Ficha 7 – Música e Arte Sacras (5ªSC)
Esta
Ficha é dedicada à Música e às Artes Sacras, respectivamente os
capítulos VI e VII da SC que recuperou a importância da expressão
sensorial na vida dos cristãos. O primeiro aborda sobre o valor da
música na comunidade cristã, e o segundo sobre as formas de expressão
artísticas na Igreja. O objetivo de ambos foi valorizar e ressaltar a
importância delas nas Celebrações Litúrgicas com a finalidade de ajudar
os fiéis a se aproximarem de Deus através da beleza artística.
“Depois de terem cantado salmos, foram para o monte das Oliveiras”. (Lc 14,26).
A Música Sacra
Na comunicação do humano com o divino, a
música sempre esteve presente com a finalidade de glorificar a Deus e
santificar os fiéis. A Música Sacra, patrimônio da Igreja, se constituiu
parte integrante da Liturgia, e será tanto mais santa quanto mais
intimamente estiver unida à Ação Litúrgica, como expressão da oração,
como fator de comunhão e elemento de maior solenidade (SC 112). O canto
na Liturgia não é algo decorativo ou secundário para ocupar os fiéis
durante a celebração do Mistério Pascal, mas parte integrante do culto
público da Igreja (1). Sabe-se que ele, além de possuir uma força de
expressão muito mais forte do que a fala, cria comunidade, liga pessoas
entre si, e é a expressão mais natural, mediante a qual uma concentração
numerosa de gente pode manifestar-se. Ele sabe expressar o indizível!
(2)
Os primeiros cristãos se expressaram
através do cantochão, música essencialmente vocal e transmitida
oralmente. Com o tempo, surgiu a necessidade de uma unificação desses
cantos para que fossem reconhecidos por todos e mais facilmente
praticados. Esse trabalho foi realizado pelo Papa São Gregório I, o
Magno (590-604), depois continuado pelos outros também papas Gregórios
II e III até o ano de 741, motivo pelo qual foi nomeado ‘Canto
Gregoriano’ conhecido e cantado até hoje. A tendência musical foi se
desenvolvendo em partes ou vozes diferentes, acompanhadas de
instrumentos, se tornando mais elaborada e não mais praticada pelo povo
nas assembleias, pois eram necessários coros e músicos muito bem
preparados. Porém, a Música Sacra que sempre atraiu compositores e se
fez representar na História, se distanciou da participação ativa do povo
nas funções litúrgicas. Durante a Idade Média até o século XIX houve
certo declínio musical devido a influencia da música profana na vida
eclesial. Somente no século XX, o papa São Pio X promoveu a renovação do
Canto Gregoriano com a criação de uma escola musical com a finalidade
de reavivar a vida pastoral. Depois disso, somente no Concílio Vaticano
II se retomou a questão do canto.
A SC estabelece que a Liturgia torna-se mais nobre quando celebrada de modo solene com canto (SC 113) e, segundo a Instrução Musicam Sacram,
sobre Música na Liturgia (1967), o canto, especificamente a Música
Sacra, é de grande importância, uma vez que mais claramente demonstra o
aspecto “eclesial” da celebração, e também é muito eficaz na promoção da
devoção dos fiéis nas Celebrações da Palavra de Deus, e na devoção
popular.
A grande novidade do Concílio Vaticano
II, no que diz respeito à música na SC, é a proposta de poder ser
cantada na língua pátria, o que favorece a participação ativa da
assembleia. Novas ações são recomendadas, incluindo desde uma boa
formação musical nos Seminários, Instituições Religiosas e Escolas
Católicas, até o incentivo à fundação dos Institutos Superiores de
Música Sacra, para que os compositores, os cantores e também as crianças
recebam uma verdadeira educação litúrgica (SC 115). O Canto Gregoriano
tem o primeiro lugar como canto oficial próprio da Liturgia Romana,
porém, todos os outros gêneros também são aceitos (SC 116). Adaptando-se
às diferentes culturas, a Igreja não quer impor, porém, aceita na
Liturgia tudo o que se harmonizar ao seu verdadeiro espírito e não
estiver ligado a superstições (SC 37).
Na América Latina e, em particular no
Brasil, a música popular encontra um grande campo de manifestação na
Liturgia. Entretanto, essa manifestação deve ser entendida não pela
transcrição pura e simples de melodias já existentes cantadas com outros
textos, mas com características que marcam e deixam as frases musicais
mais fáceis de serem cantadas por todos.
A SC estimula os cantos populares
religiosos nos exercícios piedosos e sagrados (SC 118); motiva os
compositores na criação de músicas que possam ser cantadas pelas
assembleias, com base nos textos da Sagrada Escritura e nas fontes
litúrgicas (SC 121); pede aos instrumentistas que procurem manter com
dignidade a edificação dos fiéis, respeitando a tradição musical dos
diversos povos, e culturas no caso das Missões (SC 119); e pede também
que se considere o órgão de tubo e que seja usado como instrumento
tradicional, que dá às celebrações um esplendor extraordinário,
promovendo o espírito para Deus (SC 120) (3).
Em 1963, foi criado no Brasil o
Secretariado Nacional de Liturgia, que desenvolveu a Comissão Nacional
de Música Sacra, hoje Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia,
ligada à CNBB. Esta comissão tem realizado encontros nacionais e
regionais de músicos, musicólogos e liturgistas, tendo em vista o
estudo, a criação e o incentivo de uma música litúrgica brasileira.
Destes encontros surgiu um grande repertório de músicas litúrgicas. Em
1989, a Assembleia Geral da CNBB através do Documento 43 - Animação da Vida Litúrgica no Brasil,
recomenda que se dê “grande valor” ao canto e à música, e aponta ser
fundamental que a assembleia se expresse a seu modo, e até componha seus
próprios cantos (Doc 43, 208). Além disso, destaca que devem ser
incentivadas as participações cantadas em partes da missa como os
Salmos; a Oração Eucarística, ao menos o Prefácio; as Leituras ou a sua
Conclusão; e as Aclamações devem ter mais incentivo e ser mais variadas
com cantos, palmas ou vivas (Doc 43, 209). Também são consideradas
fontes de expressão na Liturgia, os gestos, as posturas, as caminhadas e
a dança (Doc 43, 83). Com uma visão prática, o Documento 43 ressalta a
importância de se situar a Celebração no tempo e na vida da comunidade;
de aprofundar as Leituras; de praticar exercícios de criatividade e
formar equipes que elaborem roteiros para as Celebrações, que incluam
cantos e outras manifestações artísticas.
Desde 1992, o Curso Ecumênico de
Formação e Atualização Litúrgico Musical (CELMU) procura ajudar na
preparação adequada de compositores (as), letristas, animadores(as) de
canto, regentes e instrumentistas engajados na Pastoral Litúrgico
musical. Também a Campanha da Fraternidade, desde 1964, tem organizado,
anualmente, concursos que possibilitam a criação de textos e melodias
sobre determinado aspecto social da realidade brasileira, e que são
cantados durante todo o período da Quaresma na maioria das comunidades
brasileiras.
Deste crescente movimento surgiram, a
partir de 1985, os quatro volumes do Hinário Litúrgico da CNBB (Tempo do
Advento e Natal; Tempo da Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes;
Tempo Comum e Santoral), como primeira sistematização de toda a
produção musical no Brasil desde o Concílio.
Há, ainda que se destacar, que houve uma
popularização no uso dos instrumentos, como violões, violas, flautas,
instrumentos de percussão e outros que contribuíram para a inculturação
da liturgia, animando e facilitando a participação do povo nos cantos.
Na Arquidiocese de Campinas, foi criado o CEMULC (Curso de Extensão em Música Litúrgica da Arquidiocese de Campinas)
cujo objetivo principal é preparar os agentes de pastoral para que
possam, em suas paróquias e comunidades, desempenhar o seu ministério em
conformidade com os princípios teológicos, litúrgicos, pastorais,
musicais e estéticos que justificam a Música Litúrgica.
Artes Sacras e as Sagradas Alfaias
As Artes Sacras ou
Artes Religiosas são manifestações artísticas, objetos que são usados na
Igreja para as Celebrações Litúrgicas ou para a catequese. Elas tendem a
exprimir, pelas mãos do artista, a infinita beleza de Deus,
contribuindo e conduzindo o espírito do homem até Ele (SC 122). As artes
trazem uma concepção teológica que tem como finalidade propiciar ao
povo cristão a experiência da leveza e beleza espiritual que se
manifesta como louvor a Deus. Os objetos artísticos religiosos ajudam o
povo a contemplar o mistério na medida em que fazem interiorizar e
sentir o religioso manifestando-se em suas vidas. A SC cuidou para que
também a Arte Litúrgica, seguisse a orientação cristocêntrica do
Concílio, isto é, buscou destacar que tudo deve estar em função do
Cristo. A Igreja não possui um estilo próprio de arte sacra ou
religiosa, mas aceitou e aceita todas, de todas as épocas, e defende que
seja também cultivada a Arte do tempo presente, de todos os povos e
regiões. E, toda arte que serve de instrumento, de sinal e de símbolo do
sobrenatural é amada pela Igreja, que deve ter o zelo na sua escolha,
optando por obras que estão de acordo com a fé, a piedade e as
orientações da tradição para serem objetos dignos, decorosos e belos ao
culto. (SC123). Tanto a Introdução do Missal Romano como dos Rituais
Sacramentais trazem, em si, estas orientações.
Os artistas conseguem traduzir em suas
obras os sentimentos e a alma do povo, por isso, a Igreja tem
necessidade de novos artistas para que surjam novas manifestações de fé
através da arte. No Brasil, a Arte Religiosa pode ser constatada nas
construções das Igrejas, na beleza das imagens, na dança e na pintura.
Atualmente, muitas Igrejas recorrem à pintura de murais em seus
interiores. Especialmente as CEB’s, com os seus famosos painéis
produzidos pelos Encontros Inter Eclesiais, fizeram surgir uma arte
iconográfica própria, que enaltece a dimensão comunitária da fé.
Nesta perspectiva confirmam-se, na prática, as palavras que o Papa Paulo VI dirigiu aos artistas na conclusão do Concílio: Hoje
como ontem, a Igreja tem necessidade de vós e volta-se para vós. E
diz-vos pela nossa voz: não permitais que se rompa uma aliança, entre
todas, fecunda (Paulo VI “Aos Artistas”, 1963).
Um outro tipo de arte utilizada nas
Celebrações Litúrgicas são as Alfaias, ou seja, os objetos que estão a
serviço da Liturgia – mais propriamente, todos os vasos sagrados e
paramentos litúrgicos utilizados pelos ministros ordenados. São eles:
Cálice: é o Vaso Sagrado por excelência e está reservado para consagração do Vinho.
Patena: é um pequeno
prato, de material nobre na sua parte côncava, usado para colocar a
hóstia grande que será consagrada, e também para recolher os fragmentos
das partículas que caíram no corporal, sobre o altar depois da comunhão.
Pala: é utilizada para cobrir o cálice durante a Santa Missa.
Corporal: Corporale = corpo, é um tecido branco quadrado que é aberto sobre o Altar e sobre ele são colocados o Cálice e a Patena.
Sanguíneo: é um tecido usado para enxugar os lábios e os dedos do Sacerdote e, também, o Cálice depois da Comunhão.
Âmbula: é o vaso utilizado para colocar as hóstias que serão consagradas durante a Missa e distribuídas aos fiéis na comunhão.
Lavabo: é formado por uma jarra e uma bacia, utilizados para o Sacerdote lavar as mãos depois das oferendas.
Manustérgio: toalha utilizada para enxugar as mãos do Sacerdote.
Galhetas: levam o vinho e a água que são utilizados na Celebração Eucarística.
Túnica: Vestimenta do Sacerdote
Estola: que representa a autoridade do Sacerdote como o Ipse Christus, o Mesmo Cristo.
Casula: Capa usada por cima da Túnica e da Estola, usada comumente nas celebrações em dias de Festas e Solenidades.
A SC determina aos Bispos que tenham
cuidado em retirar da casa de Deus, e de outros lugares sagrados, as
obras de artes que não sejam condizentes com a fé, os costumes e a
piedade cristã. Que a construção dos Edifícios Sagrados estejam
preparados para realizar as ações Litúrgicas com a participação ativa
dos fiéis. Que tanto a Arte Sacra quanto as Alfaias Litúrgicas, sejam
preferidas as mais simples e nobres, não necessitando ser suntuosas (SC
124). E, que as imagens nas Igrejas estejam dispostas, em número
comedido e nas devidas ordens, para a veneração dos fiéis (SC 125).
Recomenda também aos Bispos, a formação
dos artistas e a criação de Escolas ou Academias de Arte Sacra onde
parecer oportuno; e a vigilância no que diz respeito à construção
funcional e digna dos edifícios sagrados e dos altares, a nobreza, a
disposição e a segurança dos Sacrários, a dignidade do Batistério, a
decoração e os ornamentos, para que estejam de acordo com a reforma da
Liturgia (SC 127, 128).
(1) Apresentação do Hinário Litúrgico – CNBB – 1º Fascículo – escrita por Dom Geraldo Majella Agnelo – Paulus Editora
(2) Função Ministerial da Música na Celebração Litúrgica – Hinário Litúrgico – 3º Fascículo – Edições Paulinas
(3) Vale a recomendação, porém sabemos da enorme dificuldade de se poder contar com orgãos de tubo no Brasil.
Referências bibliográficasDocumento 43. Itaici: CNBB, 1989.
Fonseca, Joaquim, OFM. Cantando a missa e o Oficio Divino. São Paulo: Paulus, 2005.
Fonseca, Joaquim, OFM. Quem canta? O que cantar na Liturgia?São Paulo: Paulus, 2009.
Molinari, Paula (org.) Música brasileira na Liturgia (I e II). São Paulo: Paulus, 2009.
PAULO VI. Carta aos artistas. Roma, 1963.
Sacrosanctum Concilium. Roma, 1963.
Referências eletrônicas
A Música Litúrgica no Brasil , Estudos 79 CNBB, 2005
Símbolos Litúrgicos
Importância e Função do canto e da Música na Liturgia Rede Celebra Ficha 19:
O canto e a música no tempo do Ano Litúrgico Rede Celebra – Ficha 20
Para partilhar:
- Na sua comunidade existe uma equipe que trabalha na escolha e nos ensaios dos cantos para, conforme a SC, “serem tanto mais santos quanto intimamente unidos à ação litúrgica”? E, que efeito a música, tocada e cantada na sua comunidade, provoca na sua oração durante as Celebrações Litúrgicas?
- Durante as funções, a assembleia tem participação ativa na parte musical? Quais são as diversas expressões usadas na sua comunidade nos diversos Tempos Litúrgicos?
- O que esta Ficha trouxe de novo para o seu conhecimento? E o que mais despertou o seu interesse, ou respondeu aos seus anseios no que diz respeito às Artes e Alfaias Litúrgicas?
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