhecida e respeitada no período pré-conciliar como uma
“sociedade perfeita fora da qual não existe salvação” – uma nova imagem
da Igreja como “Povo de Deus”, formada por todos os batizados em Cristo,
e com Ele transformados em um Reino de sacerdotes para Deus.
Sacerdotes, profetas e reis que, independentemente do sacerdócio comum
ou do sacerdócio ministerial, participam do Sacerdócio único de Cristo
(Heb 5,1-10).
Pelo conteúdo e pelas profundas
implicações para o futuro, a elaboração e a votação da LG foram um tanto
conturbadas e muito discutidas. Ao texto inicial, elaborado em quatro
capítulos, foram apresentadas cerca de quatro mil emendas, o que
resultou em sua alteração para sete capítulos, originando a primeira
Constituição Dogmática deste Concílio. O Frei e depois Bispo, Boaventura
Kloppenburg, na Introdução Geral dos Documentos do Concílio afirma que,
tal como a Dei Verbum, a Lumen Gentium é dogmática porque
“teve a intenção formal de ensinar, propor doutrinas e mesmo doutrinas
novas” [1]. Com o texto consolidado, o Documento foi aprovado e
solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI em 21/12/1964, porém a
novidade deste Documento provocou, e provoca até hoje, uma certa
dificuldade de aceitação dentro da própria Igreja.
A LG está dividida em 8 capítulos: I – O
Mistério da Igreja; II – O Povo de Deus; III – A Constituição
Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; IV – Os leigos; V –
Vocação Universal à Santidade na Igreja; VI – Os Religiosos; VII – A
Índole Escatológica da Igreja Peregrina e sua União com a Igreja
Celeste; e VIII – A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério
de Cristo e da Igreja. Neste estudo, eles serão tratados em cinco Fichas
assim nomeadas: I) Introdução e O Mistério da Igreja; II) O Povo de
Deus; III) Uma Igreja Ministerial; IV) Vocação à santidade e índole
escatológica da Igreja; V) A Bem-Aventurada Virgem.
Capítulo I – O Mistério da Igreja
O primeiro capítulo da LG aborda o
Mistério da Igreja, afirmando que “Cristo é a luz dos povos” cuja
claridade resplandece na face de uma Igreja que se mostra em Cristo, ao
mundo, como sacramento ou sinal, e também como instrumento da íntima
união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. “E, retomando os
ensinamentos dos Concílios anteriores, ela deseja oferecer aos seus
fiéis e a todo o mundo, um ensinamento mais preciso sobre sua natureza e
sua missão universal” (LG1). Ao expor que “as presentes condições do
mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja, a fim de que todos os homens… alcancem também a unidade total em Cristo”, a LG assume a necessidade de dialogar com a modernidade, com as demais confissões cristãs e com as religiões não cristãs.
Aborda também o Plano Divino para a
salvação, pela bondade, sabedoria, e vontade livre e insondável do Pai
Eterno ao criar o mundo, decidindo elevar os homens à participação da
sua vida divina, não os abandonando quando pecaram em Adão, mas sempre
lhes proporcionando auxílios necessários para se salvarem, na
perspectiva de Cristo Redentor, Aquele que cumprindo a vontade do Pai
Eterno em plena obediência aos seus desígnios, instaurou na Terra o
Reino dos Céus cujo mistério nos revelou e consumou a redenção
resgatando o gênero humano, oferecendo a salvação (LG2).
A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo, já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Ela
é parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. Sua
missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode
encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no seu Espírito Santo.
Por isso, a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e
continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que
nela já atua misteriosamente. É nela que se experimenta, de modo mais
intenso, o Reino trazido por Jesus!
Tal começo e crescimento da Igreja, são
expressos no Sangue e na Água que brotaram do lado aberto de Jesus
crucificado (Jo 19,34), e anunciadosnas palavras do Senhor acerca da Sua
morte na cruz: «Quando Eu for elevado acima da terra, atrairei todos a
mim» (Jo, 12,32). Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz,
na qual «Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (1Cor 5,7), realiza-se
também a obra da nossa redenção. Pelo Sacramento do Pão Eucarístico, ao
mesmo tempo, é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que
«constituem um só corpo em Cristo» (1Cor 10,17). Todos os homens são
chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem
vivemos, e para o qual caminhamos (LG3).
Consumada a obra confiada ao Filho, Deus
envia o Espírito Santo para santificar a Igreja que nascia, para assim
dar acesso aos crentes até o Pai, por Cristo, num só Espírito. Pelo
Espírito da vida, fonte que jorra para a vida eterna, o Pai dá vida aos
homens mortos pelo pecado, até que um dia ressuscitem em Cristo seus
corpos mortais. Este Espírito que habita na Igreja e no coração dos
fiéis, como num templo, leva a Igreja ao conhecimento da verdade total,
unificando-a na comunhão e no mistério, dotando-a e dirigindo-a com os
diversos dons hierárquicos e carismáticos, embelezando-a com seus frutos
e rejuvenescendo-a com a força do Evangelho (LG4). Enriquecida pelos
dons de seu Fundador, a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer
em todas as gentes, o Reino de Cristo e de Deus, se constituindo, ela
própria, na Terra, o germe e o início deste Reino.
O mistério da Santa Igreja manifesta-se
na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a Boa
Nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas
Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Mc 1,15;
Mt 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença
de Cristo (LG5).
A Igreja nos dá a conhecer sua natureza íntima, servindo-se das várias imagens vislumbradas na Sagrada Escritura: como redil, cuja única e necessária porta é Cristo (Jo 10,1-10); como rebanho, do qual o próprio Deus é Pastor em Cristo (Jo 10,11; 1Ped 5,4); como lavoura ou campo de Deus (1Cor 3,9), onde
cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa são os patriarcas e da qual
se obteve e se completará a reconciliação dos judeus e dos gentios (Rom
11,13-26); como construção de Deus (1Cor 3,9),
na qual Cristo se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que
se tornou a pedra angular (Mt 21,42); e, ainda, como Jerusalém celeste e Nossa Mãe (Gál 4,26) descrita no Livro do Apocalipse (19,7; 21,2.9; 22,17) como a “Esposa Imaculada” do “Cordeiro Imaculado” (LG6).
Refere-se, ainda, como Corpo Místico de Cristo (1Cor
12,13) cuja Cabeça é o próprio Cristo e cujos membros são seus filhos
configurados com Cristo pelo Batismo, formando o corpo da Igreja. Entre
os membros existe a diversidade de funções, e esta diferença provém dos
dons do Espírito Santo que os distribui conforme as necessidades da
Igreja para formarem um corpo único, assim como o corpo humano, cujos
membros devem se conformar com a Cabeça, que é o Cristo Senhor, imagem
do Deus invisível (LG7).
Cristo como mediador único, constitui e
sustenta indefectivelmente [2] a sua Igreja Santa sobre a terra, como
organismo visível, comunidade de fé, de esperança e de amor e, por meio
dela, comunica a todos a verdade e a graça (presença de Deus nos
homens). No entanto, esta Igreja é uma sociedade dotada de órgãos
hierárquicos, além de ser também o corpo místico de Cristo; é uma
assembleia visível e uma comunidade espiritual. A Igreja terrestre e a
Igreja ornada com os dons celestes não devem ser consideradas como duas
entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo
elemento humano e divino. É, portanto, ao mesmo tempo uma Igreja visível
e espiritual, que continua seu peregrinar entre as perseguições do
mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz e a morte do Senhor,
até que Ele venha e se manifeste em luz total na Parusia [3], final dos
tempos (LG8).
[1] Kloppenburg, B., Introdução Geral aos Documentos do Concílio, Compêndio do Vaticano II, 1968, Ed. Vozes, 4 ed. p. 17.
[2] Indefectivelmente – Que não pode falhar ou deixar de ser: apoio indefectível. Certo, infalível.
[2] Indefectivelmente – Que não pode falhar ou deixar de ser: apoio indefectível. Certo, infalível.
[3] Parusia – Segunda vinda de Cristo;
termo usualmente empregado com a significação religiosa da “volta
gloriosa de Jesus Cristo, no final dos tempos, para presidir o Juízo
Final” (Dn 7,13-14; Mt 24,29-31). Fonte: Wikipédia – Para mais
informações: Eucaristia é Parusia e Parusia – A Segunda Vinda de Cristo.
______________________
E-referênciasCosta, Henrique Soares da, A Lumen Gentium.
CNLB, Igreja Mistério.
Para refletir:
1) Sendo Jesus Cristo a Luz dos povos, em que perspectiva a Igreja pode também ser assim chamada (Luz dos povos)?
2) Partindo do pressuposto que a Lumen Gentium nos
proporcionou uma nova visão da Igreja e de seu relacionamento com o
mundo, a você parece importante ou necessário que ela seja conhecida,
difundida e estudada? Após este estudo sobre a Constituição Lumen Gentium, o que você destaca de importante para a vida dos fiéis e da Igreja, e por quê?
3) Das várias imagens da Igreja que a Lumen Gentium nos
apresenta, qual delas melhor a identifica para você e por quê? Você
acrescentaria alguma outra imagem com a qual a Igreja pudesse ser
apresentada?
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